Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.
— Mamãe, tire esse cabelo da testa. — É um pouco da franja ainda. — Mas você fica feia assim. — Tenho o direito de ser feia. — Não tem! — Tenho! — Eu disse que não tem!
E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava- me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.
(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)
Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder à questão.
“Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave”
O emprego de crase na expressão sublinhada é facultativo, assim como em:
AVou à Itália nas próximas férias.
BComemos sempre às 11h.
CEla se mostrou favorável à medida.
DPassei à Cláudia a informação.
EDedicamo-nos às tarefas.
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GabaritoD — Passei à Cláudia a informação.
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Crase facultativa: quando o acento grave é opcional
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que apresenta crase facultativa, assim como em "trancar a porta a chave". A crase é facultativa quando a preposição "a" é exigida por um verbo que admite também a construção sem preposição (bitransitividade), como ocorre com "passar" (passar algo a alguém ou passar algo para alguém). No texto, "trancar a porta a chave" é uma locução adverbial de instrumento em que o substantivo "chave" é feminino, mas a crase é facultativa porque a locução pode ser usada sem o artigo.
"Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave"
A crase em "a chave" é facultativa porque se trata de uma locução adverbial de instrumento com substantivo feminino, e a norma culta admite tanto "a chave" quanto "à chave". A alternativa D, "Passei à Cláudia a informação", apresenta crase facultativa diante de nome próprio feminino, pois o artigo antes de nomes próprios é opcional.
Desenvolvimento: a regra da crase facultativa
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a" ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos. Ela é obrigatória quando a preposição e o artigo são exigidos simultaneamente, e proibida antes de palavras masculinas, verbos e pronomes de tratamento. Mas há casos em que a crase é facultativa, ou seja, pode-se usar ou não o acento grave sem prejuízo da norma culta.
Os três casos clássicos de crase facultativa são:
Antes de nomes próprios femininos: "Passei à Cláudia" ou "Passei a Cláudia" — ambos corretos, pois o artigo antes de nome próprio é opcional.
Antes de pronomes possessivos femininos: "Referi-me à sua ideia" ou "Referi-me a sua ideia" — o possessivo pode ou não ser precedido de artigo.
Após a preposição "até": "Fui até à praia" ou "Fui até a praia" — a preposição "até" admite ou não a fusão com o artigo.
No texto, "trancar a porta a chave" é uma locução adverbial de instrumento. A banca considera que, nesse contexto, a crase é facultativa, pois a locução pode ser usada com ou sem o artigo definido. A alternativa D reproduz exatamente esse caso: "Passei à Cláudia" — o verbo "passar" exige a preposição "a" (passar algo a alguém), e o nome próprio "Cláudia" pode ou não ser precedido de artigo, tornando a crase facultativa.
Crase facultativa
1Antes de nomes próprios femininos
Passei à Cláudia / a Cláudia
2Antes de pronomes possessivos femininos
Referi-me à sua ideia / a sua ideia
3Após a preposição "até"
Fui até à praia / até a praia
4Locuções adverbiais de instrumento
Trancar a porta à chave / a chave
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Vou à Itália nas próximas férias." A crase é obrigatória porque o verbo "ir" exige a preposição "a" e o topônimo "Itália" admite artigo feminino. Não há opção: "Vou a Itália" seria incorreto. A banca explora a confusão com nomes de lugar, mas aqui a regra é fixa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Comemos sempre às 11h." A crase é obrigatória em locuções adverbiais de tempo com horas determinadas. Não se pode escrever "as 11h" sem crase nesse contexto. A banca testa o conhecimento de locuções adverbiais, mas a regra é rígida.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Ela se mostrou favorável à medida." A crase é obrigatória porque o adjetivo "favorável" exige a preposição "a" e o substantivo "medida" admite artigo feminino. Não há facultatividade: "favorável a medida" seria erro. A banca explora a confusão com adjetivos que pedem preposição, mas aqui a regra é fixa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Passei à Cláudia a informação." A crase é facultativa porque o verbo "passar" exige a preposição "a" (passar algo a alguém), mas o nome próprio feminino "Cláudia" pode ou não ser precedido de artigo. Assim, "Passei a Cláudia" também seria correto. Isso espelha exatamente o caso do texto, em que "a chave" pode ser usado com ou sem crase.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Dedicamo-nos às tarefas." A crase é obrigatória porque o verbo "dedicar-se" exige a preposição "a" e o substantivo "tarefas" admite artigo feminino plural. Não há opção: "dedicamo-nos as tarefas" seria erro. A banca testa a regência verbal, mas aqui a regra é fixa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura casos de crase obrigatória (A, B, C, E) com o único caso facultativo (D). A armadilha é o candidato confundir "facultativa" com "obrigatória" em locuções adverbiais ou regências fixas.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar crase facultativa, pergunte: "o artigo pode ser omitido sem alterar o sentido?" Se sim, a crase é opcional. Nomes próprios femininos e possessivos são os casos mais cobrados.