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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205531
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2024
Cargo
Esc ( )

Liberdade adiada

 

Sentia-se cansada. A barriga, as pernas, a cabeça, o corpo todo era um enorme peso que lhe caía irremediavelmente em cima. Esperava que a qualquer momento o coração lhe perfurasse o peito, lhe rasgasse a blusa.

 

Como seria o coração?

 

Teria mesmo aquela forma bonita dos postais coloridos?

 

… Será que as dores deformam os corações?

 

Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama, confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam as solas dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.

 

Imaginou os filhos que aguardavam e já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava!

 

Não. Não voltaria para casa.

 

O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final.

 

Conhecia aquele tipo de sorriso e não tinha boas recordações dos tempos que vinham depois. Mas um dia havia de o eternizar. E se fosse agora, no instante que madrugava? A lata e ela, para sempre, juntas no sorriso do barranco.

 

Gostava de sua lata de carregar água. Tratava bem a lata. Às vezes, em momentos de raiva ou simplesmente indefinidos, areava uma, dez, mil vezes, até que sua lata ficava a luzir e a cólera, ou a indefinição se perdiam no brilho prateado. Com o fundo de madeira que tivera que mandar colocar, ficou mais pesada, mas não eram daí os seus tormentos.

 

À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito.

 

O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos… Como ela os amava, Nossenhor!

 

Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela.

 

Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.

(Dina Salústio. Mornas eram as noites. Adaptado)

Pela passagem – Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama… – é correto afirmar que a personagem
  1. Aestá fraca para carregar latas cheias de água.
  2. Bevita os caminhos que ladeiam o barranco.
  3. Cprecisa molhar-se para suportar o calor.
  4. Ddeseja fugir da realidade que tanto a oprime.
  5. Equer saber exatamente como funciona o coração
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — deseja fugir da realidade que tanto a oprime.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de metáfora: o desejo de fuga da realidade

Gabarito: letra D. A passagem “Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama…” deve ser lida em sentido figurado: a personagem imagina dissolver-se, confundir-se com a terra, como forma de escapar da vida que a oprime. Essa leitura é confirmada pelo título do texto (“Liberdade adiada”) e pelo desfecho, em que ela “Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás”. As demais alternativas interpretam a passagem de forma literal, atribuindo à personagem fraqueza física, calor ou curiosidade científica — nada disso está no texto.

O comando: interpretar, não compreender literalmente

O enunciado pede que se afirme algo sobre a personagem a partir da passagem citada. Isso é uma questão de interpretação: a resposta não está explícita palavra por palavra, mas é uma inferência ancorada em pistas do texto. A banca quer que o candidato perceba que a imagem de “fazer-se lama” é uma metáfora do desejo de aniquilamento, de fuga da realidade — não uma descrição literal de um gesto físico.

O texto: a opressão e o sonho de liberdade

O conto apresenta uma mulher exausta, sobrecarregada pela rotina de carregar água, pelos filhos e pela vida dura. Ela sente o corpo como “um enorme peso”, imagina o coração deformado pelas dores e pensa em se jogar no barranco. A passagem citada é o ápice desse desejo de escape: atirar a lata, esparramar-se no líquido, fazer-se lama — tudo isso é uma imagem poética de dissolução, de desaparecer, de não mais suportar a existência. O texto diz que ela “Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no líquido, encharcar-se, fazer-se lama, confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam as solas dos pés, lhe queimavam as veias, lhe roubavam as forças.” A repetição de “lhe” (as solas, as veias, as forças) mostra que os caminhos consomem a personagem; ela quer se fundir a eles para acabar com o sofrimento.

A técnica: metáfora e inferência

A chave é distinguir denotação (sentido literal) de conotação (sentido figurado). “Fazer-se lama” não é um desejo real de virar barro; é uma metáfora do desejo de morte, de desaparecimento, de fuga. A inferência legítima se apoia em pistas: o título “Liberdade adiada”, a ideia de “sonho de liberdade” no final, e o fato de ela “odiar” os filhos num momento de desespero, para depois amá-los. Tudo converge para a opressão e o desejo de escapar.

As alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que ela está fraca para carregar latas. Ela sente o corpo pesado, mas isso é descrição de cansaço e sofrimento, não de incapacidade física. A passagem citada é sobre desejo de fuga, não sobre força.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Ela não evita os caminhos; pelo contrário, eles são parte de sua rotina opressiva (“caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam as solas dos pés”). A passagem mostra o desejo de se confundir com eles, não de evitá-los.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação com leitura literal. Não há menção a calor ou necessidade de se molhar. A imagem de “encharcar-se” é metafórica, ligada à dissolução, não a uma necessidade fisiológica.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. A passagem expressa o desejo de fugir da realidade que a oprime. Isso é confirmado pelo título “Liberdade adiada” e pelo final: “Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.” A metáfora de “fazer-se lama” representa o anseio de escapar, de se dissolver, de não mais suportar a vida dura.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: fuga ao tema. A personagem até se pergunta “Como seria o coração?”, mas isso é uma divagação, não o sentido da passagem citada. A passagem fala de fuga, não de curiosidade científica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre sentido literal e figurado. As alternativas A, C e E interpretam a metáfora ao pé da letra, como se a personagem realmente quisesse se molhar ou estivesse fraca. A correta exige perceber a conotação.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, desconfie de alternativas que tragam explicações muito “práticas” ou literais para imagens poéticas. Pergunte: o texto autoriza essa leitura, ou estou acrescentando algo de fora?

Gabarito: letra D — a única que capta o sentido figurado da passagem, ancorado no título e no desfecho do texto.

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