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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205539
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2024
Cargo
V - - Vest ( )

A SABEDORIA DOS CÉUS

 

Cada vez que tocamos algo na Natureza,

causamos reverberações no resto do Universo.

John Muir (1838-1914)

 

Existe magia nos céus. E essa magia nos compele a olhar para cima, a explicar, de alguma forma, nosso lugar no vasto Universo em que vivemos. Afinal, nós somos poeira das estrelas, nossa química deriva de explosões estelares que ocorreram antes ainda da formação do sistema solar. Se durante a história da humanidade nossas explicações vieram originalmente das várias religiões, hoje elas provêm da ciência. Mas, conforme procurei argumentar neste livro, não existe uma ruptura abrupta entre o discurso religioso e o discurso científico. O fascínio e o medo dos céus, que são parte integral de muitas religiões, influenciaram e influenciam o desenvolvimento das teorias científicas que criamos para explicar os movimentos celestes. O que antes era inesperado, assustador, tantas vezes interpretado como uma mensagem dos deuses ou mesmo como um prenúncio do Fim, é hoje incorporado nas nossas teorias cósmicas, que visam descrever os diversos fenômenos celestes como sendo consequência de relações de causa e efeito entre objetos materiais. A magia, mesmo que agora faça parte do discurso científico, persiste.

 

É difícil aceitar a ideia de que nós somos relativamente insignificantes dentro do contexto cósmico, de que nossa existência individual ou mesmo como espécie tem tão pouca influência no desenrolar das criações e destruições que se propagam pelo Universo. Como podemos reconciliar nossa capacidade de refletir sobre o mundo e sobre nós mesmos com o fato de que nossas vidas são tão curtas, de que por mais que amemos e aprendamos, teremos sempre muito mais o que amar e aprender? Não existe uma única resposta para essa pergunta. Cada pessoa tenta, consciente ou inconscientemente, responder a ela de alguma forma. Talvez a resposta esteja na própria pergunta, no fato de que nossa existência é limitada. Sem limites não existem desejos. E sem desejo não existe criação. Seria frustrante passar toda uma vida nos preocupando com o que não teremos chance de fazer após morrermos. Mais do que frustrante, seria um desperdício.

 

Nós vimos como processos regenerativos ocorrem a partir de eventos destrutivos: asteroides caem sobre a Terra, extinguindo várias espécies mas permitindo que outras evoluam; estrelas são criadas a partir dos restos de outras, em um ciclo de renovação que se perpetua de galáxia em galáxia; até mesmo o nosso Universo tem uma história, cujo começo ainda não conhecemos e cujo fim talvez jamais vamos conhecer. Esses processos de regeneração não são uma exclusividade celeste, mas ocorrem à nossa volta todos os dias. Cada árvore que tomba dá origem a muitas outras; cada vida humana semeia muitas outras. Nós somos seres complicados, imaturos, capazes das mais belas criações e dos crimes mais horrendos. Talvez, ao aprendermos mais sobre o mundo à nossa volta, sobre os vários ciclos de criação e destruição que acontecem continuamente nos céus e na Terra, sejamos capazes de crescer um pouco mais, de enxergar além das nossas diferenças, e de trabalhar juntos para a preservação do nosso planeta e da nossa espécie. O primeiro passo é simples: é só olhar para os lados, com respeito, curiosidade, humildade e admiração. E não temos sequer um minuto a perder.

 

(O fim da Terra e do Céu, 2011.)

Para responder à questão, leia o epílogo do livro O fim da Terra e do Céu, do físico brasileiro Marcelo Gleiser.

   

De acordo com o autor,

  1. Aas teorias científicas atuais acabaram por transformar o próprio discurso religioso.
  2. Bo começo e o fim do Universo constituem domínios inacessíveis ao conhecimento humano.
  3. Co discurso científico atual mostra-se ainda tributário do fascínio e do medo dos céus.
  4. Do fascínio e o medo dos céus estão no cerne das teorias científicas mais atuais.
  5. Ea distinção entre discurso religioso e discurso científico torna-se mais e mais nebulosa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — o discurso científico atual mostra-se ainda tributário do fascínio e do medo dos céus.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A relação entre ciência e religião no texto de Gleiser

Gabarito: letra C. A alternativa correta afirma que o discurso científico atual ainda é tributário do fascínio e do medo dos céus, e isso está literalmente no texto: "O fascínio e o medo dos céus, que são parte integral de muitas religiões, influenciaram e influenciam o desenvolvimento das teorias científicas que criamos para explicar os movimentos celestes." A questão é de compreensão (o comando pede "de acordo com o autor"), ou seja, a resposta é uma paráfrase fiel de uma ideia explícita, sem deduções.

O comando "De acordo com o autor" é o sinal clássico de compreensão/recorrência: a banca quer que você localize uma informação que está escrita no texto e a reconheça reescrita com outras palavras. Não se trata de inferir, deduzir ou completar com conhecimento de mundo — a resposta certa é a que parafraseia uma passagem, sem acrescentar nada. O texto é um epílogo dissertativo-argumentativo em que Gleiser defende a tese de que não há ruptura abrupta entre o discurso religioso e o científico, pois o fascínio e o medo dos céus (herança religiosa) continuam moldando a ciência.

A técnica que decide esta questão é simples: teste cada alternativa perguntando "onde o texto autoriza isto?". A correta (C) tem ancoragem direta no 1º parágrafo. As demais ou extrapolam (vão além do que está escrito), ou restringem o alcance da afirmação do autor, ou contradizem o texto. Vejamos cada uma.

"O fascínio e o medo dos céus, que são parte integral de muitas religiões, influenciaram e influenciam o desenvolvimento das teorias científicas que criamos para explicar os movimentos celestes."

Esta é a passagem-mãe da questão. Repare nos verbos: "influenciaram e influenciam" — passado e presente. O autor diz que o fascínio e o medo ainda hoje influenciam a ciência. A alternativa C diz exatamente isso com a palavra "tributário" (que depende de, que deriva de). É uma paráfrase perfeita.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa inverte a relação de influência. O texto diz que o fascínio e o medo dos céus (elementos religiosos) influenciam as teorias científicas — ou seja, a religião influencia a ciência. A alternativa A afirma o contrário: que as teorias científicas transformaram o discurso religioso. Não há nenhuma passagem que sustente essa inversão. O autor nunca diz que a ciência mudou a religião; ele diz que a ciência incorpora elementos que antes eram religiosos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz, no 3º parágrafo, que o Universo "tem uma história, cujo começo ainda não conhecemos e cujo fim talvez jamais vamos conhecer". A alternativa B transforma isso em "domínios inacessíveis ao conhecimento humano" — uma afirmação absoluta e definitiva. O texto fala em "ainda não conhecemos" (sugere possibilidade futura) e "talvez jamais" (incerteza, não impossibilidade). A alternativa restringe/generaliza ao transformar uma situação de desconhecimento atual e incerto em uma impossibilidade permanente. É a clássica armadilha do absoluto: "inacessíveis" é muito mais forte do que "ainda não conhecemos".

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Ancoragem direta. Como já citado, o texto afirma que o fascínio e o medo dos céus "influenciaram e influenciam o desenvolvimento das teorias científicas". A palavra "tributário" significa exatamente isso: que algo é devedor, dependente de outra coisa. O discurso científico atual depende (é tributário) do fascínio e do medo dos céus, que são herança religiosa. Não há extrapolação: a alternativa diz exatamente o que o texto diz, apenas com vocabulário diferente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: restringe/exagera o alcance. O texto diz que o fascínio e o medo dos céus influenciam o desenvolvimento das teorias científicas. A alternativa D diz que eles estão "no cerne" (no núcleo, no centro) das teorias mais atuais. Isso é um exagero: influenciar não é estar no cerne. Além disso, o texto fala de "teorias científicas" em geral, não especificamente das "mais atuais". A alternativa restringe o alcance (só as mais atuais) e intensifica a relação (de influência para cerne). É uma distorção dupla.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que "não existe uma ruptura abrupta entre o discurso religioso e o discurso científico" — ou seja, há continuidade, mas isso não significa que a distinção entre eles esteja "cada vez mais nebulosa" (confusa, indistinta). O autor afirma que os discursos se influenciam, não que se confundem. A alternativa E extrapola a ideia de continuidade para uma ideia de fusão/indistinção que o texto não sustenta. O autor mantém os dois discursos como entidades distintas que se relacionam.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a diferença entre "influenciar" e "estar no cerne" (D) e entre "não há ruptura abrupta" e "distinção nebulosa" (E). São palavras que parecem próximas, mas mudam completamente o sentido. Grife os verbos e os advérbios de intensidade.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas com palavras absolutas ("inacessíveis", "sempre", "nunca", "apenas") e de verbos que intensificam a relação ("transformar", "estar no cerne"). A resposta certa quase sempre usa um verbo mais modesto, que espelha o do texto.

Conclusão: a questão se resolve confrontando cada alternativa com a passagem exata do texto. A única que se sustenta integralmente é a C, que parafraseia "influenciaram e influenciam" com "mostra-se ainda tributário". As demais ou invertem a relação (A), ou absolutizam (B), ou exageram (D), ou extrapolam (E).

Gabarito: letra C

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