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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205585
Banca
VUNESP
Órgão
SEMAE PIRACICABA
Ano
2024
Cargo
Esc (SEMAE Pira)

Histórias de médico em formação

 

Os plantonistas conhecem esta situação. No meio da noite, alguém bate insistentemente à porta: depressa, doutor, é um caso urgente. E aí é preciso saltar da cama e vestir-se precipitadamente e lavar o rosto com a esperança de que a água fria restaure a capacidade de raciocínio embotada pelo sono, e então sair e encontrar na maca um baleado, um esfaqueado, uma mulher que se retorce em dores, uma criança que mal respira. A urgência é mais que uma forma de atendimento, é um modo de viver estressante, frenético, onde a rotina mencionada nos livros jamais existe.

É raro o médico que não tenha passado por um serviço de urgência. Quando eu era estudante de medicina, fazia-se, por meio de um concurso público, um estágio de dois anos. Fui designado para um posto na Grande Porto Alegre. Antes mesmo de entrar na escala de plantões, resolvi ir até lá para conhecer o lugar. Era uma casinha velha e acanhada, cheia de gente, que estava esperando desde a madrugada. Procurei o médico-chefe e perguntei quem estava de plantão. Tu, foi a pronta resposta, e este foi o meu batismo de fogo no serviço de urgência.

Além dos pacientes que vinham ao local, era preciso responder a dezenas de chamados em domicílio. A ambulância era velha e quebrada, de modo que estávamos sempre atrasados, para grande angústia e irritação das pessoas que chamavam. Uma tarde, depois de atender a numerosos desses chamados, regressei ao posto, exausto. O funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado no rio, deveríamos ir lá imediatamente. Voltei para a ambulância e nos dirigimos para o local. 

Uma multidão se concentrava ali, em torno a um corpo na margem. Bastou-me um olhar para verificar que o homem estava morto há horas, quem sabe há dias. A ressuscitação ali era apenas pró-forma, mas eu procederia como tinham me ensinado: massagem cardíaca e respiração boca a boca. Junto ao grupo estava um cabo, acompanhado de um soldado. Eu disse ao militar que faria a massagem e pedi o seu auxílio para a respiração boca a boca. O homem olhou-me, horrorizado, mas teve presença de espírito: mandou o soldado fazer o que eu havia lhe pedido. O soldado não tinha em quem mandar, de modo que não lhe restava outro remédio senão obedecer. Perguntou somente se podia usar o lenço para evitar um contato direto. Eu disse que sim. Quem se oporia, além do morto?

Fizemos a rápida encenação, depois partimos.

(Moacyr Scliar. Território da emoção. Companhia das Letras, 2013. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.   Quanto às considerações do autor sobre a formação e a rotina do médico, é correto afirmar que
  1. Aa teoria do que é ser um plantonista corresponde fidedignamente à prática diária da profissão.
  2. Bos casos graves com que se depara quem está de plantão acabam se tornando uma rotina banal.
  3. Ca sondagem dos locais para os quais o estudante fora designado para atuar é algo comum.
  4. Do atendimento em urgências é parte do processo formativo para quase todos os que serão médicos.
  5. Eo estresse sob o qual se encontra o plantonista é rotineiro e pouco compreendido pelos colegas de trabalho.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — o atendimento em urgências é parte do processo formativo para quase todos os que serão médicos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de Texto: formação e rotina do médico

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única inteiramente sustentada pelo texto: o autor afirma que "É raro o médico que não tenha passado por um serviço de urgência" e narra sua própria experiência como estudante de medicina, designado para um posto de urgência. Isso prova que o atendimento em urgências é parte do processo formativo para quase todos os médicos. As demais alternativas ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o que está escrito.

O comando pede uma compreensão ("é correto afirmar que"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia explícita no texto, sem deduções ou acréscimos. A banca não pede inferência, mas a localização de uma informação que está dita. Por isso, o método é: procurar a passagem que corresponde exatamente ao que cada alternativa afirma, e descartar tudo o que exigir "completar" o texto com o que ele não diz.

O texto é uma crônica narrativa em primeira pessoa, em que o autor relembra sua formação médica. O tema central é a experiência do plantão de urgência como rito de passagem na carreira do médico. A tese implícita é que essa vivência é intensa, estressante e formativa — mas o que a questão cobra é um dado específico: a universalidade dessa experiência na formação. O segundo parágrafo é a âncora da resposta:

"É raro o médico que não tenha passado por um serviço de urgência. Quando eu era estudante de medicina, fazia-se, por meio de um concurso público, um estágio de dois anos."

A expressão "É raro o médico que não tenha passado" é uma dupla negação que equivale a "quase todos os médicos passaram". O autor então relata seu próprio estágio obrigatório, o que confirma que a urgência integra a formação. A alternativa D parafraseia exatamente isso: "o atendimento em urgências é parte do processo formativo para quase todos os que serão médicos".

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora? A correta é a única que se apoia em uma passagem literal; as erradas ou contradizem o texto, ou restringem indevidamente, ou acrescentam opiniões que o autor não emitiu.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "a teoria do que é ser um plantonista corresponde fidedignamente à prática diária da profissão". O texto diz exatamente o contrário:

"A urgência é mais que uma forma de atendimento, é um modo de viver estressante, frenético, onde a rotina mencionada nos livros jamais existe."

A expressão "a rotina mencionada nos livros jamais existe" contradiz frontalmente a ideia de correspondência fiel entre teoria e prática. A alternativa contradiz o texto (armadilha do catálogo: contradizer o texto, trocando o sentido por um vocábulo que inverte a ideia).

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "os casos graves com que se depara quem está de plantão acabam se tornando uma rotina banal". O texto descreve o oposto: a urgência é "um modo de viver estressante, frenético", e o episódio do afogado mostra o médico realizando "a rápida encenação" — mas isso não significa que os casos se tornem banais. O texto não diz que o médico se acostuma ou que os casos perdem a gravidade; pelo contrário, descreve a angústia e a irritação das pessoas, e o próprio médico exausto. A alternativa extrapola (armadilha: acrescenta a ideia de "banalização" que não está no texto).

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "a sondagem dos locais para os quais o estudante fora designado para atuar é algo comum". O texto narra que o autor, antes de entrar na escala de plantões, "resolvi ir até lá para conhecer o lugar". Isso descreve uma ação individual do narrador, não uma prática comum ou generalizada. A palavra "comum" é um quantificador que o texto não autoriza — o autor não diz que todos os estudantes faziam isso, nem que era uma prática usual. A alternativa restringe/generaliza indevidamente (armadilha: transforma uma ação individual em prática geral).

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "o atendimento em urgências é parte do processo formativo para quase todos os que serão médicos". O texto sustenta isso literalmente:

"É raro o médico que não tenha passado por um serviço de urgência."

A dupla negação "É raro... que não tenha passado" equivale a "quase todos passaram". Além disso, o autor narra seu próprio estágio obrigatório de dois anos, o que confirma que a urgência integra a formação médica. A alternativa é uma paráfrase fiel da passagem, sem acréscimos nem restrições.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o estresse sob o qual se encontra o plantonista é rotineiro e pouco compreendido pelos colegas de trabalho". O texto descreve o estresse como "um modo de viver estressante, frenético", mas não diz nada sobre a compreensão dos colegas de trabalho. A expressão "pouco compreendido pelos colegas" é uma informação que não está no texto — é uma extrapolação (armadilha: acrescenta uma opinião/juízo que o autor não externou). O texto fala da relação com os pacientes e com o funcionário do posto, mas nunca sobre a percepção dos colegas médicos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o que está dito e o que se pode imaginar. As alternativas A, B, C e E parecem plausíveis, mas cada uma acrescenta ou inverte uma informação. A única que se ancora em uma passagem literal é a D.

NÃO CAIA NESSA!

Em questões de compreensão, grife as palavras absolutas ("jamais", "todos", "sempre", "comum") e confronte com o texto. A dupla negação "É raro... que não" é uma armadilha clássica — converta-a em "quase todos" para ver a paráfrase correta.

Gabarito: letra D — a única alternativa que o texto autoriza integralmente, sem exigir nada de fora.

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