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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205588
Banca
VUNESP
Órgão
SEMAE PIRACICABA
Ano
2024
Cargo
Esc (SEMAE Pira)

Histórias de médico em formação

 

Os plantonistas conhecem esta situação. No meio da noite, alguém bate insistentemente à porta: depressa, doutor, é um caso urgente. E aí é preciso saltar da cama e vestir-se precipitadamente e lavar o rosto com a esperança de que a água fria restaure a capacidade de raciocínio embotada pelo sono, e então sair e encontrar na maca um baleado, um esfaqueado, uma mulher que se retorce em dores, uma criança que mal respira. A urgência é mais que uma forma de atendimento, é um modo de viver estressante, frenético, onde a rotina mencionada nos livros jamais existe.

É raro o médico que não tenha passado por um serviço de urgência. Quando eu era estudante de medicina, fazia-se, por meio de um concurso público, um estágio de dois anos. Fui designado para um posto na Grande Porto Alegre. Antes mesmo de entrar na escala de plantões, resolvi ir até lá para conhecer o lugar. Era uma casinha velha e acanhada, cheia de gente, que estava esperando desde a madrugada. Procurei o médico-chefe e perguntei quem estava de plantão. Tu, foi a pronta resposta, e este foi o meu batismo de fogo no serviço de urgência.

Além dos pacientes que vinham ao local, era preciso responder a dezenas de chamados em domicílio. A ambulância era velha e quebrada, de modo que estávamos sempre atrasados, para grande angústia e irritação das pessoas que chamavam. Uma tarde, depois de atender a numerosos desses chamados, regressei ao posto, exausto. O funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado no rio, deveríamos ir lá imediatamente. Voltei para a ambulância e nos dirigimos para o local. 

Uma multidão se concentrava ali, em torno a um corpo na margem. Bastou-me um olhar para verificar que o homem estava morto há horas, quem sabe há dias. A ressuscitação ali era apenas pró-forma, mas eu procederia como tinham me ensinado: massagem cardíaca e respiração boca a boca. Junto ao grupo estava um cabo, acompanhado de um soldado. Eu disse ao militar que faria a massagem e pedi o seu auxílio para a respiração boca a boca. O homem olhou-me, horrorizado, mas teve presença de espírito: mandou o soldado fazer o que eu havia lhe pedido. O soldado não tinha em quem mandar, de modo que não lhe restava outro remédio senão obedecer. Perguntou somente se podia usar o lenço para evitar um contato direto. Eu disse que sim. Quem se oporia, além do morto?

Fizemos a rápida encenação, depois partimos.

(Moacyr Scliar. Território da emoção. Companhia das Letras, 2013. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.

 

No trecho “O soldado não tinha em quem mandar, de modo que não lhe restava outro remédio senão obedecer”, o vocábulo destacado foi empregado com a função de

  1. Aindicar a condição pela qual o soldado obedeceria a ordem que recebeu.
  2. Brestringir o ato de obedecer como única possibilidade que restava ao soldado.
  3. Ctratar a obediência do soldado como um problema da hierarquia militar.
  4. Dretificar o fato de que o soldado não tinha como contrariar seu superior.
  5. Econferir à situação ideia de que a obediência era saída incômoda, mas inevitável.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — restringir o ato de obedecer como única possibilidade que restava ao soldado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor do conectivo "de modo que" e o sentido de "senão"

Gabarito: letra B. O vocábulo destacado — "senão" — foi empregado com a função de restringir o ato de obedecer como única possibilidade que restava ao soldado, pois a expressão "não lhe restava outro remédio senão obedecer" significa exatamente que não havia alternativa além de obedecer. Essa leitura é autorizada pelo próprio trecho, que combina a negação "não" com a locução "outro remédio" e o "senão" com valor de exclusão.

"O soldado não tinha em quem mandar, de modo que não lhe restava outro remédio senão obedecer."

A expressão "não... senão" equivale a "não... a não ser", "não... exceto": o soldado não tinha outra saída, a obediência era a única via possível. A alternativa B capta exatamente esse sentido de restrição/exclusão.

O comando da questão

O enunciado pergunta pela função do vocábulo destacado — ou seja, pelo papel semântico que "senão" desempenha no trecho. Não se trata de classificação morfológica (conjunção, preposição etc.), mas de efeito de sentido no contexto. Isso exige que você leia o trecho inteiro e perceba a relação lógica que o conectivo estabelece entre as ideias.

O texto e o trecho em foco

No episódio narrado, o médico pede ao cabo que o ajude na respiração boca a boca. O cabo, horrorizado, manda o soldado fazer o que foi pedido. O soldado, por sua vez, não tinha em quem mandar — ou seja, não podia transferir a tarefa a outro subordinado. A consequência é que não lhe restava outro remédio senão obedecer. O conectivo "de modo que" introduz uma consequência (o fato de não ter em quem mandar leva à obediência), e o "senão" reforça que essa obediência era a única alternativa.

A técnica que decide

A chave está em reconhecer o valor de "senão" como sinônimo de "a não ser", "exceto", em construções negativas. Compare:

  • "Não fazia nada senão reclamar" = só reclamava.

  • "Não lhe restava outro remédio senão obedecer" = só restava obedecer.

Em ambos os casos, "senão" restringe o conjunto de possibilidades a uma única. A alternativa B é a única que expressa essa ideia de unicidade.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A afirma que "senão" indica condição ("obedeceria se..."). No trecho, não há relação condicional: o soldado não obedece sob uma condição, mas porque não tem alternativa. O conectivo "de modo que" é consecutivo (introduz consequência), não condicional. Erro: troca de relação lógica (condição × consequência).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como demonstrado, "senão" tem valor de exclusão/restrição: "não... senão" = "apenas", "somente". O soldado só podia obedecer; não havia outra opção. A alternativa B parafraseia com precisão esse sentido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "senão" trata a obediência como problema da hierarquia militar. O texto menciona a hierarquia (o cabo manda no soldado), mas o vocábulo "senão" não tem essa função: ele apenas restringe a possibilidade de ação do soldado. Erro: extrapolação — acrescenta um tema (problema hierárquico) que o conectivo não expressa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que "senão" retifica o fato de que o soldado não podia contrariar o superior. "Retificar" significa corrigir, ajustar. No trecho, não há correção de uma afirmação anterior; há uma consequência (não ter em quem mandar → obedecer). Erro: troca de conceito — confunde valor consecutivo com retificação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que "senão" confere à situação a ideia de que a obediência era saída incômoda, mas inevitável. O texto sugere que o soldado obedece sem gostar (pede até para usar lenço), mas o vocábulo "senão" em si não expressa "incômodo" — expressa apenas inevitabilidade/unicidade. O incômodo é uma inferência do contexto, não função do conectivo. Erro: acrescenta opinião (incômodo) que não está no valor semântico de "senão".

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura o valor consecutivo de "de modo que" com o sentido de "senão". Muitos candidatos marcam E por causa do tom cômico do trecho, mas a função do vocábulo é puramente restritiva.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "função do vocábulo", pergunte: "que relação ele estabelece?" Se trocar por "a não ser" e o sentido continuar, é restrição/exclusão.

Conclusão: a única alternativa que descreve corretamente a função de "senão" é a B, pois "não... senão" restringe a ação do soldado à obediência, como única possibilidade.

Gabarito: letra B.

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