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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — VUNESP 2024

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
vu205590
Banca
VUNESP
Órgão
SEMAE PIRACICABA
Ano
2024
Cargo
Esc (SEMAE Pira)

Histórias de médico em formação

 

Os plantonistas conhecem esta situação. No meio da noite, alguém bate insistentemente à porta: depressa, doutor, é um caso urgente. E aí é preciso saltar da cama e vestir-se precipitadamente e lavar o rosto com a esperança de que a água fria restaure a capacidade de raciocínio embotada pelo sono, e então sair e encontrar na maca um baleado, um esfaqueado, uma mulher que se retorce em dores, uma criança que mal respira. A urgência é mais que uma forma de atendimento, é um modo de viver estressante, frenético, onde a rotina mencionada nos livros jamais existe.

É raro o médico que não tenha passado por um serviço de urgência. Quando eu era estudante de medicina, fazia-se, por meio de um concurso público, um estágio de dois anos. Fui designado para um posto na Grande Porto Alegre. Antes mesmo de entrar na escala de plantões, resolvi ir até lá para conhecer o lugar. Era uma casinha velha e acanhada, cheia de gente, que estava esperando desde a madrugada. Procurei o médico-chefe e perguntei quem estava de plantão. Tu, foi a pronta resposta, e este foi o meu batismo de fogo no serviço de urgência.

Além dos pacientes que vinham ao local, era preciso responder a dezenas de chamados em domicílio. A ambulância era velha e quebrada, de modo que estávamos sempre atrasados, para grande angústia e irritação das pessoas que chamavam. Uma tarde, depois de atender a numerosos desses chamados, regressei ao posto, exausto. O funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado no rio, deveríamos ir lá imediatamente. Voltei para a ambulância e nos dirigimos para o local. 

Uma multidão se concentrava ali, em torno a um corpo na margem. Bastou-me um olhar para verificar que o homem estava morto há horas, quem sabe há dias. A ressuscitação ali era apenas pró-forma, mas eu procederia como tinham me ensinado: massagem cardíaca e respiração boca a boca. Junto ao grupo estava um cabo, acompanhado de um soldado. Eu disse ao militar que faria a massagem e pedi o seu auxílio para a respiração boca a boca. O homem olhou-me, horrorizado, mas teve presença de espírito: mandou o soldado fazer o que eu havia lhe pedido. O soldado não tinha em quem mandar, de modo que não lhe restava outro remédio senão obedecer. Perguntou somente se podia usar o lenço para evitar um contato direto. Eu disse que sim. Quem se oporia, além do morto?

Fizemos a rápida encenação, depois partimos.

(Moacyr Scliar. Território da emoção. Companhia das Letras, 2013. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.   Entre colchetes, apresenta-se forma verbal correspondente ao que está destacado em:
  1. AÉ raro o médico que não tenha passado [passaria] por um serviço de urgência.
  2. BEra uma casinha velha e acanhada, cheia de gente, que estava esperando [tinha esperado] desde a madrugada.
  3. CAlém dos pacientes que vinham [vieram] ao local, era preciso responder a dezenas de chamados em domicílio.
  4. DO funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado [se afogara] no rio, deveríamos ir lá imediatamente.
  5. E…mas teve presença de espírito: mandou o soldado fazer o que eu havia lhe pedido [lhe pedisse].
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GabaritoD — O funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado [se afogara] no rio, deveríamos ir lá imediatamente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Equivalência entre tempos compostos e simples: o pretérito mais-que-perfeito

Gabarito: letra D. A questão pede a forma verbal que equivale semanticamente à destacada, e a única equivalência perfeita é "tinha se afogado" → "se afogara": ambas expressam o pretérito mais-que-perfeito do indicativo — a primeira na forma composta (auxiliar ter no imperfeito + particípio), a segunda na forma simples (terminação -ra). Como se lê no texto: "alguém tinha se afogado no rio" — a forma composta pode ser substituída pela simples "se afogara" sem alteração de sentido, pois são variantes do mesmo tempo verbal.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique, entre as opções, aquela em que a forma verbal entre colchetes corresponde à destacada. Isso não é uma questão de interpretação de texto, mas de morfologia verbal — mais especificamente, de equivalência entre tempos compostos e simples. A banca testa se o candidato reconhece que o pretérito mais-que-perfeito composto (tinha + particípio) pode ser substituído pelo pretérito mais-que-perfeito simples (terminação -ra) sem mudança de sentido.

O texto e o ponto decisivo

O texto narra a experiência de um médico em formação. No trecho decisivo, o narrador relata: "O funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado no rio, deveríamos ir lá imediatamente." A forma "tinha se afogado" é uma locução verbal composta pelo auxiliar ter no pretérito imperfeito do indicativo + particípio do verbo principal. Essa construção é o pretérito mais-que-perfeito composto, que indica uma ação passada anterior a outra também passada. A forma simples correspondente é "se afogara" (pretérito mais-que-perfeito simples), que carrega exatamente o mesmo valor temporal e aspectual.

A técnica que decide

Para resolver, é preciso dominar a correlação entre tempos compostos e simples do modo indicativo. Veja o quadro:

Tempo composto

Tempo simples equivalente

Exemplo

Pretérito perfeito composto (tenho + particípio)

Pretérito perfeito (simples)

tenho estudado → estudei (com nuance de continuidade)

Pretérito mais-que-perfeito composto (tinha + particípio)

Pretérito mais-que-perfeito simples

tinha estudado → estudara

Futuro do presente composto (terei + particípio)

Futuro do presente simples

terei estudado → estudarei (com nuance de anterioridade)

Futuro do pretérito composto (teria + particípio)

Futuro do pretérito simples

teria estudado → estudaria

A pegadinha clássica é confundir o pretérito mais-que-perfeito composto com o pretérito perfeito composto (tenho + particípio) ou com o pretérito imperfeito (tinha + gerúndio? não, isso é locução progressiva). Aqui, a banca oferece distratores que mudam o tempo ou o aspecto, como veremos.

Análise das alternativas

1Forma composta
tinha/havia + particípio
tinha se afogado
2Forma simples
terminação -ra
se afogara
3Equivalência perfeita
mesmo tempo
mesmo aspecto
Pretérito mais-que-perfeito
LEVELsoulevel.com.br
Pretérito mais-que-perfeito: Forma composta (tinha/havia + particípio, tinha se afogado); Forma simples (terminação -ra, se afogara); Equivalência perfeita (mesmo tempo, mesmo aspecto)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"É raro o médico que não tenha passado [passaria] por um serviço de urgência."

A forma destacada "tenha passado" é o pretérito perfeito composto do subjuntivo (auxiliar ter no presente do subjuntivo + particípio), usada em oração subordinada após "que não". A forma entre colchetes "passaria" é o futuro do pretérito do indicativo, que expressa uma ação futura em relação a um passado ou uma hipótese. Não há equivalência: uma está no modo subjuntivo (dúvida, possibilidade) e a outra no indicativo (certeza condicionada). Além disso, o tempo é diferente. Erro: troca de modo e tempo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Era uma casinha velha e acanhada, cheia de gente, que estava esperando [tinha esperado] desde a madrugada."

A forma destacada "estava esperando" é uma locução verbal progressiva (auxiliar estar no pretérito imperfeito + gerúndio), que indica uma ação em andamento no passado. A forma entre colchetes "tinha esperado" é o pretérito mais-que-perfeito composto, que indica uma ação concluída antes de outra passada. A troca altera o aspecto: de contínuo/imperfectivo para concluído/perfecitvo. O sentido de "estava esperando desde a madrugada" (ação que se prolongava) não é o mesmo de "tinha esperado desde a madrugada" (ação já concluída). Erro: alteração de aspecto verbal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Além dos pacientes que vinham [vieram] ao local, era preciso responder a dezenas de chamados em domicílio."

A forma destacada "vinham" é o pretérito imperfeito do indicativo, que indica uma ação habitual ou contínua no passado. A forma entre colchetes "vieram" é o pretérito perfeito do indicativo, que indica uma ação pontual e concluída. A troca muda o aspecto: de habitual/iterativo para pontual. O texto fala de pacientes que "vinham" repetidamente, não que "vieram" uma única vez. Erro: alteração de aspecto e tempo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O funcionário me esperava na porta, alarmado: alguém tinha se afogado [se afogara] no rio, deveríamos ir lá imediatamente."

A forma destacada "tinha se afogado" é o pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo (auxiliar ter no imperfeito + particípio). A forma entre colchetes "se afogara" é o pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo. Ambas expressam exatamente o mesmo tempo e aspecto: uma ação passada anterior a outra também passada. A substituição é perfeita e não altera o sentido. Correta: equivalência perfeita entre forma composta e simples.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"…mas teve presença de espírito: mandou o soldado fazer o que eu havia lhe pedido [lhe pedisse]."

A forma destacada "havia lhe pedido" é o pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo (auxiliar haver no imperfeito + particípio). A forma entre colchetes "lhe pedisse" é o pretérito imperfeito do subjuntivo, que expressa uma ação hipotética, desejada ou condicional. A troca muda o modo (indicativo → subjuntivo) e o tempo (mais-que-perfeito → imperfeito), alterando completamente o sentido: de um fato concluído para uma possibilidade. Erro: troca de modo e tempo.

Conclusão

A única alternativa em que a forma entre colchetes é equivalente à destacada é a D, pois "tinha se afogado" e "se afogara" são duas faces do mesmo tempo verbal: o pretérito mais-que-perfeito do indicativo. As demais alternativas ou trocam o modo (A, E), ou alteram o aspecto (B, C), ou mudam o tempo (C).

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar uma locução com tinha/havia + particípio, pergunte-se: qual é a forma simples correspondente? Se terminar em -ra (ex.: afogara, estudara, pedira), é o pretérito mais-que-perfeito. Desconfie de formas que mudam o modo (subjuntivo) ou o aspecto (gerúndio).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre pretérito mais-que-perfeito composto (tinha + particípio) e pretérito perfeito composto (tenho + particípio), além de tentar induzir o candidato a aceitar formas que alteram o aspecto (como "estava esperando" → "tinha esperado").

Gabarito: letra D

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