Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205598
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Catanduva
Ano
2024
Cargo
AgFiscTrib ( )
Duzu-Querença
Duzu lambeu os dedos gordurosos de comida, aproveitando os últimos bagos de arroz que tinham ficado presos debaixo de suas unhas sujas. Um homem passou e olhou para a mendiga, com uma expressão de asco. Ela lhe devolveu um olhar de zombaria. O homem apressou o passo, temendo que ela se levantasse e viesse lhe atrapalhar o caminho.
Duzu olhou no fundo da lata, encontrando apenas o espaço vazio. Insistiu ainda. Diversas vezes levou a mão lá dentro e retornou com um imaginário alimento que jogava prazerosamente à boca. Quando se fartou deste sonho, arrotou satisfeita, abandonando a lata na escadaria da igreja e caminhou até mais adiante, se afastando dos outros mendigos. Agachou-se quieta. Ficou por algum tempo olhando o mundo. Sentiu um início de cãibra nas pernas, ergueu-se pela metade, acocorando-se de novo. Estava mesmo ficando velha, pensou. Levantou devagar. Olhou para trás, viu os companheiros seus estirados, depois do almoço, contemplando o meio-dia. Ensaiou e mudou os passos, cambaleante e insegura feito criança que começa a andar. Sorriu da lerdeza e da cãibra que insistiam. É, a perna estava querendo falhar. Ela é que não ia ficar ali assentada.
(Conceição Evaristo. Olhos d’água)
Leia o texto para responder à questão As informações do texto permitem afirmar que a personagem Duzu
Aera a personificação da ingratidão, uma vez que destratava as pessoas sempre que lhe eram oferecidos restos de alimento.
Bdespertava um sentimento de compaixão nas pessoas devido à indignidade que permeava seus raros momentos de refeição.
Ctransitava com generosidade entre os mendigos da calçada, buscando compartilhar com eles a comida que a alimentava.
Dprovocava uma sensação repugnante nos transeuntes em decorrência de sua condição de mendicância explícita.
Edesfrutava, com entusiasmo e persistência, de alguns momentos de alegria por se sentir bem fisicamente, apesar da miséria vivida.
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GabaritoD — provocava uma sensação repugnante nos transeuntes em decorrência de sua condição de mendicância explícita.
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Compreensão do texto: a reação dos transeuntes a Duzu
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única inteiramente sustentada pelo texto: o narrador afirma que um homem passou e olhou para a mendiga "com uma expressão de asco" — asco é repugnância — e que ela lhe devolveu "um olhar de zombaria". Ou seja, o texto autoriza afirmar que Duzu provocava uma sensação repugnante nos transeuntes em razão de sua condição de mendicância explícita. As demais alternativas ou extrapolam o que está escrito ou contradizem passagens do texto.
O comando pede que se identifique o que as informações do texto permitem afirmar — ou seja, uma compreensão (informação que pode ser localizada ou diretamente depreendida do texto), não uma interpretação livre. A resposta deve estar ancorada em passagens concretas, e não em suposições sobre o que a personagem "provavelmente" sentia ou fazia.
O texto narra o cotidiano de Duzu, uma mendiga. No primeiro parágrafo, a cena é explícita: um homem a observa com asco e ela responde com zombaria. No segundo parágrafo, a narrativa foca na solidão e na resistência de Duzu: ela simula comer da lata vazia, "se fartou deste sonho", sente cãibras, mas decide não ficar parada. O ponto central para a questão é a reação dos transeuntes — e ela está claramente descrita no início.
A técnica decisiva aqui é testar cada alternativa contra o texto: a correta é uma paráfrase fiel de uma passagem; as erradas, em geral, extrapolam — acrescentam sentimentos, julgamentos ou ações que o texto não menciona. Cuidado com palavras absolutas como "sempre", "todos", "apenas" — elas costumam sinalizar restrição indevida.
"Um homem passou e olhou para a mendiga, com uma expressão de asco."
A palavra asco significa repugnância, nojo. O texto não diz que o homem sentiu compaixão, nem que Duzu era ingrata, nem que compartilhava comida. A única reação descrita é a repugnância diante da mendicância explícita — exatamente o que a alternativa D afirma.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que Duzu "destratava as pessoas sempre que lhe eram oferecidos restos de alimento". Não há nenhuma cena de oferta de comida nem de destrato. A palavra "sempre" é um absoluto que o texto não sustenta. A alternativa inventa uma relação de ingratidão que não existe na narrativa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto mostra um homem sentindo asco (repugnância), não compaixão. Não há qualquer passagem que descreva piedade ou comoção dos transeuntes. A alternativa inverte o sentimento descrito.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto mostra Duzu se afastando dos outros mendigos ("caminhou até mais adiante, se afastando dos outros mendigos") e não há nenhuma cena de compartilhamento de comida. A alternativa atribui a ela uma generosidade que não está no texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. O texto descreve explicitamente a reação de repulsa de um transeunte: "Um homem passou e olhou para a mendiga, com uma expressão de asco." A alternativa parafraseia essa passagem: "provocava uma sensação repugnante nos transeuntes em decorrência de sua condição de mendicância explícita". A condição de mendicância é evidente (ela é chamada de "mendiga" e está na escadaria da igreja).
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto mostra Duzu simulando comer e sentindo cãibras, mas não diz que ela "desfrutava, com entusiasmo e persistência, de alguns momentos de alegria por se sentir bem fisicamente". Pelo contrário, ela sente dores e lerdeza. A alternativa projeta um sentimento de bem-estar que o texto não autoriza.
PEGA ESSA DICA!
Ao responder questões de compreensão, grife no texto a passagem que sustenta cada alternativa. Se não encontrar, a alternativa provavelmente extrapola. Desconfie de palavras como "sempre", "todos", "apenas" — elas costumam restringir indevidamente o sentido.
Gabarito: letra D — a única que encontra respaldo direto no texto, na reação de asco do transeunte diante da mendicância de Duzu.