Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205621
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Lins
Ano
2024
Cargo
Ag Adm ( )
O maçarico
Naqueles longes tempos, ele era vítima de um cirurgião- -dentista que, de repente do outro lado da sala de café, da outra extremidade do bonde, da calçada oposta, lançava intempestivamente o seu vozeirão:
– Como vai a poesia?
Todas as cabeças que se achavam de permeio1 voltavam- se então para o Poeta. O Poeta, nu, desmascarado, em meio à multidão! Para evitar esses atentados ao pudor, ele afinal descobriu um meio de fazer a pergunta antes que o outro a fizesse. Mal avistava o dentista, e antes que o mesmo erguesse as trombetas da sua voz, que não soavam propriamente como as trombetas da Fama, mas como as cornetas fanhas da Difamação, bradava o alvissareiro Poeta:
– Como vai o maçarico?
As cabeças de permeio voltavam-se então escandalizadas ou irônicas para o cirurgião-dentista. Não porque fosse uma vergonha utilizar esse útil instrumento, mas porque maçarico era mesmo uma palavra muito engraçada, uma palavra que rimava com a dança do sarapico-pico-pico e com surubico. O resultado de tudo isso foi que os papéis se inverteram: o dentista pegou medo do poeta.
(Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho, 2013) 1 permeio: no meio
Leia o texto para responder à questão A conclusão do texto permite concluir corretamente que
Ao expediente do Poeta o poupou da vergonha e, desde então, o cirurgião-dentista passou a temê-lo.
Bo cirurgião-dentista descobriu o truque do Poeta, ambos fizeram as pazes e se tornaram amigos.
Co Poeta passou a amedrontar o cirurgião-dentista, mesmo sabendo que ele o incomodaria de novo.
Do comportamento do cirurgião-dentista passou a ser criticado pelas pessoas, que gostavam do poeta.
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GabaritoA — o expediente do Poeta o poupou da vergonha e, desde então, o cirurgião-dentista passou a temê-lo.
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O maçarico: a inversão de papéis entre o Poeta e o dentista
Gabarito: letra A. A conclusão do texto é explícita: o Poeta, para evitar a vergonha de ser exposto publicamente, passa a fazer a pergunta antes do dentista, invertendo os papéis. O texto fecha com: "O resultado de tudo isso foi que os papéis se inverteram: o dentista pegou medo do poeta." A alternativa A parafraseia exatamente essa conclusão: o expediente do Poeta o poupou da vergonha e, desde então, o cirurgião-dentista passou a temê-lo.
O comando pede uma conclusão — ou seja, uma inferência ancorada no desfecho do texto, não uma mera repetição literal. A banca quer que você identifique a consequência final da estratégia do Poeta. Vamos ao método: primeiro, localize a tese/conclusão no último parágrafo; depois, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?".
O texto narra um conflito: o dentista humilha o Poeta publicamente com a pergunta "Como vai a poesia?", expondo-o "nu, desmascarado, em meio à multidão". Para se proteger, o Poeta descobre um meio de "fazer a pergunta antes que o outro a fizesse", perguntando "Como vai o maçarico?" — uma palavra engraçada que faz as cabeças se voltarem para o dentista. O desfecho é a inversão: o dentista passa a ter medo do poeta.
A armadilha central desta questão é a extrapolação: as alternativas B, C e D acrescentam informações que o texto não sustenta. A B inventa uma reconciliação; a C distorce a relação de causa e consequência; a D atribui ao texto uma crítica social que ele não faz. A única que se limita ao que está escrito é a A.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto. Ela afirma que "o expediente do Poeta o poupou da vergonha e, desde então, o cirurgião-dentista passou a temê-lo". Isso é exatamente o que o texto diz no final:
"O resultado de tudo isso foi que os papéis se inverteram: o dentista pegou medo do poeta."
O "expediente" (a estratégia de perguntar primeiro) poupou o Poeta da vergonha — antes, ele era exposto "nu, desmascarado, em meio à multidão"; depois, as cabeças se voltavam para o dentista. E a consequência final é o medo do dentista. A alternativa A é uma paráfrase fiel, sem acrescentar nada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz que "o cirurgião-dentista descobriu o truque do Poeta, ambos fizeram as pazes e se tornaram amigos". Isso contradiz o texto. O texto não menciona que o dentista descobriu o truque, nem que houve reconciliação ou amizade. Pelo contrário, o desfecho é o oposto: "o dentista pegou medo do poeta". A alternativa B extrapola ao inventar uma relação de amizade que não existe no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que "o Poeta passou a amedrontar o cirurgião-dentista, mesmo sabendo que ele o incomodaria de novo". O texto diz que o Poeta "descobriu um meio de fazer a pergunta antes que o outro a fizesse" — ou seja, a intenção era evitar o incômodo, não provocá-lo. A alternativa C inverte a relação de causa e consequência: o Poeta não queria amedrontar o dentista; queria se proteger. Além disso, "mesmo sabendo que ele o incomodaria de novo" é uma extrapolação — o texto não diz que o Poeta esperava novos incômodos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz que "o comportamento do cirurgião-dentista passou a ser criticado pelas pessoas, que gostavam do poeta". O texto diz que as cabeças se voltavam "escandalizadas ou irônicas" para o dentista, mas não diz que as pessoas o criticavam nem que gostavam do poeta. A palavra "escandalizadas" indica reação à palavra "maçarico", não uma crítica ao dentista. A alternativa D extrapola ao acrescentar uma opinião popular que o texto não menciona.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com elementos reais do texto (a inversão de papéis, a reação das pessoas) para induzir a conclusões que o texto não autoriza. A única alternativa que se limita ao desfecho explícito é a A.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de conclusão, grife a última frase do texto — ela costuma conter a tese. Depois, teste cada alternativa perguntando: "o texto diz isso, ou eu estou completando com o que imagino?".