Naqueles longes tempos, ele era vítima de um cirurgião- -dentista que, de repente do outro lado da sala de café, da outra extremidade do bonde, da calçada oposta, lançava intempestivamente o seu vozeirão:
– Como vai a poesia?
Todas as cabeças que se achavam de permeio1 voltavam- se então para o Poeta. O Poeta, nu, desmascarado, em meio à multidão! Para evitar esses atentados ao pudor, ele afinal descobriu um meio de fazer a pergunta antes que o outro a fizesse. Mal avistava o dentista, e antes que o mesmo erguesse as trombetas da sua voz, que não soavam propriamente como as trombetas da Fama, mas como as cornetas fanhas da Difamação, bradava o alvissareiro Poeta:
– Como vai o maçarico?
As cabeças de permeio voltavam-se então escandalizadas ou irônicas para o cirurgião-dentista. Não porque fosse uma vergonha utilizar esse útil instrumento, mas porque maçarico era mesmo uma palavra muito engraçada, uma palavra que rimava com a dança do sarapico-pico-pico e com surubico. O resultado de tudo isso foi que os papéis se inverteram: o dentista pegou medo do poeta.
(Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho, 2013) 1 permeio: no meio
Leia o texto para responder à questão A relação gramatical que se dá entre “voz” e “vozeirão” também está presente entre os termos:
Acanta e cantarão.
Bgato e gatinho.
Ccalmo e calmamente.
Dfogo e fogaréu.
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GabaritoD — fogo e fogaréu.
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Substantivo: grau aumentativo e a relação entre "voz" e "vozeirão"
Gabarito: letra D. A relação gramatical entre "voz" e "vozeirão" é de grau aumentativo — o sufixo -eirão acrescenta a ideia de tamanho aumentado/intensidade. A única alternativa que reproduz exatamente essa relação é fogo → fogaréu, pois -aréu também é um sufixo aumentativo. Como se vê no texto, "vozeirão" é usado para descrever a voz intempestiva do dentista, que "lançava" seu chamado de forma exagerada — o aumentativo reforça essa intensidade.
A questão pede que você identifique a relação gramatical (de sentido/morfologia) entre dois termos do texto e a encontre em outro par de palavras. Não se trata de interpretar o texto em si, mas de reconhecer um processo de formação de palavras — especificamente a derivação sufixal que expressa grau aumentativo.
No texto, "vozeirão" é formado de "voz" + sufixo -eirão. Esse sufixo é um dos principais formadores de aumentativo em português, indicando algo grande, intenso ou exagerado. O contexto confirma: o dentista "lançava intempestivamente o seu vozeirão" — ou seja, uma voz forte, alta, que se impõe. O aumentativo não é apenas um detalhe morfológico; ele carrega sentido de exagero e impacto, algo que a banca explora.
A técnica para resolver: identifique o processo de formação no par do texto e teste cada alternativa procurando o mesmo processo. Não basta que as palavras tenham relação de sentido — é preciso que a relação morfológica seja idêntica. Vejamos cada alternativa:
Grau do substantivo
1Aumentativo
voz → vozeirão (sufixo -eirão)
fogo → fogaréu (sufixo -aréu)
2Diminutivo
gato → gatinho (sufixo -inho)
3Outros processos
Flexão verbal: canta → cantarão
Derivação de advérbio: calmo → calmamente
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Alternativa A — ❌ Incorreta
canta e cantarão — Aqui temos flexão verbal de tempo (presente → futuro do presente), não grau aumentativo. O verbo "cantar" muda de tempo, não de tamanho ou intensidade. A banca tenta confundir com a ideia de "mais ação", mas isso é flexão, não derivação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
gato e gatinho — Aqui temos grau diminutivo (sufixo -inho), não aumentativo. A relação é oposta à do texto: enquanto "vozeirão" aumenta, "gatinho" diminui. A banca explora a confusão entre os dois graus.
Alternativa C — ❌ Incorreta
calmo e calmamente — Aqui temos derivação de advérbio (sufixo -mente), que transforma adjetivo em advérbio de modo. Não há relação de grau. A banca tenta confundir com a ideia de "intensidade" (calmamente = de modo calmo), mas isso é outra categoria.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
fogo e fogaréu — Aqui temos grau aumentativo (sufixo -aréu), exatamente como "voz" → "vozeirão" (sufixo -eirão). Ambos os sufixos indicam algo grande, intenso ou exagerado. O texto confirma: o "vozeirão" é a voz intempestiva do dentista, que "lançava" seu chamado de forma exagerada — o aumentativo reforça essa intensidade.
"lançava intempestivamente o seu vozeirão"
Aqui, "vozeirão" não é apenas uma voz, mas uma voz grande, forte, que se impõe. O mesmo ocorre com "fogaréu": não é apenas fogo, mas um fogo grande, intenso. A relação é idêntica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece pares com outras relações morfológicas (flexão verbal, diminutivo, derivação de advérbio) para confundir o candidato que não identifica o processo exato. A chave é reconhecer o sufixo aumentativo.
NÃO CAIA NESSA!
Ao identificar o grau do substantivo, pergunte: "o sufixo aumenta ou diminui?" Se aumenta, é aumentativo; se diminui, é diminutivo. Não confunda com flexão verbal ou derivação de advérbio.
Conclusão: A relação entre "voz" e "vozeirão" é de grau aumentativo, e a única alternativa que reproduz essa relação é fogo → fogaréu. Portanto, Gabarito: letra D.