Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205630
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Lins
Ano
2024
Cargo
ATI ( )
Sou inimigo de fraudes e falsificações, mesmo pensando
como as fraudes e falsificações podem ser mais encantadoras e melhores do que as ditas coisas autênticas. Quer dizer
que sou inimigo, em parte. Mas sou. E para ilustrar esta aversão, ainda que de um certo modo prosaico e sem arte, poderia invocar os meus não muito velhos tempos de Farmácia
Rosário, quando uma de minhas inveteradas manias era
andar investigando a pureza e a qualidade dos produtos químicos e dos medicamentos, perturbando consequentemente
os bons negócios de pobres-diabos que com eles traficavam.
Era enorme essa minha trabalheira de detetive de laboratório,
policiando, farejando com testes e reações, às vezes durante
dias a fio, o que estava errado com uma ou outra droga. “O
que é que você ganha com isso?” – me perguntavam. Pois
as despesas também não eram poucas. E logo se seguia um
argumento, com ares de campeão do bom senso, aposentado: “Nenhuma farmácia faz assim”. Eu sabia. Nenhuma farmácia fazia assim. E acredito que ainda não faça. Pouco me
importa, entretanto, que não fizesse. Era o meu hábito de não
concordar com descuidos e velhacarias; o meu gosto de pôr
em prática as teorias aprendidas nos livros, de não esquecer
sobre os meus balcões a dignidade intelectual; era a responsabilidade de quem cuida de medicamentos, prepara medicamentos e os entrega depois a seres confiantes, inteiramente
impossibilitados de aí discernir entre o bom e o mau, o nocivo
e o benéfico.
(Jurandir Ferreira. Da quieta substância dos dias.
Instituto Moreira Sales, 1991. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão A partir da leitura do texto, é correto afirmar que o narrador
Atenta se explicar quanto à sua contrariedade em relação a práticas que, embora raras, ele considera nocivas.
Bconsidera que os clientes se fiam em certos produtos, mas não têm condições de discriminar os autênticos dos adulterados.
Cinvestigava a procedência do que se vendia em certa farmácia, de modo a corrigir-lhe eventuais problemas constatados.
Drevela um padrão ético em seu ofício, o qual o isenta de desgastes financeiros e lhe traz satisfação pessoal.
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GabaritoB — considera que os clientes se fiam em certos produtos, mas não têm condições de discriminar os autênticos dos adulterados.
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Compreensão de texto: a paráfrase fiel do que o narrador afirma
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que parafraseia com fidelidade uma informação explícita do texto: o narrador afirma que os clientes recebem os medicamentos "inteiramente impossibilitados de aí discernir entre o bom e o mau, o nocivo e o benéfico" — ou seja, confiam nos produtos, mas não têm condições de distinguir os autênticos dos adulterados. As demais alternativas ou extrapolam (acrescentam intenções que o texto não declara), ou restringem o alcance do que foi dito, ou contradizem passagens específicas.
O comando pede uma questão de compreensão/recorrência — "é correto afirmar que o narrador" —, o que significa que a resposta deve ser uma reescritura fiel de algo que está explícito no texto, sem deduções nem acréscimos. A técnica aqui é simples: para cada alternativa, pergunte "onde o texto autoriza isto?" e confira se a paráfrase não trocou nenhum vocábulo crucial que inverta o sentido.
O texto é uma narrativa em primeira pessoa em que o narrador explica sua aversão a fraudes, ilustrando-a com sua experiência na Farmácia Rosário, onde investigava a pureza de medicamentos. O trecho decisivo para esta questão está no final, quando ele justifica sua conduta:
"era a responsabilidade de quem cuida de medicamentos, prepara medicamentos e os entrega depois a seres confiantes, inteiramente impossibilitados de aí discernir entre o bom e o mau, o nocivo e o benéfico."
A alternativa B diz exatamente isso: os clientes se fiam (são "seres confiantes") nos produtos, mas não têm condições de discriminar os autênticos dos adulterados ("impossibilitados de discernir entre o bom e o mau"). É uma paráfrase direta, sem acréscimo de opinião ou restrição indevida.
A armadilha central da banca está nas alternativas que extrapolam a partir de elementos reais do texto. A letra A, por exemplo, usa a palavra "raras" — que não aparece em lugar nenhum — e atribui ao narrador uma intenção de "se explicar" que não existe. A letra C troca o verbo "investigar" (que o texto usa) por "corrigir", o que muda completamente o sentido. A letra D inventa uma "isenção de desgastes financeiros" que contradiz a passagem em que o narrador admite que "as despesas também não eram poucas".
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro — a letra C, por exemplo, parte de uma ação real do narrador (investigar) e acrescenta uma finalidade que o texto não menciona (corrigir). Desconfie de qualquer alternativa que acrescente um verbo de intenção ("de modo a", "para", "a fim de") que não esteja no original.
Compreensão de texto
1Paráfrase fiel
Reescritura do explícito
Sem acréscimos
Sem restrições
Sem inversões
2Erros típicos da banca
Extrapolação
Acrescenta intenção
Acrescenta adjetivo
Contradição
Nega passagem do texto
Restrição indevida
Reduz o alcance
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"tenta se explicar quanto à sua contrariedade em relação a práticas que, embora raras, ele considera nocivas."
O texto não diz que as fraudes são raras — pelo contrário, o narrador sugere que eram comuns ao afirmar que "nenhuma farmácia fazia assim" e que "pobres-diabos" traficavam com produtos adulterados. Além disso, o narrador não "tenta se explicar": ele simplesmente declara sua aversão e a ilustra com um exemplo. A alternativa extrapola ao introduzir o adjetivo "raras" e distorce o tom do texto ao sugerir que ele está se justificando.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"considera que os clientes se fiam em certos produtos, mas não têm condições de discriminar os autênticos dos adulterados."
Esta é a paráfrase exata do trecho final do texto. O narrador fala em "seres confiantes" (clientes que se fiam) e "inteiramente impossibilitados de aí discernir entre o bom e o mau, o nocivo e o benéfico" (sem condições de discriminar os autênticos dos adulterados). A alternativa não acrescenta nada, não restringe nada e não inverte nenhum sentido — é a única inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"investigava a procedência do que se vendia em certa farmácia, de modo a corrigir-lhe eventuais problemas constatados."
O texto diz que o narrador "andava investigando a pureza e a qualidade dos produtos químicos e dos medicamentos", mas não diz que o objetivo era corrigir os problemas. Ele investigava por "hábito de não concordar com descuidos e velhacarias" e por "gosto de pôr em prática as teorias aprendidas nos livros" — não para corrigir a farmácia. A alternativa extrapola ao acrescentar uma finalidade que o texto não menciona.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"revela um padrão ético em seu ofício, o qual o isenta de desgastes financeiros e lhe traz satisfação pessoal."
O texto contradiz diretamente a primeira parte: o narrador afirma que "as despesas também não eram poucas" — ou seja, ele não estava isento de desgastes financeiros. A segunda parte ("satisfação pessoal") é uma opinião embutida: o texto fala em "gosto" e "hábito", mas não diz que isso lhe trazia satisfação. A alternativa contradiz o texto em um ponto e extrapola em outro.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife no texto a passagem que corresponde a cada alternativa. Se a alternativa usar uma palavra que não aparece no texto (como "raras" ou "corrigir"), desconfie: ou é extrapolação, ou é troca de vocábulo.
Gabarito: letra B. A regra de ouro: a resposta certa é a que reescreve o texto sem acrescentar, sem restringir e sem inverter — nada mais, nada menos do que ele diz.