Sou inimigo de fraudes e falsificações, mesmo pensando
como as fraudes e falsificações podem ser mais encantadoras e melhores do que as ditas coisas autênticas. Quer dizer
que sou inimigo, em parte. Mas sou. E para ilustrar esta aversão, ainda que de um certo modo prosaico e sem arte, poderia invocar os meus não muito velhos tempos de Farmácia
Rosário, quando uma de minhas inveteradas manias era
andar investigando a pureza e a qualidade dos produtos químicos e dos medicamentos, perturbando consequentemente
os bons negócios de pobres-diabos que com eles traficavam.
Era enorme essa minha trabalheira de detetive de laboratório,
policiando, farejando com testes e reações, às vezes durante
dias a fio, o que estava errado com uma ou outra droga. “O
que é que você ganha com isso?” – me perguntavam. Pois
as despesas também não eram poucas. E logo se seguia um
argumento, com ares de campeão do bom senso, aposentado: “Nenhuma farmácia faz assim”. Eu sabia. Nenhuma farmácia fazia assim. E acredito que ainda não faça. Pouco me
importa, entretanto, que não fizesse. Era o meu hábito de não
concordar com descuidos e velhacarias; o meu gosto de pôr
em prática as teorias aprendidas nos livros, de não esquecer
sobre os meus balcões a dignidade intelectual; era a responsabilidade de quem cuida de medicamentos, prepara medicamentos e os entrega depois a seres confiantes, inteiramente
impossibilitados de aí discernir entre o bom e o mau, o nocivo
e o benéfico.
(Jurandir Ferreira. Da quieta substância dos dias.
Instituto Moreira Sales, 1991. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão O emprego do acento indicativo de crase está em conformidade com a norma-padrão na frase inspirada no texto:
AO narrador tinha o hábito de não assentir à imprudências e espertezas.
BOs clientes não sabem diferenciar àquilo que faz bem daquilo que faz mal.
CPara elucidar sua ojeriza, o narrador apela à época da Farmácia Rosário.
DUma das manias do narrador era perscrutar às composições químicas.
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GabaritoC — Para elucidar sua ojeriza, o narrador apela à época da Farmácia Rosário.
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Crase: a fusão da preposição "a" com o artigo feminino
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que o acento grave é obrigatório e correto: o verbo "apelar" exige a preposição "a" (quem apela, apela a algo), e o substantivo feminino "época" admite o artigo "a" — logo, a + a = à. Como se lê no texto, o narrador "poderia invocar os meus não muito velhos tempos de Farmácia Rosário", ou seja, ele apela à época da Farmácia Rosário para ilustrar sua aversão. As demais alternativas erram por usar crase diante de palavra masculina, diante de verbo ou diante de pronome que não admite artigo.
O comando: o que a banca pede
A questão pede que você identifique a frase em que o acento indicativo de crase está empregado em conformidade com a norma-padrão. Isso significa que você deve analisar cada alternativa e verificar se há a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a" (ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos como "aquele", "aquela", "aquilo"). Não se trata de interpretação de texto, mas de aplicação da regra gramatical — embora o texto sirva de inspiração para as frases, a correção é puramente sintática.
O texto: o que ele diz e onde mora a resposta
O texto narra a aversão do autor a fraudes e falsificações, ilustrada por sua mania de investigar a pureza de medicamentos na Farmácia Rosário. O trecho-chave para a questão é:
"poderia invocar os meus não muito velhos tempos de Farmácia Rosário"
A alternativa C parafraseia essa passagem com o verbo "apelar" (sinônimo de "invocar"): "Para elucidar sua ojeriza, o narrador apela à época da Farmácia Rosário". A crase é correta porque "apelar" é transitivo indireto (quem apela, apela a algo) e "época" é substantivo feminino que admite artigo definido (a época). Portanto, a + a = à.
A técnica: como testar a crase em cada alternativa
A regra prática para saber se há crase é substituir a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se na troca aparecer "ao", há crase; se aparecer apenas "o" ou "a" sem preposição, não há. Veja:
"apela à época" → "apela ao período" (aparece "ao", logo há crase) ✅
"assentir à imprudências" → "assentir aos erros" (apareceria "aos", mas "imprudências" está no plural e sem artigo — o correto seria "às imprudências") ❌
"diferenciar àquilo" → "diferenciar aquilo" (não aparece preposição, pois "diferenciar" é transitivo direto) ❌
"perscrutar às composições" → "perscrutar as composições" (não aparece preposição, pois "perscrutar" é transitivo direto) ❌
Crase (a + a)
1Regra prática
Trocar por palavra masculina
Aparece "ao" → há crase
Não aparece → sem crase
2Casos corretos
Verbo exige preposição "a" (VTI)
Substantivo feminino admite artigo
Ex.: apelar à época
3Erros comuns
VTD sem preposição (diferenciar, perscrutar)
Plural sem artigo (à imprudências)
Pronome que não admite artigo (aquilo)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"O narrador tinha o hábito de não assentir à imprudências e espertezas."
Erro: crase diante de palavra no plural sem artigo. O verbo "assentir" exige a preposição "a" (quem assente, assente a algo), mas o substantivo "imprudências" está no plural e não está precedido do artigo "as" — o correto seria "às imprudências" (com o artigo). A frase como está, "à imprudências", é um erro de concordância: o acento grave indica a fusão com o artigo, mas o artigo não foi usado. A alternativa restringe indevidamente o uso da crase, aplicando-a sem o artigo que a justifica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Os clientes não sabem diferenciar àquilo que faz bem daquilo que faz mal."
Erro: crase diante de pronome que não admite artigo. O verbo "diferenciar" é transitivo direto — quem diferencia, diferencia algo —, portanto não exige preposição. O pronome "aquilo" não admite artigo definido feminino, e mesmo que houvesse preposição, a forma correta seria "a aquilo" (sem crase, pois "aquilo" não admite artigo). A alternativa contradiz a regência do verbo, atribuindo-lhe uma preposição que ele não pede.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Para elucidar sua ojeriza, o narrador apela à época da Farmácia Rosário."
Correta: crase obrigatória e bem empregada. O verbo "apelar" é transitivo indireto — quem apela, apela a algo —, e o substantivo "época" é feminino e admite o artigo "a". A fusão a + a = à é exatamente o que a norma exige. A frase parafraseia o texto, que diz que o narrador "poderia invocar os meus não muito velhos tempos de Farmácia Rosário" — ou seja, ele apela à época da Farmácia Rosário para ilustrar sua aversão.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Uma das manias do narrador era perscrutar às composições químicas."
Erro: crase diante de objeto direto. O verbo "perscrutar" é transitivo direto — quem perscruta, perscruta algo —, portanto não exige preposição. O correto seria "perscrutar as composições químicas", sem acento grave. A alternativa contradiz a regência do verbo, inserindo uma preposição que não existe.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre verbos que pedem preposição (VTI) e verbos que não pedem (VTD). "Apelar" e "assentir" são VTI (pedem "a"); "diferenciar" e "perscrutar" são VTD (não pedem). Teste sempre com a troca por palavra masculina: se aparecer "ao", há crase.
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, identifique a regência do verbo. Pergunte: "quem apela, apela a quê?" — se a resposta exigir preposição "a", verifique se o termo seguinte é feminino e admite artigo. Só então use o acento grave.
Gabarito: letra C. A única frase em que a crase é obrigatória e correta é a que usa o verbo "apelar" (VTI) com o substantivo feminino "época" (que admite artigo). As demais erram por usar crase diante de objeto direto (B e D) ou diante de palavra no plural sem artigo (A).