Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205636
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Lins
Ano
2024
Cargo
Dir Esc ( )
Creio, logo é!
Quando as informações conflitam com as nossas crenças, reinterpretamos os fatos de acordo com nossas convicções. Se uma previsão falha, em vez de abandonarmos
a crença, buscamos explicações, muitas vezes, irracionais
para justificar ou atenuar o erro e alimentar a crença na previsão. É como desenhar o alvo em torno da flecha e acreditar
na pontaria do arqueiro.
É comum tomarmos decisões baseadas em preferências
inconsistentes, com consequências reais, simplesmente por
rejeitarmos informações e evidências contrárias às nossas
crenças. O autoengano é uma forma de proteger a autoestima e evitar o confronto com a possibilidade de que nossas
certezas estejam erradas.
Quando temos uma opinião positiva sobre uma questão,
buscamos mensagens positivas a respeito de tal fato; quando
a visão é negativa, buscamos mensagens negativas sobre a
questão. De maneira tendenciosa, escolhemos informações
ou desinformações consistentes com as nossas ideologias.
A formação ou modificação de uma opinião envolve reestruturação cognitiva, um processo de aprendizagem. Todos
nós temos alguma dificuldade em reconhecer nossos erros
e reconfigurar nossas ideias. Não é tranquilo desconstruir
concepções antigas, porém reafirmadas, o tempo todo, na
contemporaneidade, por força dos grupos aos quais pertencemos.
Temos a percepção equivocada de que apenas as nossas crenças são úteis ou corretas. Torturamos os fatos e as
evidências contrárias até que eles confessem o que pretendemos.
Mas tudo isso é muito antigo. “Uma vez que o entendimento de um homem se baseia em algo, seja porque é uma
crença já aceita ou porque o agrada, isso atrai tudo a sua
volta para apoiar e concordar com a opinião adotada. Mesmo
que um número maior de evidências contrárias seja encontrado, ele as ignora ou desconsidera, ou faz distinções sutis
para rejeitá-las, preservando a autoridade de suas primeiras
concepções” (Bacon, 1620).
(Mara Lúcia Madureira. Painel de ideias.
Diário da Região, 28.03.2024. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão A citação do filósofo Francis Bacon, no último parágrafo, é empregada pela autora como argumento que
Aleva a uma revisão dos argumentos já expostos, graças à apresentação de novas ideias.
Bretoma afirmações feitas no texto, reiterando-as e conferindo a elas maior credibilidade.
Caponta ao leitor lacunas na abordagem do tema, sugerindo que procure mais informações.
Dexpressa sua vasta cultura, embora a citação se mostre anacrônica para abordar o tema.
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GabaritoB — retoma afirmações feitas no texto, reiterando-as e conferindo a elas maior credibilidade.
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Função da citação de Bacon no texto
Gabarito: letra B. A citação de Francis Bacon, no último parágrafo, é empregada pela autora como argumento que retoma afirmações feitas no texto, reiterando-as e conferindo a elas maior credibilidade. Isso se prova pela estrutura do texto: a autora desenvolve, ao longo dos parágrafos, a ideia de que as pessoas reinterpretam fatos para manter suas crenças, e a citação de Bacon — um filósofo consagrado — reafirma exatamente essa mesma tese, agora com o peso de uma autoridade histórica. Como se lê no último parágrafo: "Mas tudo isso é muito antigo", seguido da citação que descreve o mesmo comportamento de ignorar evidências contrárias para preservar as próprias concepções.
O comando da questão
O enunciado pergunta para que serve a citação — ou seja, qual é a função argumentativa dela dentro do texto. Isso não é uma questão de localizar informação explícita, mas de compreender a relação entre as partes do texto: a citação não é um adorno, ela cumpre um papel na argumentação. A banca quer que você perceba que a citação não introduz ideia nova, não aponta lacunas, não é mera demonstração de cultura — ela reforça o que já foi dito, dando-lhe autoridade.
O texto e o movimento argumentativo
O texto todo defende uma tese: as pessoas distorcem os fatos para manter suas crenças. Veja o fio condutor:
1º parágrafo: "reinterpretamos os fatos de acordo com nossas convicções";
2º parágrafo: "rejeitarmos informações e evidências contrárias às nossas crenças";
3º parágrafo: "escolhemos informações ou desinformações consistentes com as nossas ideologias";
4º parágrafo: "dificuldade em reconhecer nossos erros e reconfigurar nossas ideias";
5º parágrafo: "Torturamos os fatos e as evidências contrárias até que eles confessem o que pretendemos".
A citação de Bacon chega no último parágrafo com a expressão "Mas tudo isso é muito antigo" — ou seja, a autora não está apresentando nada novo, está confirmando que aquilo que ela descreveu já era conhecido há séculos. A citação funciona como argumento de autoridade: uma voz externa e respeitada (Bacon, filósofo do século XVII) que corrobora a tese da autora, dando-lhe credibilidade e universalidade.
A técnica que decide
A questão é de compreensão (não de inferência): a resposta está explícita na relação entre o último parágrafo e os anteriores. O conectivo "Mas" no início do parágrafo já sinaliza uma retomada — não uma oposição ao que foi dito, mas uma conclusão que reafirma o já exposto. A citação reitera (repete, confirma) as afirmações anteriores, e o fato de ser de um filósofo clássico confere credibilidade ao que foi dito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre introduzir ideia nova (A) e retomar ideia já dita (B). A alternativa A parece plausível porque a citação traz uma "voz de fora", mas ela não acrescenta nada de novo — apenas confirma o que já foi dito.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A citação não leva a uma revisão dos argumentos — ela os reforça. O texto não apresenta "novas ideias" na citação; pelo contrário, a autora diz "Mas tudo isso é muito antigo", indicando que a citação confirma o que já foi dito, não o revisa. A palavra "revisão" implica mudança de posição, o que não ocorre.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. A citação retoma (volta a) afirmações feitas ao longo do texto e as reitera (repete, confirma), conferindo-lhes maior credibilidade por vir de uma autoridade (Bacon). O trecho "Mas tudo isso é muito antigo" + a citação que descreve o mesmo comportamento de ignorar evidências contrárias provam essa função. A citação não introduz ideia nova, não aponta lacunas, não é anacrônica — ela reforça a tese.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não sugere que haja lacunas na abordagem do tema nem que o leitor deva buscar mais informações. A citação fecha o argumento, não o abre. Não há nenhuma pista de que a autora considere o tema incompleto — pelo contrário, ela o considera antigo e bem estabelecido.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: opinião embutida + contradiz o texto. A alternativa diz que a citação "expressa sua vasta cultura" — isso é uma opinião que não está no texto (a autora não diz que é culta). Além disso, diz que a citação é "anacrônica" (fora de época), o que contradiz o texto: a autora a usa justamente para mostrar que o fenômeno é antigo e atual — não anacrônico. A citação de Bacon é atemporal e relevante para o tema.
Conclusão
A citação de Bacon retoma e reforça a tese do texto, dando-lhe credibilidade por ser de uma autoridade histórica. As demais alternativas ou contradizem o texto (A, D) ou extrapolam (C).
PEGA ESSA DICA!
Em questões sobre a função de uma citação, pergunte: ela introduz ideia nova ou retoma ideia já dita? Se retoma, a função é de reforço/credibilidade — como aqui.