Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205731
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Peruíbe
Ano
2024
Cargo
ACS ( )
Houve um tempo em que a velhice parecia vir mais cedo. Mal saídos da juventude, homens e mulheres (eles, em especial) se rendiam, quase sempre sem muita resistência, a costumes – em mais de um sentido da palavra – severos e engravatados. De “moço” e “moça”, passavam, bruscamente, a irremediáveis “senhor” e “senhora”. Desse processo, ninguém escapava. Mas Rubem Braga, convenhamos, exagerava, ao assumir-se como “o velho Braga” antes de lhe vir o primeiro fio de cabelo branco.
Menos conformada é Rachel de Queiroz, que, aos 85 anos, esperneia contra piedosos eufemismos do tipo “terceira idade”. Sem meias palavras, ela diz tudo no título de uma crônica “Não aconselho envelhecer”: “Para que o velho não se sinta tão velho, deixem-no sentir-se livre”, sustenta a octogenária Rachel com veemência de moça.
Ao contrário de Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende não esperneia ante o processo de envelhecimento. “Se não é desejável, a velhice é fatal”, rende-se ele em “Vigor e sabedoria” – e, com graça, lembra que “a única alternativa é sinistra”. Para o cronista mineiro, “achar interesse e graça na vida ajuda”, porque “velhice azeda ou ressentida é de amargar”.
Com igual leveza, volta ao assunto em “A velhice do bebê”, e lança um olhar para o que nos espera a todos no extremo do percurso, seja ele longo seja ele breve. “Soou a hora, ninguém escapa”, diz Otto. A vida, registrou ele nessa crônica de 17 de outubro de 1992, “é uma sucessão de ciladas”. No seu caso, a maior delas o espreitava pouco mais de dois meses depois, quando um suposto erro médico levou, aos 70, quem irradiava pique para emplacar o dobro disso.
Leia o texto para responder aa questão abaixo: Assinale a alternativa em que se faz afirmação correta quanto ao que foi tratado no texto.
ARubem Braga e Otto Lara Resende, diferentemente de Rachel de Queiroz, aceitavam melhor a ideia de envelhecimento.
BRachel de Queiroz acreditava que a velhice precisava ser chamada por nomes menos agressivos para ser suportada.
CRubem Braga se reconhecia como alguém velho por ter precocemente ganhado cabelos brancos na juventude.
DRachel de Queiroz escreveu a crônica “A velhice do bebê” para retratar a rapidez com que as pessoas envelhecem.
EOtto Lara Resende acreditava que a vida só fazia sentido se ela fosse vivida com qualidade e por muito tempo.
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GabaritoA — Rubem Braga e Otto Lara Resende, diferentemente de Rachel de Queiroz, aceitavam melhor a ideia de envelhecimento.
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Compreensão de texto: a paráfrase fiel das atitudes dos cronistas
Gabarito: letra A. A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto: ela afirma que Rubem Braga e Otto Lara Resende, diferentemente de Rachel de Queiroz, aceitavam melhor a ideia de envelhecimento — e isso está provado nos parágrafos 1 e 3, em que Braga se assume "o velho Braga" sem drama e Otto se rende: "Se não é desejável, a velhice é fatal". Rachel, ao contrário, "esperneia contra piedosos eufemismos" e sustenta, com veemência, que o velho deve "sentir-se livre". A questão é de compreensão (o comando pede "afirmação correta quanto ao que foi tratado no texto"): a resposta é uma paráfrase — reescritura fiel — do que está explícito, sem acrescentar nada de fora.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede "afirmação correta quanto ao que foi tratado no texto". Isso é compreensão/recorrência: a informação deve estar explícita ou ser uma reescritura equivalente de uma ideia apresentada. Não se trata de "depreende-se" nem de "conclui-se" — logo, não vale deduzir além das pistas. A técnica é: para cada alternativa, pergunte "onde o texto autoriza isto?" e confira se a paráfrase não trocou, restringiu ou extrapolou nenhum termo.
O texto: três atitudes diante da velhice
O texto apresenta três cronistas com posturas distintas:
Rubem Braga: "exagerava, ao assumir-se como 'o velho Braga' antes de lhe vir o primeiro fio de cabelo branco" — ou seja, antecipava-se à velhice, aceitando-a com naturalidade (tanto que o autor diz que ele "exagerava", mas sem drama).
Rachel de Queiroz: "esperneia contra piedosos eufemismos do tipo 'terceira idade'" e sustenta: "Para que o velho não se sinta tão velho, deixem-no sentir-se livre" — ela rejeita os disfarces e quer encarar a velhice de frente, com liberdade.
Otto Lara Resende: "não esperneia ante o processo de envelhecimento" e se rende: "Se não é desejável, a velhice é fatal" — ele aceita a fatalidade com resignação e até com graça.
A relação entre eles é de contraste: Rachel é a que "esperneia" (resiste, questiona os eufemismos); Braga e Otto aceitam melhor. É exatamente isso que a alternativa A captura.
A técnica que decide: paráfrase fiel × extrapolação
A armadilha central desta questão é a extrapolação — alternativa que acrescenta informação que o texto não traz, muitas vezes usando um fato verdadeiro no mundo real, mas ausente do texto. Veja como cada distratora falha:
B inverte a posição de Rachel: o texto diz que ela esperneia contra eufemismos, não que os defende.
C inventa a causa dos cabelos brancos: o texto diz que Braga se assumiu velho antes de ter o primeiro fio branco — logo, não foi por causa deles.
D troca o autor da crônica: "A velhice do bebê" é de Otto Lara Resende, não de Rachel.
E acrescenta uma condição ("só fazia sentido se...") que o texto não afirma: Otto diz que "achar interesse e graça na vida ajuda", mas não condiciona o sentido da vida a isso.
A alternativa A, por sua vez, é uma paráfrase do contraste explícito entre os três: Braga e Otto aceitam; Rachel não. Nada foi acrescentado, nada foi restringido.
Atitudes diante da velhice: Rubem Braga (Aceita melhor, Assume-se "velho Braga" antes dos cabelos brancos); Otto Lara Resende (Aceita melhor, "Se não é desejável, a velhice é fatal"); Rachel de Queiroz (Esperneia contra eufemismos, Quer que o velho se sinta livre)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O texto diz, sobre Braga: "Rubem Braga, convenhamos, exagerava, ao assumir-se como 'o velho Braga' antes de lhe vir o primeiro fio de cabelo branco" — ele se antecipa e aceita o rótulo. Sobre Otto: "Ao contrário de Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende não esperneia ante o processo de envelhecimento. 'Se não é desejável, a velhice é fatal', rende-se ele". Sobre Rachel: "esperneia contra piedosos eufemismos". A alternativa A condensa exatamente isso: Braga e Otto aceitam melhor; Rachel não. Correta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que Rachel "acreditava que a velhice precisava ser chamada por nomes menos agressivos para ser suportada". O texto afirma o contrário: ela "esperneia contra piedosos eufemismos do tipo 'terceira idade'" e sustenta que o velho deve "sentir-se livre". Rachel rejeita os nomes amenos; não os defende. Erro: contradiz o texto (inverte a posição da autora).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que Rubem Braga "se reconhecia como alguém velho por ter precocemente ganhado cabelos brancos na juventude". O texto diz o oposto: ele "se assumiu como 'o velho Braga' antes de lhe vir o primeiro fio de cabelo branco". Ou seja, a velhice autodeclarada precedeu o sinal físico; não foi causada por ele. Erro: contradiz o texto (inverte a relação de causa e tempo).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa atribui a Rachel de Queiroz a crônica "A velhice do bebê". O texto é claro: "Com igual leveza, volta ao assunto em 'A velhice do bebê'" — referindo-se a Otto Lara Resende, não a Rachel. Além disso, o texto não diz que a crônica retrata "a rapidez com que as pessoas envelhecem"; ela "lança um olhar para o que nos espera a todos no extremo do percurso". Erro: troca de referente (atribui a autoria a quem não é) e extrapolação (inventa o tema da crônica).
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que Otto "acreditava que a vida só fazia sentido se ela fosse vivida com qualidade e por muito tempo". O texto diz que ele acha que "achar interesse e graça na vida ajuda" e que "velhice azeda ou ressentida é de amargar" — mas não condiciona o sentido da vida a isso, nem menciona "por muito tempo". Na verdade, Otto aceita a brevidade: "a única alternativa é sinistra". Erro: extrapolação (acrescenta condição e ideia de duração que o texto não sustenta).
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter posições (Rachel defendendo eufemismos, quando ela os rejeita) e inventar causas (cabelos brancos de Braga). Desconfie de alternativas que soam plausíveis, mas trocam um detalhe crucial.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife no texto a passagem que corresponde a cada alternativa. Se a alternativa diz "diferentemente de", procure no texto o conectivo de oposição ("Ao contrário de") e confira quem está de cada lado.