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Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2024

PortuguêsColocação Pronominal
Código
vu205761
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2024
Cargo
Esc ( )

Leia trecho do Conto de Raul Pompeia para responder à questão.

A andorinha da torre

 

Desde muito tempo que o serviço da torre da Igreja de X estava confiado ao velho Emílio...

 

Era aquele homem de barbas longas e brancas, espécie dessas figuras com que se costuma fazer a imagem mítica dos grandes riose, era aquele velho que via-se de tarde, à janela da torre sob a cúpula enorme do sino grandea, olhando vagamente para o espaço, sem dar atenção ao burburinho da cidade, que circulava nas ruas lá embaixo...

 

Os mais antigos moradores do lugar lembravam-se de que Emílio fora sempre o mesmo homemc de barbas longas e brancas, o mesmo, como a ruína consagrada pelo tempo, que nunca fica mais velha. Respeitava-se muito ao velho sineiro. Era o mais honrado dos homens e, além disso, era o avô da mais galante criança que se tem visto.

 

Por aqueles cinco quarteirões em volta não havia quem não gostasse da andorinha da torre. Festejavam muito aquela criança, davam a ela doces e beijos que não havia mãos a medir; sentiam só que ela fugisse tanto a meter-se na torre com o avô e esquecesse pelos velhos amigos de bronzeb que moravam lá no alto as pessoas da cidade que tanto a queriam.

 

Mas como havia de ser se ela amava perdidamente os seus sinos e o seu avô?... Achava os sinos frios demais e pachorrentos como uns homens de idade, mas, em compensação, admirava- os, quando vovô Emílio despertava-lhes a sanha e os fazia pularem, voltearem como clowns*, precipitarem-se no espaço como se fossem desabar e ressurgirem para o alto, com a boca largamente aberta, como um sorriso de gigante satisfeito.

 

A pequena Rita admirava os sinos. Esta admiração transformava-se em amorosa simpatiad. Estranhava no fundo do espírito aqueles monstros boquiabertos que sabiam ser igualmente a imobilidade e o turbilhão, o silêncio e a trovoada; ajudava o avô a tratá-los, limpar-lhes o bojo profundo e escuro, clarear-lhes os dourados de fora, esgravatar-lhes os interstícios dos relevos que os enfeitavam...

 

Havia amor de família naquele pequeno mundo que vivia na torre.

 

(Raul Pompeia, A andorinha da torre. Em: https://www.biblio.com.br. Adaptado. Acesso em 12.09.2024) * palhaços

 

O conto, escrito no século XIX, apresenta colocação pronominal desabonada pela norma-padrão atual. Isso se evidencia na passagem:

  1. A... era aquele velho que via-se de tarde, à janela da torre sob a cúpula enorme do sino grande...
  2. B... sentiam só que ela fugisse tanto a meter-se na torre com o avô e esquecesse pelos velhos amigos de bronze...
  3. COs mais antigos moradores do lugar lembravam- -se de que Emílio fora sempre o mesmo homem...
  4. DA pequena Rita admirava os sinos. Esta admiração transformava-se em amorosa simpatia.
  5. E... espécie dessas figuras com que se costuma fazer a imagem mítica dos grandes rios...
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GabaritoA — ... era aquele velho que via-se de tarde, à janela da torre sob a cúpula enorme do sino grande...

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Colocação pronominal: o desvio na passagem com pronome relativo

Gabarito: letra A. A única passagem que apresenta colocação pronominal desabonada pela norma-padrão atual é a da alternativa A, pois nela o pronome oblíquo átono "se" aparece depois do verbo (ênclise) em uma oração introduzida pelo pronome relativo "que" — palavra atrativa que obriga a próclise (pronome antes do verbo). Como se lê no trecho: "era aquele velho que via-se de tarde". A forma correta, segundo a norma culta, seria "que se via de tarde".

O comando pede que você identifique, entre as passagens do conto, aquela em que a colocação pronominal fere a norma-padrão atual. Isso é uma questão de gramática normativa aplicada ao texto: não se trata de interpretar o sentido, mas de reconhecer a regra de colocação dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, lhes) em relação ao verbo. A banca escolheu um texto do século XIX, época em que a ênclise era mais livre, para testar se você conhece a regra moderna.

A regra central é a da próclise obrigatória: quando há uma palavra atrativa antes do verbo, o pronome deve vir antes dele. São palavras atrativas: conjunções subordinativas (que, se, quando, embora), pronomes relativos (que, o qual, cujo), advérbios (não, nunca, já, talvez), pronomes indefinidos (alguém, nada, tudo) e pronomes interrogativos (quem, que). Na alternativa A, o "que" é pronome relativo (retoma "velho") e, portanto, atrai o pronome "se" para antes do verbo: "que se via". A forma "via-se" é um desvio.

As demais alternativas apresentam ênclise correta porque não há palavra atrativa antes do verbo: em B, "meter-se" (infinitivo, faculta-se a ênclise); em C, "lembravam-se" (verbo no início da oração, sem atrativo); em D, "transformava-se" (verbo no início da oração); em E, "se costuma" (próclise correta, pois "com que" é pronome relativo).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a liberdade da língua literária do século XIX e a norma-padrão atual. A ênclise em "via-se" era aceitável na época, mas hoje é desvio. Fique atento: a presença de pronome relativo "que" é o gatilho da próclise.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar colocação pronominal, procure a palavra imediatamente antes do verbo. Se for pronome relativo, conjunção subordinativa, advérbio, pronome indefinido ou interrogativo, a próclise é obrigatória.

Colocação pronominal
  • 1Próclise (antes do verbo)
    • Palavras atrativas
      • Conjunções subordinativas (que, se, quando)
      • Pronomes relativos (que, o qual, cujo)
      • Advérbios (não, nunca, já)
      • Pronomes indefinidos (alguém, nada)
      • Pronomes interrogativos (quem, que)
  • 2Ênclise (depois do verbo)
    • Verbo inicia a oração
    • Infinitivo impessoal (facultativa)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A passagem "que via-se" está incorreta segundo a norma-padrão atual. O "que" é pronome relativo (retoma "velho") e, como palavra atrativa, exige próclise: "que se via". A ênclise aqui é um desvio.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"meter-se" está em ênclise correta: o verbo está no infinitivo impessoal, e a ênclise é facultativa (mesmo havendo palavra atrativa, como a conjunção "que" antes de "fugisse", o infinitivo admite ênclise). Não há desvio.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"lembravam-se" está em ênclise correta: o verbo inicia a oração, sem palavra atrativa antes. A próclise seria obrigatória apenas se houvesse atrativo, o que não ocorre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"transformava-se" está em ênclise correta: o verbo inicia a oração, sem palavra atrativa. Não há desvio.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"se costuma" está em próclise correta: o "que" é pronome relativo (retoma "figuras") e atrai o pronome para antes do verbo. A construção está de acordo com a norma-padrão.

Conclusão: a única passagem com colocação pronominal desabonada pela norma-padrão atual é a da alternativa A, pois o pronome relativo "que" exige próclise. Gabarito: letra A.

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