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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205767
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2024
Cargo
Esc ( )
Sensações apocalíticas


   Na capa do jornal Estado de terça-feira, uma foto mostra Brasília submersa em fumaça densa, quase opaca. Na TV, paredões de fogo se levantam e marcham. A olho nu, a fuligem se derrama sobre a cidade; filamentos de carvão vindos no vento aterrissam como libélulas no capô do automóvel de um milhão de reais. O desastre climático é um desastre social, que castiga antes os de baixo, mas quando se impõe para valer não respeita a segregação entre as classes. Não respeita nada, cobre até os astros no céu. A Lua fica vermelha, como se obedecesse ao Apocalipse (6:12): “Inteira como sangue”.

   Sol prata, chuva preta (isso quando chove). Aumentam as internações nos hospitais. Sobem os óbitos por problemas respiratórios. O noticiário dá conta de que um território equivalente ao Estado de Roraima já virou cinza. A realidade se mostra pior do que as previsões da teoria.

   O livro A Terra Inabitável, do jornalista americano David Wallace-Wells, passava por pessimista ao ser lançado, em 2017, mas agora parece brando. Seu alerta de que o descongelamento do solo do Alasca e da Sibéria liberaria gases de efeito estufa e ressuscitaria micro-organismos capazes de desencadear epidemias desconhecidas foi superado por cenários ainda mais assustadores.

   O cientista Carlos Nobre se declarou “apavorado”. Num artigo publicado no UOL, ele retomou o adjetivo que deu título ao livro de Wallace-Wells e sentenciou: “Se a temperatura global aumentar em 4º C até 2100, grande parte do planeta, incluindo o Brasil, pode se tornar inabitável”. O Rio Solimões se reduziu a um riacho fantasma, inabitável para peixes. As metrópoles estrebucham entre dois extremos: no primeiro, inundações infectas alagam as casas com doenças e lama; no segundo, a seca ameaça matar de sede os moradores.

   Para onde quer que se olhe, proliferam os sinais de esfacelamento generalizado.


(Eugênio Bucci, Sensações Apocalíticas.
Em: https://www.estadao.com.br/opiniao, 19.09.2024. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.

 

O autor usa a referência ao livro bíblico Apocalipse, ao livro A Terra Inabitável e ao artigo do cientista Carlos Nobre com a intenção de

  1. Aironizar as previsões catastróficas que nunca se concretizaram.
  2. Bratificar seu ponto de vista sobre os desastres ambientais.
  3. Cexplicar as considerações falaciosas presentes nesses textos.
  4. Dcondenar exageros prejudiciais à saúde mental da população.
  5. Emostrar a situação atual como mais amena que as previsões.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — ratificar seu ponto de vista sobre os desastres ambientais.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A função das referências intertextuais no texto de Eugênio Bucci

Gabarito: letra B. O autor recorre ao Apocalipse, ao livro A Terra Inabitável e ao artigo de Carlos Nobre com a intenção de ratificar seu ponto de vista sobre os desastres ambientais — ou seja, usar essas obras como autoridade/argumento de apoio para reforçar a tese de que a crise climática é real, grave e está se agravando. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo: o livro de Wallace-Wells, que "passava por pessimista ao ser lançado", "agora parece brando", e seu alerta "foi superado por cenários ainda mais assustadores".

O comando pede uma interpretação da função argumentativa das referências: não pergunta o que o texto diz sobre elas, mas para que o autor as mobiliza. Isso muda a resolução: não basta localizar a informação, é preciso perceber o movimento argumentativo — as referências não são citadas para serem criticadas, ironizadas ou relativizadas, mas para corroborar a gravidade do quadro descrito.

O texto é um artigo de opinião (dissertativo-argumentativo): o autor defende uma tese — a de que o desastre climático é real, social e avassalador — e a sustenta com exemplos (fumaça em Brasília, Rio Solimões reduzido a "riacho fantasma") e com vozes de autoridade. O Apocalipse (1º parágrafo) empresta uma imagem poética e bíblica à catástrofe ("A Lua fica vermelha, como se obedecesse ao Apocalipse"); o livro de Wallace-Wells (3º parágrafo) é usado para mostrar que a realidade superou as previsões; e Carlos Nobre (4º parágrafo) é citado com sua sentença direta: "Se a temperatura global aumentar em 4º C até 2100, grande parte do planeta, incluindo o Brasil, pode se tornar inabitável". Todas essas vozes apontam na mesma direção da tese do autor — daí "ratificar".

A técnica que decide a questão é testar cada alternativa perguntando: o autor cita essas obras para concordar com elas ou para se opor a elas? O texto mostra concordância e reforço, nunca crítica ou ironia. As distratoras invertem essa relação (dizem que o autor ironiza, condena ou relativiza), o que as torna incompatíveis com o teor do texto.

1Texto argumentativo
Autor defende tese
Cita vozes de autoridade
2Uso das referências
Ratificam o ponto de vista
Reforçam a gravidade
Concordam com o autor
3Relação com as obras
Apocalipse: imagem poética
Wallace-Wells: realidade superou previsões
Carlos Nobre: peso científico
4Pegadinha da banca
Inverter relação de concordância
Ironizar ou criticar as obras
Função das referências intertextuais
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Função das referências intertextuais: Texto argumentativo (Autor defende tese, Cita vozes de autoridade); Uso das referências (Ratificam o ponto de vista, Reforçam a gravidade, Concordam com o autor); Relação com as obras (Apocalipse: imagem poética, Wallace-Wells: realidade superou previsões, Carlos Nobre: peso científico); Pegadinha da banca (Inverter relação de concordância, Ironizar ou criticar as obras)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor ironiza as previsões catastróficas que "nunca se concretizaram". Isso contradiz o texto: o autor não ironiza as previsões — ele as confirma. No 3º parágrafo, diz que o livro de Wallace-Wells "passava por pessimista ao ser lançado, em 2017, mas agora parece brando", ou seja, as previsões se concretizaram e foram superadas. Não há ironia, há constatação alarmada. Erro: contradiz o texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa diz que o autor usa as referências para ratificar seu ponto de vista sobre os desastres ambientais. Isso é exatamente o que o texto faz: cada referência reforça a tese da gravidade da crise. O Apocalipse ilustra a dimensão apocalíptica do momento; Wallace-Wells é citado para mostrar que "a realidade se mostra pior do que as previsões da teoria" (2º parágrafo); e Carlos Nobre, com sua declaração de que o planeta "pode se tornar inabitável", dá peso científico ao alerta. As três vozes concordam com o autor e são usadas como argumento de autoridade para sustentar seu ponto de vista. Correta: o texto autoriza plenamente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor usa as referências para explicar as considerações falaciosas presentes nesses textos. Isso contradiz o texto: o autor não considera as obras falaciosas (enganosas) — pelo contrário, ele as toma como verdadeiras e até superadas pela realidade. Dizer que o autor as cita para "explicar falácias" é inverter completamente a relação de concordância. Erro: contradiz o texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor usa as referências para condenar exageros prejudiciais à saúde mental da população. Isso é uma extrapolação: o texto não menciona, em nenhum momento, preocupação com a "saúde mental da população" nem condena as previsões como "exageros". Pelo contrário, o autor endossa a gravidade das previsões. A ideia de que alertas ambientais seriam "exageros prejudiciais" é uma opinião que não está no texto — foi acrescentada de fora. Erro: extrapolação (acrescenta opinião ausente).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor usa as referências para mostrar a situação atual como mais amena que as previsões. Isso contradiz diretamente o texto: no 2º parágrafo, o autor diz que "a realidade se mostra pior do que as previsões da teoria", e no 3º, que o alerta de Wallace-Wells "foi superado por cenários ainda mais assustadores". A relação é de agravamento, não de amenização. Erro: contradiz o texto (inverte a relação).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a inversão da relação de concordância. As distratoras A, C e E fazem o autor criticar, ironizar ou relativizar as referências, quando na verdade ele as usa para reforçar sua tese. A letra D extrapola com uma preocupação (saúde mental) que o texto não menciona.

PEGA ESSA DICA!

Em questões sobre a função de uma referência ou citação, pergunte sempre: o autor concorda ou discorda dela? Se concorda, a função é de ratificação/argumento de autoridade; se discorda, seria de crítica ou ironia. O tom do texto (alarmado, não cético) já indica a resposta.

Gabarito: letra B. A regra de ouro: a referência intertextual em texto argumentativo quase sempre serve para reforçar a tese — e aqui as três obras citadas apontam na mesma direção do autor: a crise climática é real, grave e está piorando.

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