Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2024
Português›Colocação Pronominal
Código
vu205827
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2024
Cargo
OJ ( )
Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romance dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que a está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amor intenso, como a segunda o que é voar para longe.
Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma exceção no seu amor.
O magistrado e sua família eram odiosos ao pai de Teresa, por motivos de litígios, em que Domingos Botelho lhe deu sentença contra. Afora isso, ainda no ano anterior dois criados de Tadeu de Albuquerque tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. É, pois, evidente que o amor de Teresa, declinando de si o dever de obtemperar e sacrificar- se ao justo azedume do pai, era verdadeiro e forte.
E esse amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança, e nem sequer suspeitas às duas famílias. O destino que ambos se prometiam era o mais honesto: ele ia formar- -se para poder sustentá-la, se não tivessem outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande patrimônio. Espanta discrição tamanha na índole de Simão Botelho, e na presumível ignorância de Teresa em coisas materiais da vida, como são um patrimônio!
(Camilo Castelo Branco. Amor de Perdição, 1994. Adaptado)
Leia o excerto a seguir para responder à questão. A frase está em conformidade com a norma-padrão de colocação pronominal em:
ATeresa e Simão prometiam-se o mais honesto destino: formar-se-ia o rapaz para poder sustentá-la, desde que não fossem acessíveis outros recursos.
BOs dois se amavam, e esse amor era singularmente discreto e cauteloso, pois tinham visto-se e tinham falado-se três meses sem darem rebate à vizinhança.
CTadeu não via-se como amigo de Domingos, pois este lhe dera uma sentença contra. Afora isso, dois de seus criados feriram-se na celebrada pancadaria da fonte.
DNos cansam a paciência os poetas e os prosadores que põem-se a falar do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa. Certamente enganam- -se ambos.
ETeresa de Albuquerque deveria-se sacrificar ao azedume do pai, enquanto ele não falecesse. Depois disso, pretendia casar-se com Simão e amá-lo com o coração.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — Teresa e Simão prometiam-se o mais honesto destino: formar-se-ia o rapaz para poder sustentá-la, desde que não fossem acessíveis outros recursos.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Colocação pronominal: a norma-padrão na prática
Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que respeita integralmente a norma-padrão de colocação pronominal: "prometiam-se" (ênclise em verbo no pretérito imperfeito, sem palavra atrativa), "formar-se-ia" (mesóclise em verbo no futuro do pretérito, sem palavra atrativa) e "sustentá-la" (ênclise em verbo no infinitivo, sem palavra atrativa). As demais alternativas violam a próclise obrigatória após palavras atrativas (advérbios, conjunções subordinativas, pronomes relativos) ou usam ênclise em contextos proibidos.
O comando: o que a banca pede
A questão pede a frase "em conformidade com a norma-padrão de colocação pronominal". Isso significa que devemos analisar a posição dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos) em relação ao verbo. A norma-padrão estabelece três posições:
Próclise: pronome ANTES do verbo — obrigatória quando há palavra atrativa (advérbio, palavra negativa, conjunção subordinativa, pronome relativo, pronome indefinido, pronome interrogativo).
Mesóclise: pronome NO MEIO do verbo — usada com verbos no futuro do presente ou futuro do pretérito, SEM palavra atrativa.
Ênclise: pronome DEPOIS do verbo — usada quando não há palavra atrativa e o verbo não está no futuro.
A regra de ouro: palavra atrativa antes do verbo exige próclise; sem atrativa, usa-se ênclise (ou mesóclise, se o verbo estiver no futuro).
A técnica que decide a questão
A banca VUNESP adora testar a próclise obrigatória após palavras atrativas. As palavras atrativas são: conjunções subordinativas (que, se, embora, quando, como), palavras negativas (não, nunca, jamais, ninguém), advérbios (aqui, agora, talvez, já, mais, apenas, hoje, finalmente), pronomes relativos (que, os quais, cujas), pronomes indefinidos (nada, tudo, outras, certas, muitos) e pronomes interrogativos (quem, que, qual).
PEGA ESSA DICA!
Decore o mnemônico CNA PRII — Conjunções subordinativas, Negativas, Advérbios, Pronomes Relativos, Indefinidos/Interrogativos. Toda vez que uma dessas palavras aparecer antes do verbo, o pronome deve vir ANTES dele (próclise).
Além disso, há proibições gerais: não se inicia período com pronome oblíquo átono ("Me dá") e não se usa ênclise após futuros do presente/pretérito ("Darei-te") nem após particípio ("Tinha emprestado-lhe").
✅ Correta — sem palavra atrativa; mesóclise no futuro do pretérito
B
"tinham visto-se", "tinham falado-se"
❌ Ênclise após particípio (proibida); "pois" atrai próclise
C
"não via-se"
❌ "não" (palavra negativa) exige próclise: "não se via"
D
"Nos cansam", "põem-se", "enganam-se"
❌ Início de período com pronome átono; "que" e "Certamente" atraem próclise
E
"deveria-se sacrificar"
❌ Ênclise após futuro do pretérito (proibida); correto: "dever-se-ia" ou "sacrificar-se"
Colocação pronominal
1Próclise (antes do verbo)
Palavras atrativas
Conjunções subordinativas
Palavras negativas
Advérbios
Pronomes relativos/indefinidos
2Mesóclise (meio do verbo)
Futuro do presente/pretérito
Sem palavra atrativa
3Ênclise (depois do verbo)
Sem palavra atrativa
Proibida após particípio
Proibida após futuro
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que respeita integralmente a norma-padrão:
"prometiam-se": verbo no pretérito imperfeito, sem palavra atrativa antes — ênclise correta.
"formar-se-ia": verbo no futuro do pretérito, sem palavra atrativa — mesóclise correta (não se usa ênclise após futuro).
"sustentá-la": verbo no infinitivo, sem palavra atrativa — ênclise correta.
Não há nenhuma palavra atrativa antes dos verbos, e as formas verbais estão corretamente conjugadas. A frase está em total conformidade com a norma-padrão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B comete erro de colocação em "tinham visto-se" e "tinham falado-se". Em locuções verbais com verbo principal no particípio, o pronome NÃO pode ficar depois do particípio — a forma correta é "tinham se visto" (próclise ao verbo auxiliar) ou "se tinham visto". A regra proíbe ênclise após particípio. Além disso, a conjunção "pois" (explicativa) atrai próclise, reforçando o erro.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C comete erro em "não via-se". A palavra negativa "não" é atrativa e exige próclise: o correto é "não se via". Também há erro em "feriram-se": o pronome "se" aqui indica voz reflexiva, mas a frase "dois de seus criados feriram-se" está correta quanto à colocação (sem atrativa, ênclise). O erro principal é o primeiro.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D comete erro em "Nos cansam" — inicia período com pronome oblíquo átono, o que é proibido pela norma-padrão. O correto seria "Cansam-nos". Também há erro em "põem-se": a conjunção "que" (pronome relativo) atrai próclise, então o correto é "que se põem". E em "enganam-se": a palavra "Certamente" (advérbio) atrai próclise, então o correto é "Certamente se enganam".
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E comete erro em "deveria-se sacrificar". Em locução verbal com verbo principal no infinitivo, o pronome pode ficar após o auxiliar (ênclise ao auxiliar) ou após o infinitivo (ênclise ao principal), mas a forma "deveria-se" está correta quanto à colocação. O erro está em "amá-lo": o pronome "o" após o verbo "amar" no infinitivo está correto, mas a frase "pretendia casar-se com Simão e amá-lo" — na verdade, o erro está na regência: "amar" exige objeto direto, e "o" é objeto direto, então está correto. O erro real está em "deveria-se sacrificar": em locução verbal com verbo auxiliar no futuro do pretérito, o pronome deve vir em mesóclise no auxiliar ("dever-se-ia sacrificar") ou em ênclise no infinitivo ("deveria sacrificar-se"). A forma "deveria-se" é inadequada porque o verbo auxiliar está no futuro do pretérito, e a ênclise é proibida após futuros.
Conclusão
A alternativa A é a única que respeita todas as regras de colocação pronominal: ênclise em verbo no pretérito imperfeito, mesóclise em verbo no futuro do pretérito e ênclise em verbo no infinitivo, sem nenhuma palavra atrativa. As demais alternativas violam a próclise obrigatória após palavras atrativas (não, que, certamente) ou usam ênclise em contextos proibidos (após particípio, após futuro).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre próclise e ênclise, oferecendo frases com palavras atrativas (não, que, certamente) que exigem próclise, mas usando ênclise. A alternativa A é a única que não tem nenhuma palavra atrativa antes dos verbos, tornando a ênclise e a mesóclise corretas.