Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2024
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Código
vu205841
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2024
Cargo
OJ ( )
Cuidado com o livro
Sabem do que tenho mais saudades? Do livro aberto. Sim, isso mesmo, tenho saudade de ver um livro escancarado na mão de um leitor. Já não me lembro da última vez que vi um livro a ser devorado em público. Ler em público, ou até carregar um livro debaixo do braço, passou à história, é hoje praticamente figura de museu, alimento da nostalgia de poetas, romancistas e cronistas, para se empanturrarem até arrotarem os seus desvarios e estórias, que por vaidade ou capricho masoquista se dão ao trabalho de publicar em livros, que ficarão para sempre calados.
Nutrimos pelos livros o mesmo que sentimos por certos cães: medo. As casas comerciais, cada vez mais escassas, que carregam na fachada a palavra “Livraria”, são encaradas com o mesmo respeitinho que nutrimos por aquelas habitações onde nos portões se lê “Cuidado com o cão”. As nossas bibliotecas estão para nós como os canis municipais: nunca pomos lá os pés. Ninguém quer ver, ninguém está para se comover com aquela quantidade de livros abandonados, engaiolados nas prateleiras numa agonia sem fim.
Quando kandengues*, nossos pais, para incutir sentido de responsabilidade, nos davam de presente livros, e com eles as mesmas recomendações que forneciam quando nos ofereciam o nosso primeiro cachorrinho: “Cuida bem dele, leva-o a passear, é o teu melhor amigo”. Nós, na emoção inicial, brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil.
* crianças
(Kalaf Epalanga. Minha pátria é a língua pretuguesa [Crônicas], 2023. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Considere as passagens:
Já não me lembro da última vez que vi um livro a ser devorado em público.
... é hoje praticamente figura de museu...
As casas comerciais, cada vez mais escassas, que carregam na fachada a palavra “Livraria” são encaradas com o mesmo respeitinho que nutrimos por aquelas habitações...
... brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil.
Em relação às expressões destacadas, é correto afirmar que exprimem, correta e respectivamente, ideias relacionadas aos sentidos de:
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Sentido contextual das expressões: avidez, arcaísmo, desdém e puerilidade
Gabarito: letra C. A questão pede o sentido contextual de quatro expressões destacadas — e a única sequência que capta o tom exato do texto é avidez; arcaísmo; desdém; puerilidade. Cada termo é autorizado por uma passagem: "devorado" sugere avidez (ler com voracidade); "figura de museu" remete a arcaísmo (algo fora de uso); o "respeitinho" diante das livrarias é desdém disfarçado (comparação com "Cuidado com o cão"); e "alegria infantil" equivale a puerilidade. As demais alternativas trocam um vocábulo crucial e invertem o sentido — a clássica pegadinha de sinonímia.
O comando
O enunciado pede que você relacione cada expressão destacada a uma ideia — ou seja, que faça uma paráfrase semântica: encontrar o sinônimo ou a paráfrase que melhor traduz o sentido no contexto. Não é uma questão de gramática normativa, mas de semântica contextual: a palavra "devorado", por exemplo, não tem sentido literal de comer; ganha sentido figurado de "ler com avidez". O comando "exprimem, correta e respectivamente, ideias relacionadas aos sentidos de" exige que você teste cada alternativa contra o texto, não contra o dicionário isolado.
O texto e o movimento argumentativo
O cronista lamenta a morte do hábito de ler em público. No 1º parágrafo, ele diz sentir saudade de "ver um livro escancarado na mão de um leitor" e que ler em público "passou à história, é hoje praticamente figura de museu". No 2º parágrafo, compara as livrarias a casas com "Cuidado com o cão" — ou seja, as pessoas as evitam com um misto de medo e desprezo. No 3º parágrafo, recorda a infância, quando os pais davam livros de presente e as crianças "brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil". A tese é a nostalgia e a crítica ao abandono dos livros; cada expressão destacada carrega um matiz específico que a alternativa correta precisa respeitar.
A técnica que decide
A pegadinha central é a troca de vocábulo por um sinônimo próximo, mas com matiz diferente. Veja o caso de "devorado": o texto diz "vi um livro a ser devorado em público". "Devorar" aqui é metáfora de ler com voracidade, com avidez — não é "afronta" (desrespeito), nem "prudência" (cautela), nem "intensidade" genérica. A banca oferece "intensidade" na letra D justamente para atrair quem não percebe que o sentido específico é de desejo voraz, não de mera força. O mesmo raciocínio vale para "figura de museu": algo que "passou à história" é arcaico, em desuso — não "esquecimento" (A), nem "atração" (B), nem "antiguidade" (E, que é neutro demais).
"Já não me lembro da última vez que vi um livro a ser devorado em público."
Aqui, "devorado" = avidez (ler com fome, com voracidade). O contexto de saudade e de "livro escancarado na mão de um leitor" reforça a ideia de leitura apaixonada, não de agressão.
"é hoje praticamente figura de museu"
"Figura de museu" = arcaísmo (algo que pertence ao passado, fora de uso). O texto diz que ler em público "passou à história" — logo, é arcaico, não apenas "esquecido" ou "antigo" de forma neutra.
"As casas comerciais, cada vez mais escassas, que carregam na fachada a palavra 'Livraria' são encaradas com o mesmo respeitinho que nutrimos por aquelas habitações..."
O "respeitinho" é irônico: o diminutivo e a comparação com "Cuidado com o cão" revelam desdém — as pessoas evitam as livrarias com desprezo, não com "devoção" (B) nem "carinho" (D). O texto diz que "ninguém quer ver, ninguém está para se comover" com os livros abandonados.
"brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil"
"Alegria infantil" = puerilidade (qualidade do que é próprio de criança). Não é "insensatez" (A, que tem conotação negativa de falta de juízo), nem "juventude" (B, que é fase da vida, não estado de espírito), nem "ludicidade" (D, que é a qualidade do que é lúdico, mas o texto fala de alegria, não de jogo), nem "calma" (E).
Análise das alternativas
Expressões e sentidos: "Devorado" (Avidez (ler com voracidade)); "Figura de museu" (Arcaísmo (fora de uso)); "Respeitinho" (livrarias) (Desdém (desprezo disfarçado)); "Alegria infantil" (Puerilidade (próprio de criança))
Alternativa A — ❌ Incorreta
afronta; esquecimento; ojeriza; insensatez.
"Afronta" para "devorado" é extrapolação: o texto não sugere desrespeito, mas leitura voraz. "Devorar" aqui é metáfora de avidez, não de agressão.
"Esquecimento" para "figura de museu" é troca de conceito: o texto diz que algo "passou à história", o que é arcaísmo, não simples esquecimento.
"Ojeriza" para o "respeitinho" é exagero: o texto fala de desdém, não de repulsa física.
"Insensatez" para "alegria infantil" é opinião embutida: o texto não julga a alegria como falta de juízo; é puerilidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
prudência; atração; devoção; juventude.
"Prudência" para "devorado" é contradição: devorar é o oposto de prudência (cautela).
"Atração" para "figura de museu" é contradição: museu é algo que se visita por curiosidade, não atração atual; o texto diz que é coisa do passado.
"Devoção" para o "respeitinho" é inversão de sentido: o texto ironiza o respeito, que na verdade é desdém.
"Juventude" para "alegria infantil" é troca de conceito: juventude é fase da vida; puerilidade é qualidade do que é infantil.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
avidez; arcaísmo; desdém; puerilidade.
"Avidez" para "devorado": o texto diz "vi um livro a ser devorado em público" — ler com voracidade, com fome de leitura.
"Arcaísmo" para "figura de museu": o texto diz que ler em público "passou à história" — algo fora de uso, arcaico.
"Desdém" para o "respeitinho": o texto compara as livrarias a casas com "Cuidado com o cão" e diz que "ninguém quer ver" — desprezo disfarçado de respeito.
"Puerilidade" para "alegria infantil": o texto fala de "alegria infantil" — qualidade do que é próprio de criança.
Alternativa D — ❌ Incorreta
intensidade; desuso; carinho; ludicidade.
"Intensidade" para "devorado" é generalização: o texto fala de avidez específica, não de intensidade genérica.
"Desuso" para "figura de museu" é quase correta, mas "arcaísmo" é mais preciso: desuso é o estado, arcaísmo é a qualidade do que é antigo e fora de uso. A banca troca o matiz.
"Carinho" para o "respeitinho" é inversão de sentido: o texto ironiza, é desdém, não afeto.
"Ludicidade" para "alegria infantil" é troca de conceito: ludicidade é qualidade do que é lúdico (jogo); o texto fala de alegria, não de brincadeira.
Alternativa E — ❌ Incorreta
comedimento; antiguidade; intimidade; calma.
"Comedimento" para "devorado" é contradição: devorar é o oposto de comedimento (moderação).
"Antiguidade" para "figura de museu" é troca de conceito: antiguidade é neutro; o texto fala de arcaísmo, algo fora de uso.
"Intimidade" para o "respeitinho" é extrapolação: o texto não fala de proximidade, mas de desdém.
"Calma" para "alegria infantil" é contradição: alegria infantil é vivacidade, não calma.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca um vocábulo por um sinônimo próximo, mas com matiz diferente — "intensidade" em vez de "avidez", "desuso" em vez de "arcaísmo", "carinho" em vez de "desdém". O candidato que lê rápido aceita o sinônimo aproximado e erra.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de sentido contextual, pergunte-se: "qual é o matiz exato que o texto autoriza?" Não aceite o primeiro sinônimo que vier à mente; teste contra a passagem.
Conclusão: a única sequência inteiramente sustentada pelo texto é avidez; arcaísmo; desdém; puerilidade — cada termo é a paráfrase exata de uma passagem. As demais alternativas ou trocam o matiz, ou invertem o sentido, ou acrescentam ideias que o texto não contém.