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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2024

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
vu205874
Banca
VUNESP
Órgão
SPCINE
Ano
2024
Cargo
Gest ( )

Cinema antigo

 

Os pequenos prazeres da vida, curtidos quase secretamente, exigem certo refinamento não ao alcance de qualquer um. Requerem uma habilidade especial, igual à dos pássaros ao sugar o néctar das menores flores. Já os grandes prazeres pedem cenário, câmaras e razoável plateia. A felicidade dos artistas de televisão, por exemplo, é uma coisa pública, para ser compartilhada, fotografada, invejada. Quanta alegria eles demonstram ao exibir sua mansão, seus carros ou quando são flagrados fazendo compras em Paris ou Nova York, ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes!

 

Há prazeres de todos os tamanhos, como os domésticos, inocentes. O meu favorito parece obra de maníaco. Conforta-me, porém, não ser o único desse clube. Aí, entra minha mulher, Ismênia, e diz a vocês:

 

– Ele é maluco por filmes antigos. Aqueles do Humphrey Bogart, vocês sabem.

 

Sim, filmes de preferência em preto e branco. Feitos antes das cores e dos chatíssimos efeitos especiais, tão ao alcance de qualquer diretor sem talento. Não há nada mais delicioso que ver um policial noir1, numa noite de sexta-feira, tomando uma dose de uísque e mordiscando salgadinhos.

 

Alguns são velhos conhecidos. Como “Os Assassinos”, baseado em Hemingway2, primeira versão de 1946, com Burt Lancaster e Ava Gardner. Outros nem tanto, aí procuro descobrir em que ano foram produzidos. Há várias pistas: as roupas que os atores usam, a marca e o modelo dos carros, o estilo dos móveis e as referências históricas. Concentro-me em todos os detalhes. Às vezes peço socorro a Ismênia se a chave do enigma está no penteado ou no vestido.

 

– Ah, eu já sei esse. Esteve na moda por volta de 1960.

 

Adoro filmes, como “Falcão Maltês” ou “Pacto Sinistro”, que são adaptações de romances marcantes. Algo todos tinham em comum, além do roteiro primoroso, a fumaça. Os atores e atrizes fumavam desbragadamente; era preciso assoprar para apreciar certas cenas. Outro item, a beleza estonteante das Ava, Rita, Marlene3. Enchiam a tela.

 

Não haveria lugar para os Stallone, com seus equipamentos mortíferos. No lugar de armas de grande poder de fogo, imperavam os lances de inteligência, demolidoras frases de espírito ou certeiros socos no queixo. Tudo elegante, sofisticado, chiquérrimo. Os próprios fora da lei usavam smoking, e rolava uma trilha sonora de Cole Porter ou Gershwin. Então o bom ficava ainda melhor.

 

– Você vai assistir a esse filme de novo? – pergunta minha mulher.

 

– Sim, querida.

 

– Se assistir, vou para um hotel. Não suporto mais.

 

Não me preocupo; ela só cumpriu a ameaça umas cinco vezes.

 

(Marcos Rey. Coleção melhores crônicas: Marcos Rey. Seleção de Anna Maria Martins. Global editora. Adaptado)

 

1. policial noir: romances e filmes baseados em histórias de investigação e suspense.

2. Ernest Hemingway (1899-1961): escritor norte-americano.

3. Ava, Rita, Marlene: Ava Gardner, Rita Hayworth, Marlene Dietrich.

Considere as passagens do texto.   \bullet ... ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes!   \bullet ... era preciso assoprar para apreciar certas cenas.   \bullet Então o bom ficava ainda melhor.   Nas passagens indicadas, é correto afirmar que o autor expressa suas ideias, respectivamente, por meio de:
  1. Areiteração; exagero; contestação.
  2. Breiteração; ênfase; conclusão.
  3. Cduplo sentido; comparação; suposição.
  4. Dironia; comparação; suposição.
  5. Eironia; exagero; conclusão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — ironia; exagero; conclusão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ironia, exagero e conclusão: os efeitos de sentido no texto

Gabarito: letra E. O autor expressa suas ideias, respectivamente, por meio de ironia (na primeira passagem), exagero (na segunda) e conclusão (na terceira). A primeira passagem diz o oposto do que pensa — chama de "inteligentes" as declarações vazias dos artistas; a segunda amplia desproporcionalmente um fato — "era preciso assoprar" para ver as cenas, tamanha a fumaça; a terceira usa o conectivo "Então" para fechar um raciocínio — o bom ficava ainda melhor. Vejamos cada uma com a passagem que a prova.

O comando: identificar o efeito de sentido de cada passagem

A questão pede que você reconheça o recurso expressivo usado em três trechos específicos. Não é uma questão de compreensão global do texto, mas de análise de recursos de linguagem — você precisa nomear o que o autor faz em cada passagem. A banca mistura termos que parecem próximos (ênfase × exagero; reiteração × ironia) para testar se você percebe a diferença sutil entre eles.

O texto: o cronista e sua visão nostálgica do cinema antigo

O cronista defende os prazeres simples e secretos, como assistir a filmes antigos em preto e branco. Ele critica os efeitos especiais modernos e os artistas que exibem sua felicidade publicamente. A ironia aparece quando ele fala dos artistas de TV; o exagero, quando descreve a fumaça dos filmes antigos; a conclusão, quando arremata sua defesa do cinema clássico.

A técnica: como distinguir ironia, exagero e conclusão

  • Ironia: dizer o contrário do que se pensa, com tom de zombaria. Na passagem "ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes!", o autor chama de "inteligentes" as declarações banais dos artistas — é claramente irônico, pois ele critica essa exposição vazia.

  • Exagero (hipérbole): ampliar desproporcionalmente uma ideia para dar ênfase. Em "era preciso assoprar para apreciar certas cenas", o autor exagera a quantidade de fumaça — não é literal, é uma hipérbole para mostrar como os atores fumavam muito.

  • Conclusão: fechar um raciocínio com um conectivo conclusivo. "Então o bom ficava ainda melhor" — o "Então" introduz a conclusão de que, com tudo aquilo (elegância, sofisticação), o filme ficava ainda melhor.

Análise das alternativas

  1. 1Ironia (diz o contrário)
  2. 2Exagero (hipérbole)
  3. 3Conclusão (conectivo)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Reiteração; exagero; contestação. A primeira passagem não é reiteração (repetição), mas ironia. A terceira não é contestação (negação), mas conclusão. Erro duplo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Reiteração; ênfase; conclusão. A primeira passagem não é reiteração, é ironia. A segunda é exagero, não apenas ênfase — o exagero é um tipo específico de ênfase, mas a banca quer o termo exato. Erro na primeira e na segunda.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Duplo sentido; comparação; suposição. Não há duplo sentido na primeira (é ironia), nem comparação na segunda (é exagero), nem suposição na terceira (é conclusão). Nenhuma das três corresponde.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Ironia; comparação; suposição. A primeira é ironia (correto), mas a segunda não é comparação — não há termo comparativo (como, tal qual); é exagero. A terceira não é suposição, é conclusão. Erro na segunda e na terceira.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Ironia; exagero; conclusão. Exatamente o que o texto mostra:

"... ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes!"

O autor chama de "inteligentes" as declarações dos artistas, mas o contexto mostra que ele as considera vazias — ironia.

"... era preciso assoprar para apreciar certas cenas."

A fumaça era tanta que era preciso assoprar — exagero (hipérbole) para enfatizar o hábito de fumar dos atores.

"Então o bom ficava ainda melhor."

O "Então" é um conectivo conclusivo — encerra o raciocínio de que a elegância e a sofisticação tornavam o filme ainda melhor.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca "exagero" por "ênfase" e "ironia" por "reiteração" — termos que parecem próximos, mas não são sinônimos. Exagero é uma forma de ênfase, mas a banca quer o termo específico; reiteração é repetição, não ironia.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar figuras, pergunte: o autor diz o contrário do que pensa? (ironia). Ele amplia desproporcionalmente? (exagero). Ele fecha um raciocínio com conectivo? (conclusão).

Gabarito: letra E — a única que nomeia corretamente os três recursos, na ordem em que aparecem.

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