Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205901
Banca
VUNESP
Órgão
A.C.Camargo
Ano
2024
Cargo
RM Onc ( )
As meninas dos hospitais
Quando os olhos se abrem sobre estas mansas meninas dos hospitais, tem-se a vontade de exclamar: “Oh! os anjos de papel couché1!...” – vendo-as tão alvas e reluzentes, tão aladas e fora dos assuntos terrenos. Mas não seria prudente uma exclamação assim. Pois quanto a anjos elas estão muito bem informadas, conhecem todos pelos seus nomes, certamente passeiam com eles de braço dado; mas papel couché é coisa de que jamais ouviram falar, e poderiam achar depreciativa tal citação. Não devemos de forma alguma deixar pairar a sombra da mais leve suspeita de ofensa sobre as mansas meninas dos hospitais.
Pois na verdade elas não são apenas encantadoras, mas mesmo sobrenaturais: sem rumor de passos, vão e vêm, atravessam as paredes, suspendem no ar graciosamente baldes e vassouras, bandejas e lençóis como se tudo fossem ramos de flores.
(Cecília Meireles. Escolha o seu Sonho, 1964. Adaptado)
1 Papel de superfície lisa e revestida, que proporciona cores vibrantes, imagens nítidas e um toque macio.
Leia o texto para responder à questão. Para o narrador, as meninas dos hospitais são concebidas como seres
Aseveros, o que justificaria se manter em silêncio quando elas surgissem.
Binalcançáveis, o que justificaria se autodepreciar diante da presença delas.
Ccorriqueiros, o que justificaria usar expressões difíceis para constrangê-las.
Ddistraídos, o que justificaria a atenção redobrada a seus gestos e palavras.
Eextraordinários, o que justificaria o cuidado com aquilo que se diria a elas
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GabaritoE — extraordinários, o que justificaria o cuidado com aquilo que se diria a elas
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As meninas dos hospitais: seres extraordinários
Gabarito: letra E. Para o narrador, as meninas dos hospitais são concebidas como seres extraordinários, e é exatamente por isso que ele tem cuidado com aquilo que se diria a elas. A passagem que ancora essa leitura está no primeiro parágrafo: o narrador pensa em exclamar "Oh! os anjos de papel couché!", mas recua, pois "poderiam achar depreciativa tal citação" e "não devemos de forma alguma deixar pairar a sombra da mais leve suspeita de ofensa sobre as mansas meninas dos hospitais". O cuidado com as palavras nasce da percepção de que elas são especiais, quase sobrenaturais — não de que sejam severas, inalcançáveis, corriqueiras ou distraídas.
O comando: compreensão com paráfrase
A questão pede que se identifique como o narrador concebe as meninas e qual a justificativa dessa concepção. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de localizar a caracterização explícita e reconhecer sua paráfrase. O verbo "concebidas" aponta para a visão do narrador, e a estrutura "X, o que justificaria Y" exige que a alternativa una corretamente a caracterização à consequência lógica que o próprio texto apresenta.
O texto: a tese da sobrenaturalidade
O texto é uma crônica descritiva e poética. No primeiro parágrafo, o narrador revela a tentação de chamar as meninas de "anjos de papel couché" — expressão que as eleva a algo alvo, reluzente, alado e fora dos assuntos terrenos — mas imediatamente se corrige, com medo de ofendê-las. No segundo parágrafo, a caracterização se completa: "elas não são apenas encantadoras, mas mesmo sobrenaturais: sem rumor de passos, vão e vêm, atravessam as paredes, suspendem no ar graciosamente baldes e vassouras".
A resposta mora na consequência dessa visão: se são seres extraordinários, quase divinos, qualquer palavra que as rebaixe (como "papel couché", que elas não conhecem e poderiam achar depreciativo) deve ser evitada. O cuidado com o que se diz é a tradução prática da admiração que o narrador sente.
A técnica: testar a justificativa em cada alternativa
A armadilha central desta questão é a troca de vocábulo: cada distratora usa uma caracterização que parece plausível, mas que o texto não sustenta — ou porque contradiz o que está escrito, ou porque extrapola. O método é simples: para cada alternativa, pergunte "onde o texto autoriza esta caracterização?" e "a justificativa decorre dela?". A única que resiste ao teste é a E.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece adjetivos que soam compatíveis com a cena (silêncio, distância, atenção), mas que não estão no texto. A correta exige reconhecer a palavra-chave "sobrenaturais" e sua consequência direta: o cuidado com as palavras.
Meninas dos hospitais
1Caracterização
Encantadoras
Sobrenaturais
Anjos de papel couché
2Consequência
Cuidado com as palavras
Evita expressão depreciativa
Receio de ofendê-las
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O narrador não se cala por medo ou severidade das meninas, mas por respeito e admiração. O texto diz que "não seria prudente uma exclamação assim" porque elas "poderiam achar depreciativa tal citação" — o silêncio é uma proteção, não uma reação a algo severo. Não há nenhuma menção a um comportamento rígido ou intimidador.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. É verdade que as meninas são descritas como "aladas e fora dos assuntos terrenos", o que pode sugerir distância. Mas o texto não diz que o narrador se autodeprecia diante delas. Ele não se coloca como inferior; apenas evita uma expressão que poderia ser mal interpretada. A ideia de "autodepreciação" é acrescentada de fora, sem apoio no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O narrador faz exatamente o oposto de usar expressões difíceis para constranger: ele evita a expressão "papel couché" justamente porque elas não a conheceriam e poderiam achá-la depreciativa. A intenção é proteger, nunca constranger. A alternativa inverte o sentido do texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto descreve as meninas como "distraídas"? Não. Elas são "mansas", "encantadoras", "sobrenaturais" — mas não há a ideia de que sejam desatentas ou que exijam "atenção redobrada a seus gestos e palavras" por isso. A atenção do narrador é fruto da admiração, não de uma suposta distração delas.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única inteiramente sustentada pelo texto. A caracterização de "extraordinárias" é paráfrase direta de "sobrenaturais" e "anjos de papel couché". A justificativa — "o cuidado com aquilo que se diria a elas" — é a consequência explícita do primeiro parágrafo:
"poderiam achar depreciativa tal citação. Não devemos de forma alguma deixar pairar a sombra da mais leve suspeita de ofensa sobre as mansas meninas dos hospitais."
O narrador cuida do que diz porque reconhece nelas algo fora do comum, que merece reverência. A alternativa une perfeitamente a visão (extraordinárias) à atitude (cuidado com as palavras).
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, desconfie de adjetivos que "parecem" combinar com a cena. Volte ao texto e procure a palavra exata que o autor usou — aqui, "sobrenaturais" é a chave que mata a questão.