Certa feita, segundo os índios bororo, a pedra e a taquara deram início a um debate para saber qual das duas se assemelhava mais à vida humana.
– Sem dúvida alguma, a vida humana se parece mais comigo – disse a pedra, categoricamente –, pois a vida humana é tão resistente sobre a Terra quanto as pedras.
Neste ponto, a taquara contestou:
– De forma alguma, amiga pedra. A vida humana se parece comigo, e não com você. Os homens morrem como as taquaras, ao invés de durarem perpetuamente como as pedras.
A pedra alterou-se ligeiramente.
– Ora, tolices! A vida humana se parece comigo! Não vê, então, como ela resiste ao frio e ao calor, não se dobrando nem ao vento, nem às intempéries?
– Não, não, enganas-te – disse a taquara. – O homem, na verdade, tem bem pouco de pedra. Ele morre como nós, as taquaras, morremos, porém renasce nos seus filhos.
Então, mostrando à pedra os seus filhos – a taquara estava dentro de um enorme e ruidoso taquaral –, ela pôs, por assim dizer, uma pedra sobre a questão:
– Veja como somos parecidos com os homens: somos maleáveis, temos a pele frágil e, finalmente, nos reproduzimos sem parar.
Então a pedra, reconhecendo a derrota, ficou muda e nunca mais disse palavra.
(Franchini, A. S. As 100 Melhores Lendas do Folclore Brasileiro)
Na passagem do 2º parágrafo – ... pois a vida humana é tão resistente sobre a Terra quanto as pedras. –, a expressão “pois” e o par correlativo “tão ... quanto” estabelecem, correta e respectivamente, relações de sentido de
Afinalidade e comparação.
Bcausa e consequência.
Cconsequência e adição.
Dexplicação e comparação.
Econclusão e adição.
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GabaritoD — explicação e comparação.
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Conjunções: o valor semântico de "pois" e "tão...quanto"
Gabarito: letra D. No trecho do 2º parágrafo, o "pois" introduz uma explicação (justifica por que a vida humana se parece com a pedra), e o par correlativo "tão...quanto" estabelece uma comparação de igualdade entre a resistência da vida humana e a das pedras. A banca cobra exatamente a distinção entre o "pois" explicativo (antes do verbo) e o "pois" conclusivo (depois do verbo), além de exigir o reconhecimento da correlação comparativa.
O comando da questão
O enunciado pede que você identifique, correta e respectivamente, as relações de sentido estabelecidas por dois conectivos: "pois" e "tão...quanto". Isso é uma questão de semântica dos conectivos — não basta saber a classe gramatical; é preciso analisar o efeito de sentido que cada um produz no contexto. A palavra "respectivamente" indica que a ordem das relações deve corresponder à ordem dos conectivos citados: primeiro o sentido de "pois", depois o de "tão...quanto".
O texto e o trecho em análise
No texto, a pedra argumenta que a vida humana se parece com ela, e justifica:
"... pois a vida humana é tão resistente sobre a Terra quanto as pedras."
Aqui, o "pois" explica a afirmação anterior (a vida humana se parece com a pedra) apresentando o motivo: a resistência. Não é uma conclusão (não se conclui algo a partir de uma premissa), nem uma causa (não há relação de causa e efeito entre dois fatos; há uma justificativa para uma opinião). Já o "tão...quanto" é uma correlação comparativa: compara a resistência da vida humana com a das pedras, indicando igualdade de grau.
A técnica que decide
Para resolver, você deve:
Identificar a posição do "pois": antes do verbo, é explicativo; depois do verbo, é conclusivo. No trecho, "pois" vem antes do verbo "é", logo é explicativo.
Reconhecer a correlação "tão...quanto": é uma estrutura comparativa de igualdade, equivalente a "tão...como".
Descartar as alternativas que confundem explicação com causa ou conclusão: a banca adora trocar esses valores, pois o "pois" pode ser causal, explicativo ou conclusivo dependendo do contexto.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Finalidade e comparação. O "pois" não indica finalidade (objetivo, propósito). Finalidade seria expressa por "para que", "a fim de que". O "tão...quanto" realmente é comparação, mas o primeiro termo está errado. Erro: troca de conceito — confunde explicação com finalidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Causa e consequência. O "pois" aqui não é causal (não indica a causa de um efeito), mas explicativo (justifica uma afirmação). O "tão...quanto" não expressa consequência, e sim comparação. Erro: troca de conceito — confunde explicação com causa e comparação com consequência.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Consequência e adição. O "pois" não é consecutivo (não indica consequência); seria "tão...que" para consequência. O "tão...quanto" não é aditivo (não soma ideias), é comparativo. Erro: troca de conceito — confunde explicação com consequência e comparação com adição.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Explicação e comparação. O "pois" explica a razão da semelhança (a resistência), e o "tão...quanto" compara a resistência da vida humana com a das pedras. A passagem confirma:
"... pois a vida humana é tão resistente sobre a Terra quanto as pedras."
O "pois" está antes do verbo, portanto explicativo; a correlação "tão...quanto" é comparativa de igualdade. Correta — é a única que nomeia corretamente as duas relações.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Conclusão e adição. O "pois" não é conclusivo aqui (estaria depois do verbo, como em "estudou, pois"). O "tão...quanto" não é aditivo, é comparativo. Erro: troca de conceito — confunde explicação com conclusão e comparação com adição.
Tabela-resumo
Conectivo
Sentido no trecho
Alternativa que acerta
pois
Explicação
D
tão...quanto
Comparação
D
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o "pois" explicativo (antes do verbo) e o "pois" conclusivo (depois do verbo). Lembre: "pois" antes do verbo = explicação; depois = conclusão.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver "tão...quanto", "tão...como", "tanto...quanto", pense imediatamente em comparação. E para o "pois", verifique a posição: antes do verbo, explicativo; depois, conclusivo.