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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2024

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu205997
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2024
Cargo
CFO/QC ( )

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos.

 

Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, — uma pérola.

 

Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

 

(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

A metáfora é o emprego de um significante com um significado secundário ou a aproximação de dois ou mais significantes, estando, nos dois casos, os significados associados por semelhança, contiguidade, inclusão.    (Nilce Sant’Anna Martins, 2008)    A definição da autora é corretamente exemplificada com a seguinte passagem do texto:
  1. AA que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela... (1º parágrafo)
  2. BNaquele ano, morria de amores por um certo Xavier... (2º parágrafo)
  3. CMas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. (1º parágrafo)
  4. DSim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado... (1º parágrafo)
  5. E... namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. (3º parágrafo)
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GabaritoE — ... namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. (3º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metáfora: a comparação implícita no texto de Machado

Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que apresenta uma metáfora — a expressão "cheio das primeiras auroras" transfere ao eu-narrador uma qualidade que não lhe é literal: ele não está "cheio" de auroras, mas de entusiasmo, vitalidade e esperança, como se essas sensações fossem uma luz de amanhecer. A definição de Nilce Sant'Anna Martins fala em "aproximação de significantes com significados associados por semelhança" — exatamente o que ocorre aqui: "auroras" (amanhecer) é usado para significar "empolgação juvenil", sem conectivo comparativo, o que caracteriza a metáfora.

"deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras."

O trecho mostra o narrador tomado por um sentimento novo e arrebatador, comparado implicitamente ao amanhecer. Não há "como" ou "tal qual" — a comparação é implícita, marca registrada da metáfora.

O comando da questão

A questão pede que você identifique a passagem que exemplifica a definição de metáfora dada pela autora. Isso não é uma questão de compreensão literal do texto, mas de reconhecimento de figura de linguagem — você precisa saber o que é metáfora e localizar no texto o trecho em que ela ocorre. A definição da autora destaca dois pontos: (1) emprego de um significante com significado secundário (sentido figurado) e (2) aproximação de significantes por semelhança. A metáfora é uma comparação implícita, sem conectivo comparativo (como, tal qual, assim como).

A técnica para resolver

  1. Leia cada alternativa e pergunte: há aqui uma palavra ou expressão usada fora do seu sentido literal? Há uma comparação implícita?

  2. Desconfie de trechos que parecem poéticos, mas que podem ser apenas descrição literal.

  3. Confira se há conectivo comparativo — se houver, é comparação (símile), não metáfora.

  4. Identifique o que está sendo comparado — na metáfora, o termo figurado substitui o sentido real.

Análise das alternativas

Metáfora
  • 1Comparação implícita
    • Sem conectivo (como, tal qual)
    • Sentido figurado
  • 2Exemplo: "cheio das primeiras auroras"
    • = entusiasmo, vitalidade
  • 3Figuras que confundem
    • Hipérbole (exagero)
      • "morria de amores"
    • Antítese (oposição)
      • "tudo ou nada"
    • Literalidade
      • Descrição sem sentido figurado
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela..."

Aqui não há metáfora. O trecho é uma afirmação literal: o narrador diz que foi cativado por uma dama. O verbo "cativar" pode ter sentido figurado (conquistar, encantar), mas no contexto é usado de forma corriqueira, sem criar uma imagem comparativa. Não há aproximação de significantes por semelhança. Erro: ausência de figura de linguagem (literalidade).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier..."

Aqui há uma hipérbole (exagero intencional): "morria de amores" é uma forma exagerada de dizer que estava muito apaixonada. Não é metáfora, pois não há comparação implícita entre dois elementos; há apenas um exagero. Erro: confunde hipérbole com metáfora.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada."

Este trecho expressa uma antítese (oposição entre "tudo" e "nada"). Não há metáfora. Erro: confunde antítese com metáfora.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado..."

Aqui há uma descrição literal do narrador: ele era bonito, airoso (elegante) e abastado (rico). Não há sentido figurado nem comparação implícita. Erro: ausência de figura de linguagem (literalidade).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras."

A expressão "cheio das primeiras auroras" é uma metáfora: o narrador não está literalmente cheio de amanheceres, mas de entusiasmo, esperança e vitalidade — sentimentos associados ao nascer do dia. A comparação é implícita, sem conectivo, e há transferência de significado por semelhança (aurora = começo, renovação, juventude). Isso se encaixa perfeitamente na definição da autora.

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca trechos com outras figuras (hipérbole em B, antítese em C) e trechos literais (A e D) para você confundir. A metáfora está escondida na expressão poética "cheio das primeiras auroras".

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar metáfora, pergunte: "há uma palavra usada fora do seu sentido literal?" Se sim, e se não houver conectivo comparativo, é metáfora. Cuidado com hipérbole (exagero) e antítese (oposição).

Conclusão: a única alternativa que apresenta metáfora é a E, pois "cheio das primeiras auroras" é uma comparação implícita entre o estado emocional do narrador e o amanhecer. As demais ou são literais ou apresentam outras figuras.

Gabarito: letra E

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