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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — VUNESP 2024

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
vu206035
Banca
VUNESP
Órgão
SAAE Aparecida
Ano
2024
Cargo
Ana ( )

Até agora a enxurrada de imagens terríveis do flagelo climático no Rio Grande do Sul só não me provocou pesadelos porque dormir não é meu forte. Persisto, pois, a sofrer acordado, de olhos abertos e com a consciência culpada por me deixar agastar com facilidade por contratempos comparativamente miúdos e desprezíveis. Para me preservar de emoções tóxicas, parei de acompanhar as tentativas de socorro a bichos e idosos. Ainda assim, algumas imagens aflitivas burlaram minha vigilância.

 

De repente, uma senhorinha sequestra minha atenção. Oh!, se não é minha avó materna esculpida em Carrara, à beira do Guaíba! Minha avó mais próxima e querida.

 

Dona Arminda (tive duas avós com esse nome, ambas portuguesas) era a soberana da casa, a mater familias.

A exemplo de tantas avós e mães, foi quem celebrizou em nosso reduto o bordão “Vocês pensam que eu sou sócia da Light1?”, infalível toda vez que via acesa uma lâmpada que deveria estar apagada, para não aumentar a conta da luz.

Parecia viver movida a máximas, provérbios e adágios, uns de sua lavra, vários emprestados à Bíblia, outros enigmáticos e mesmo inalcançáveis por meu cérebro mirim.

 

Fiquei intrigado ao ouvi-la dizer pela primeira vez que fulano era “mais surdo que um portão de cemitério”. Surdo à súplica do defunto para “não entrar ali”, deduzi com razoável margem de acerto. Levei bem mais tempo para perceber que vovó não resmungava “o que no mato engorda…” e, sim, “o que não mata engorda” (sem os reticentes três pontinhos) – e só então, definitivamente liberado do supersticioso caveat 2 imposto à mistura, fui tomar outro copo de vitamina de manga com leite.

 

Não tive paciência para explicar à vovó Arminda que a frase correta (ou original) é “Quem tem boca vaia Roma”, e não “vai a Roma”, embora esta faça muito, se não até mais, sentido para quem nunca viveu sob o jugo romano.

 

Este é um caso clássico de expressão corrompida, bastante comum no florilégio de provérbios, axiomas, anexins e afins. Do mesmo nível, por exemplo, de “quem não tem cão, caça com gato” (a versão que se difundiu de “quem não tem cão, caça como gato”) e também de “cor de burro quando foge”, que sempre quis dizer “corro de burro quando foge”. No império romano, a expressão “esculpida em Carrara” era sinônimo de cópia fiel, igualzinha, sem tirar nem pôr; ou seja, o carbono ou a xerox de um tempo em que as pessoas posavam para artistas que mais fielmente as reproduziam no mármore de Carrara. Restou-nos apenas a malsonante e nojenta “cuspida e escarrada”.

 

Ora, se fizeram isso com o reputado mármore de Carrara, quem sou eu para sugerir que a expressão “Abre-te, sésamo!” vire, entre os lusófonos, “Abre-te, gergelim!”?

 

(Se fiz o prezado leitor esquecer um pouco a tragédia nos pampas, cumpri minha missão.)

 

(Sérgio Augusto. Quem tem boca ‘vaia Roma’ ou ‘vai a Roma’? Um caso clássico de expressão corrompida. Disponível em: https://www.estadao.com.br/. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.

 

Em – Parecia viver movida a máximas, provérbios e adágios, uns de sua lavra, vários emprestados à Bíblia, outros enigmáticos e mesmo inalcançáveis por meu cérebro mirim. – (3o parágrafo), as expressões em destaque, respectivamente, sugerem que algumas das frases de efeito usadas pela avó do autor eram

  1. Aautorais e ininteligíveis para um jovem.
  2. Bpróprias e inapeláveis por um adulto.
  3. Ccomuns e incomensuráveis para um pré-adolescente.
  4. Dinventadas e acessíveis a um juvenil.
  5. Epúblicas e concebíveis por uma criança.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — autorais e ininteligíveis para um jovem.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Significação de vocábulos: "de sua lavra" e "inalcançáveis" no contexto

Gabarito: letra A. As expressões destacadas — "de sua lavra" e "inalcançáveis" — sugerem, respectivamente, que algumas frases de efeito da avó eram autorais (criadas por ela mesma) e ininteligíveis para um jovem (impossíveis de serem compreendidas pelo neto). A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo: "Parecia viver movida a máximas, provérbios e adágios, uns de sua lavra, vários emprestados à Bíblia, outros enigmáticos e mesmo inalcançáveis por meu cérebro mirim". A alternativa A é a única que parafraseia fielmente os dois sentidos, sem acrescentar ou restringir nada.

O comando: compreensão de vocabulário em contexto

A questão pede que você identifique o sentido de duas expressões exatamente como empregadas no texto. Não se trata de inferir algo além do que está escrito, mas de reconhecer o significado contextual de "de sua lavra" e "inalcançáveis". O verbo "sugerem" indica que a resposta deve captar a ideia que o autor transmite, mas sempre ancorada nas palavras do próprio texto. A técnica aqui é: isolar cada expressão, ver o que a rodeia no parágrafo e testar qual alternativa traduz esse sentido sem desviar.

O texto: a avó e suas frases de efeito

O autor descreve a avó Arminda como alguém que "parecia viver movida a máximas, provérbios e adágios". A frase-chave é a que vem em seguida, classificando essas frases em três grupos: "uns de sua lavra" (algumas criadas por ela), "vários emprestados à Bíblia" (outras vindas de fonte externa) e "outros enigmáticos e mesmo inalcançáveis por meu cérebro mirim" (outras difíceis de entender para o neto criança). O contraste entre "de sua lavra" e "emprestados à Bíblia" já mostra que o primeiro termo significa próprio, autoral, inventado por ela. Já "inalcançáveis" está ligado a "enigmáticos" e ao "cérebro mirim" do narrador, indicando que não eram compreensíveis para ele quando jovem.

A técnica: paráfrase fiel, sem extrapolar

A armadilha central desta questão é a troca de vocábulo com mudança sutil de sentido. Cada distratora pega uma das duas ideias e a deforma: ou troca "autoral" por algo parecido, mas errado ("comuns", "públicas"), ou troca "ininteligível" por um termo que foge do texto ("inapeláveis", "incomensuráveis", "acessíveis", "concebíveis"). O método é: para cada alternativa, pergunte: o texto autoriza exatamente esta palavra? Se a palavra não estiver no texto nem for sinônimo direto do que está nele, a alternativa está errada.

"Parecia viver movida a máximas, provérbios e adágios, uns de sua lavra, vários emprestados à Bíblia, outros enigmáticos e mesmo inalcançáveis por meu cérebro mirim."

A expressão "de sua lavra" é uma locução que significa "de sua autoria", "criado por ela". O texto a opõe a "emprestados à Bíblia", ou seja, oposição entre o que é próprio e o que é alheio. Já "inalcançáveis" é um adjetivo que, no contexto, qualifica as frases que o neto não conseguia entender: "enigmáticos e mesmo inalcançáveis por meu cérebro mirim". O termo "mirim" (criança, jovem) reforça que a dificuldade era de um jovem.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Autorais" é sinônimo direto de "de sua lavra" (de sua autoria). "Ininteligíveis para um jovem" parafraseia "inalcançáveis por meu cérebro mirim": o que é inalcançável para o cérebro de uma criança é justamente o que um jovem não consegue entender. A alternativa não acrescenta nada que o texto não diga e não restringe o alcance das expressões. É a única que traduz os dois sentidos com precisão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. "Próprias" até poderia se aproximar de "de sua lavra", mas "inapeláveis" (que não admite recurso, definitivo) não tem relação com "inalcançáveis". O texto fala de frases que o neto não conseguia entender, não de frases definitivas ou sem apelação. Além disso, "por um adulto" contradiz o texto, que diz "por meu cérebro mirim" — o narrador era criança, não adulto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito + restrição. "Comuns" é o oposto de "de sua lavra": se são da lavra da avó, são originais, não comuns. "Incomensuráveis" (que não pode ser medido) não é sinônimo de "inalcançáveis" no sentido de incompreensível. E "pré-adolescente" é uma especificação que o texto não faz — ele diz apenas "cérebro mirim", que pode ser criança ou jovem, mas não exatamente pré-adolescente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. "Inventadas" até combina com "de sua lavra", mas "acessíveis a um juvenil" contradiz frontalmente o texto: as frases eram "inalcançáveis por meu cérebro mirim", ou seja, não acessíveis ao jovem. A alternativa inverte o sentido da segunda expressão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. "Públicas" é o oposto de "de sua lavra" (se são da lavra da avó, são privadas, autorais, não públicas). "Concebíveis por uma criança" também contradiz o texto: as frases eram "inalcançáveis" para o cérebro mirim, ou seja, não concebíveis pela criança. A alternativa inverte os dois sentidos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca um vocábulo crucial em cada distratora: "inapeláveis", "incomensuráveis", "acessíveis", "concebíveis" — todos parecem eruditos, mas nenhum é sinônimo de "inalcançáveis" no contexto. E "comuns"/"públicas" invertem o sentido de "de sua lavra".

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de vocabulário, teste cada expressão isoladamente e exija que a alternativa seja sinônimo direto do que está no texto. Desconfie de palavras bonitas que não estão no texto nem são sinônimas dele.

Conclusão: a resposta correta é a letra A, pois é a única que parafraseia fielmente as duas expressões: "de sua lavra" = autorais; "inalcançáveis por meu cérebro mirim" = ininteligíveis para um jovem. As demais ou trocam o sentido ou o invertem.

Gabarito: letra A

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