Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu206060
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2024
Cargo
Vest ( )
Para responder a questão, leia a fábula “O camelo e os troncos boiando” de La Fontaine.
Tal novidade era o Camelo,
Que o primeiro fugiu ao vê-lo;
O segundo aproximou-se; o terceiro, presto,
Pôs no Dromedário um cabresto.
Tudo se torna assim familiar com o hábito.
O que antes parecia assustador e insólito
Se acomoda à nossa visão
Quando já é repetição.
Aliás este caso do qual estamos falando
Lembra o das pessoas que, olhando
Longe no mar algo impreciso balançando,
Garantiram ter pela frente
Um navio todo imponente.
Mas momentos depois tornou-se aquilo um bote,
Ora foi balsa, ora caixote,
Sendo por fim troncos boiando.
Bem sei que a muitos, circulando,
Convém no mundo esta tirada:
De longe é alguma coisa, de perto não é nada.
(Jean de La Fontaine. Fábulas selecionadas, 2013.)
Tendo em vista as associações estabelecidas internamente na fábula, o “Dromedário”, mencionado no quarto verso, equivaleria
Aao imponente navio.
Bàs pessoas que observam o mar.
Caos troncos boiando.
Dao bote.
Eao caixote.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — aos troncos boiando.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O Dromedário e os troncos boiando: a associação interna da fábula
Gabarito: letra C. O “Dromedário” equivale aos troncos boiando porque ambos representam o mesmo papel na estrutura da fábula: são o elemento que, a princípio, causa estranhamento e depois se torna familiar. A passagem que ancora essa leitura é a sequência em que o camelo é visto pelo primeiro homem (que foge), pelo segundo (que se aproxima) e pelo terceiro (que o domina), seguida da moral: “Tudo se torna assim familiar com o hábito”. No segundo bloco, o mesmo movimento se repete com o objeto no mar: primeiro parece um navio imponente, depois bote, balsa, caixote e, por fim, troncos boiando — ou seja, o que era assustador e insólito se acomoda à visão quando vira repetição.
O comando: o que a banca pede
O enunciado pede uma associação interna — não uma definição de dicionário, nem uma interpretação livre. A tarefa é perceber que a fábula constrói duas situações paralelas: a do camelo (que os homens estranham e depois aceitam) e a do objeto no mar (que os observadores confundem e depois identificam). O “Dromedário” não é um termo isolado; ele participa de uma analogia que o autor explicita com o conectivo “Aliás”: “Aliás este caso do qual estamos falando / Lembra o das pessoas que, olhando / Longe no mar algo impreciso balançando”. Portanto, a resposta exige transferir o papel do camelo para o segundo exemplo.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
A fábula tem dois movimentos paralelos:
O camelo: o primeiro homem foge, o segundo se aproxima, o terceiro põe cabresto — a progressão mostra a familiarização com o novo.
O objeto no mar: as pessoas veem algo impreciso, acham que é um navio imponente, depois bote, balsa, caixote, e só no fim reconhecem troncos boiando.
A tese está na moral: “Tudo se torna assim familiar com o hábito” e, no fecho, “De longe é alguma coisa, de perto não é nada”. O Dromedário, no primeiro bloco, é o objeto da percepção que muda conforme a aproximação; os troncos boiando, no segundo bloco, cumprem exatamente essa função. A equivalência não é entre os nomes, mas entre os papéis narrativos.
A técnica: identificar o elemento que sofre a transformação
A pegadinha central é trocar o referente: a banca oferece elementos que aparecem no texto (navio, bote, caixote) como se fossem equivalentes ao Dromedário. Mas esses elementos são interpretações provisórias do objeto, não o objeto em si. O Dromedário é o animal que os homens veem; os troncos são o objeto que as pessoas veem. Ambos são o termo que permanece enquanto as percepções mudam. Veja a estrutura:
Elemento
Percepção inicial
Percepção final
Camelo/Dromedário
Assustador e insólito
Familiar (vira cabresto)
Objeto no mar
Navio imponente
Troncos boiando
A alternativa C é a única que mantém a identidade do objeto — os troncos são o que o objeto realmente é, assim como o Dromedário é o que o animal realmente é. As demais alternativas citam percepções equivocadas (navio, bote, caixote) ou sujeitos da percepção (as pessoas), que não correspondem ao papel do Dromedário.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
O “imponente navio” é a primeira impressão das pessoas: “Garantiram ter pela frente / Um navio todo imponente”. Mas o texto mostra que essa percepção é falsa — o objeto não é um navio. O Dromedário também não é uma impressão equivocada; ele é o animal real. A alternativa contradiz a progressão do texto, que desmonta a hipótese do navio.
Alternativa B — ❌ Incorreta
As “pessoas que observam o mar” são os sujeitos da percepção, não o objeto percebido. O Dromedário é o que os homens veem, não quem vê. A alternativa inverte a relação: troca o objeto pelo observador. O texto diz “as pessoas que, olhando / Longe no mar algo impreciso balançando” — elas são quem olha, não o que é olhado.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Os “troncos boiando” são a identidade final do objeto no mar: “Sendo por fim troncos boiando”. Assim como o Dromedário é o animal que, após a familiarização, deixa de assustar, os troncos são o objeto que, após a observação, deixa de ser confundido. A equivalência é estrutural: ambos são o elemento real que subjaz às percepções. O texto ancora isso com o paralelo explícito: “Aliás este caso do qual estamos falando / Lembra o das pessoas…” — o caso do camelo lembra o caso dos troncos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O “bote” é uma das interpretações intermediárias: “Ora foi balsa, ora caixote”. O texto não diz que o objeto é um bote; diz que as pessoas acharam que era. O Dromedário não é uma hipótese — é o animal concreto. A alternativa restringe o objeto a uma das falsas percepções, ignorando a progressão até os troncos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O “caixote” também é uma percepção provisória: “Ora foi balsa, ora caixote”. Assim como o bote, é uma das etapas da confusão, não a realidade final. O Dromedário não equivale a uma hipótese descartada; equivale ao objeto que permanece — os troncos. A alternativa tangencia o texto ao citar um elemento que aparece, mas sem a função correta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a troca de referente: oferece elementos que são percepções (navio, bote, caixote) como se fossem o objeto real. A chave é perceber que o Dromedário e os troncos ocupam o mesmo lugar na estrutura: são o que é visto, não o que se imagina ver.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de associação interna, pergunte: “qual elemento cumpre o mesmo papel narrativo?”. Não se prenda aos nomes — procure a função que cada um exerce na história.