Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
- Código
- vu206067
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- FAMEMA
- Ano
- 2024
- Cargo
- Vest ( )
- Alírico-amoroso.
- Bmístico-religioso.
- Csatírico.
- Dnostálgico.
- Esocial.
GabaritoE — social.
Gabarito: letra E. O poema "Congresso internacional do medo" é um exemplo clássico da poesia social de Carlos Drummond de Andrade, pois o eu lírico não canta o amor individual, mas o medo coletivo que atravessa toda a sociedade — dos sertões aos mares, dos soldados às mães, dos ditadores aos democratas. A passagem que ancora essa leitura é a enumeração dos medos que atingem diferentes grupos sociais:
"o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, / o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, / cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas"
O que decide a questão é perceber que o medo aqui não é uma emoção individual, mas um fenômeno social e político: ele "esteriliza os abraços" e é chamado de "nosso pai e nosso companheiro", ou seja, algo que une e define a experiência de uma época. A alternativa E é a única que capta essa dimensão coletiva e crítica.
A questão pede que você reconheça a natureza temática do poema — não uma análise gramatical, nem uma paráfrase, mas a classificação do gênero/tendência a que ele pertence. Isso exige uma leitura global: captar o tema (o medo), a tese (o medo domina a sociedade) e o tom (crítico, engajado). Não basta entender as palavras; é preciso perceber o propósito do autor ao escrever.
O poema abre com uma negação: "Provisoriamente não cantaremos o amor". Isso já indica uma escolha temática — o amor foi deixado de lado porque "se refugiou mais abaixo dos subterrâneos". Em seu lugar, o eu lírico anuncia o canto do medo, que é descrito como algo que "esteriliza os abraços" e que é "nosso pai e nosso companheiro". A partir daí, há uma enumeração dos medos que afetam diferentes esferas: geográficas (sertões, mares, desertos), sociais (soldados, mães, igrejas) e políticas (ditadores, democratas). O poema termina com uma imagem forte: "depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas".
O movimento é claro: o medo é apresentado como uma força que domina o indivíduo e a coletividade, paralisando a vida (esteriliza os abraços) e até a morte (as flores são "medrosas"). Essa visão crítica do medo como produto de um contexto social e político — provavelmente o período da Segunda Guerra Mundial e do autoritarismo — é a marca da poesia social de Drummond.
A armadilha central é confundir o tema aparente com o cunho real. O poema fala de medo, morte, ditadores — mas isso não o torna "místico" ou "nostálgico". O cunho social se caracteriza por:
Abordar questões coletivas (política, guerra, opressão) em vez de experiências individuais;
Crítica social implícita ou explícita;
Engajamento do eu lírico com o destino da comunidade.
No poema, o medo é coletivizado — não é o medo de um eu, mas o medo de "nós" ("nosso pai", "nossos túmulos"). Isso é típico da poesia social, que fala em nome do grupo.
Erro: tangenciar o tema. O poema até menciona o amor no primeiro verso, mas apenas para negá-lo ("não cantaremos o amor"). O foco é o medo, não o amor. A alternativa extrapola um elemento periférico e o transforma em tema central, ignorando o restante do poema.
Erro: contradizer o texto. Não há elementos místicos ou religiosos no poema. A menção a "igrejas" aparece apenas como um dos lugares onde o medo habita ("o medo das igrejas"), não como uma dimensão espiritual. A alternativa inventa uma característica que o texto não sustenta.
Erro: confundir crítica com sátira. O poema tem um tom crítico, mas não é satírico. A sátira ridiculariza algo ou alguém; aqui, o eu lírico denuncia o medo como condição coletiva, sem zombar de ninguém. A alternativa troca o conceito de crítica social por sátira.
Erro: tangenciar o tema. A palavra "nostálgico" remete a saudade do passado. O poema não expressa saudade; ele fala do presente dominado pelo medo. A alternativa extrapola um sentimento que não está no texto.
A única que capta a dimensão coletiva e crítica do poema. O medo é apresentado como um fenômeno que atinge toda a sociedade — "dos sertões, dos mares, dos desertos", "dos soldados, das mães, das igrejas", "dos ditadores, dos democratas". Essa abrangência social e a crítica implícita ao contexto político fazem do poema um exemplo de poesia social, característica marcante da obra de Drummond, especialmente em "Sentimento do mundo".
Ao identificar o cunho de um poema, pergunte: o eu lírico fala de uma experiência individual ou de uma condição coletiva? Se for coletiva e crítica, é social. Se for individual e sentimental, é lírico-amoroso. Se houver zombaria, é satírico.
Conclusão: A questão testa sua capacidade de ler o texto globalmente e reconhecer a intenção do autor. A alternativa E é a única que não extrapola, não contradiz e não tangencia o texto — ela sintetiza o que o poema realmente faz: cantar o medo como sintoma de uma sociedade.
Gabarito: letra E.
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