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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu206074
Banca
VUNESP
Órgão
FAMERP
Ano
2024
Cargo
Vest ( )

Estrugiram 1 os últimos foguetes de Santo Antônio; não tarda chegar a vez de S. João e de S. Pedro. [...] Indague quem quiser o motivo histórico deste foguetear os três santos, uso que herdamos dos nossos maiores; a realidade é que, não obstante o ceticismo do tempo, muita e muita dezena de anos há de correr, primeiro que o povo perca os seus antigos amores. Nestas noites abençoadas é que as crendices sãs abrem todas as velas. As consultas, as sortes, os ovos guardados em água, e outras sublimes ridicularias 2, ria-se delas quem quiser; eu vejo-as com respeito, com simpatia, e se alguma coisa me molestam é por eu não as saber já praticar. [...]

 

Os dias passam, e os meses, e os anos, e as situações políticas, e as gerações e os sentimentos, e as ideias. Cada olimpíada 3 traz nas mãos uma nova andaina 4 do tempo. [...]

 

Duas coisas, entretanto, perduram no meio da instabilidade universal: 1º a constância da polícia, que todos os anos declara editalmente ser proibido queimar fogos, por ocasião das festas de S. João e seus comensais; 2º a disposição do povo em desobedecer às ordens da polícia. A proibição não é simples vontade do chefe; é uma postura municipal de 1856. Anualmente aparece o mesmo edital, escrito com os mesmos termos; o chefe rubrica essa chapa inofensiva, que é impressa, lida e desrespeitada. Da tenacidade com que a polícia proíbe, e da teimosia com que o povo infringe a proibição, fica um resíduo comum: o trecho impresso e os fogos queimados.

 

(Machado de Assis. Notas semanais, 2008.)

 

1 estrugir: soar ou vibrar fortemente.

2 ridicularia: coisa mínima e sem importância; insignificância.

3 olimpíada: período de quatro anos.

4 andaina: veste.

Para responder à questão, leia o trecho de uma crônica de Machado de Assis, publicada originalmente em 16.06.1878.     De acordo com o cronista,
  1. Aas crendices do povo estão na iminência de se extinguirem.
  2. Ba teimosia do povo em desobedecer à polícia resiste à ação do tempo.
  3. Cas crendices do povo revelam-se imunes à ação do tempo.
  4. Do povo tem mostrado disposição em se adaptar às determinações da polícia.
  5. Enada há no mundo que escape à ação do tempo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a teimosia do povo em desobedecer à polícia resiste à ação do tempo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A teimosia do povo: a ideia central da crônica

Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que parafraseia fielmente a ideia central do texto: a teimosia do povo em desobedecer à polícia resiste à ação do tempo. O cronista afirma que, apesar de tudo mudar, "a disposição do povo em desobedecer às ordens da polícia" permanece, como se lê no 3º parágrafo. As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou o contradizem.

O comando pede uma questão de compreensão ("De acordo com o cronista"), ou seja, a resposta deve estar explícita no texto, não ser uma dedução pessoal. A tarefa é encontrar a paráfrase — a reescritura fiel — da ideia central. Para isso, é preciso identificar o tema (a permanência das tradições e a desobediência popular) e a tese (a constância da polícia em proibir e a teimosia do povo em desobedecer).

O texto de Machado de Assis desenvolve um contraste: de um lado, a passagem do tempo, que muda tudo ("Os dias passam, e os meses, e os anos, e as situações políticas, e as gerações e os sentimentos, e as ideias"); de outro, duas coisas que perduram: a proibição da polícia e a desobediência do povo. O trecho decisivo é:

"Duas coisas, entretanto, perduram no meio da instabilidade universal: 1º a constância da polícia, que todos os anos declara editalmente ser proibido queimar fogos...; 2º a disposição do povo em desobedecer às ordens da polícia."

A alternativa B capta exatamente essa segunda permanência: a teimosia do povo (a "disposição em desobedecer") resiste à ação do tempo ("perduram no meio da instabilidade universal"). É uma paráfrase direta, sem acréscimos.

A armadilha central da questão é a extrapolação: alternativas que parecem verdadeiras, mas que vão além do que o texto afirma. A banca adora oferecer uma generalização sedutora (como "nada há no mundo que escape à ação do tempo") que o leitor pode achar plausível, mas que o texto não sustenta. O método é sempre o mesmo: teste cada alternativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora?

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "as crendices do povo estão na iminência de se extinguirem". O texto diz o contrário: o cronista prevê que "muita e muita dezena de anos há de correr, primeiro que o povo perca os seus antigos amores" — ou seja, as crendices não estão prestes a acabar. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como visto, a alternativa parafraseia o trecho "a disposição do povo em desobedecer às ordens da polícia" e "perduram no meio da instabilidade universal". A teimosia (disposição em desobedecer) resiste à ação do tempo (perdura). É a única que se sustenta integralmente no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "as crendices do povo revelam-se imunes à ação do tempo". O texto diz que as crendices duram muito, mas não que são imunes — o cronista admite que um dia o povo pode perdê-las ("primeiro que o povo perca os seus antigos amores"). A palavra "imunes" é uma extrapolação: o texto não afirma que as crendices são eternas ou imutáveis.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o povo tem mostrado disposição em se adaptar às determinações da polícia". O texto diz exatamente o oposto: "a disposição do povo em desobedecer às ordens da polícia". A alternativa contradiz o texto ao trocar "desobedecer" por "se adaptar".

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "nada há no mundo que escape à ação do tempo". O texto, porém, apresenta duas exceções: a constância da polícia e a teimosia do povo, que perduram apesar da "instabilidade universal". A alternativa generaliza indevidamente, ignorando a ressalva central do texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tendência de generalizar. A letra E parece uma verdade filosófica, mas o texto afirma justamente que duas coisas escapam à ação do tempo. Desconfie de alternativas com palavras absolutas como "nada", "tudo", "sempre", "imunes".

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife no texto a passagem que sustenta a alternativa correta. Se a alternativa exigir que você "complete" o sentido com o que não está escrito, ela está errada.

Gabarito: letra B.

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