Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — VUNESP 2024
Português›Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
vu206088
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
1º AEM ( )
Não sou supersticioso. É claro que, se vou pela rua e vejo uma escada em meu caminho, não passo embaixo dela, não porque ache que dá azar, mas por temer que caia alguma coisa em minha cabeça. Do mesmo modo com relação ao número 13, de que os americanos têm tanto medo que muitos de seus edifícios não têm o décimo terceiro andar: pula do décimo segundo para o décimo quartod. E quando junta esse azarado número à sexta-feira, aí tem gente que nem sai de casa: sexta-feira treze!b Deus me livre e guarde! Pois eu não, estou pouco ligando. Bom, se puder tomar o avião na quinta-feira ou no sábado, prefiro. Mas não por superstição, é que não vou dar chance ao azarc...
Mas, como disse, supersticioso não sou. É verdade que algumas coisas me deixam grilado, como certas coincidências. Por exemplo, tenho observado que, toda vez que vou cruzar a rua fora do sinala, vem sempre alguém em sentido contrário e na minha exata direção! Que isso aconteça uma vez ou outra, tudo beme, mas todas as vezes deixa o cara cabreiro.
(Ferreira Gullar. Crônicas para jovens, 2014. Adaptado)
Leia um fragmento da crônica “Supersticioso, eu?”, de Ferreira Gullar, para responder à questão. A incoerência entre as atitudes do narrador e sua afirmação de que não é supersticioso é explicitada no trecho:
A“tenho observado que, toda vez que vou cruzar a rua fora do sinal”
B“aí tem gente que nem sai de casa: sexta-feira treze!”
C“Mas não por superstição, é que não vou dar chance ao azar...”
D“não têm o décimo terceiro andar: pula do décimo segundo para o décimo quarto”.
E“Que isso aconteça uma vez ou outra, tudo bem...”
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GabaritoC — “Mas não por superstição, é que não vou dar chance ao azar...”
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Coerência textual: a contradição entre o que se diz e o que se faz
Gabarito: letra C. A incoerência está no trecho em que o narrador, após afirmar que não é supersticioso, revela que evita o azar: "Mas não por superstição, é que não vou dar chance ao azar...". A contradição é explícita porque "não dar chance ao azar" é, na prática, uma atitude supersticiosa — o narrador nega a superstição, mas age como um supersticioso.
O comando pede que você identifique o trecho em que a incoerência entre a atitude do narrador e sua afirmação de não ser supersticioso fica explícita. Isso é uma questão de compreensão (o que o texto diz), não de inferência: a resposta está literalmente no texto, na passagem em que o narrador se contradiz. A incoerência, aqui, é um fator de coerência textual — a quebra da lógica interna entre a tese ("não sou supersticioso") e o comportamento relatado (evitar o azar).
O texto é uma crônica em que o narrador constrói uma tese: "Não sou supersticioso". Para sustentá-la, ele apresenta exemplos de comportamentos que, à primeira vista, pareceriam supersticiosos (não passar embaixo de escada, evitar o número 13, preferir não viajar na sexta-feira 13), mas sempre os justifica com explicações racionais: teme que caia algo na cabeça, não quer "dar chance ao azar". O problema é que essa última justificativa trai a tese: "não dar chance ao azar" é exatamente o que um supersticioso faz. A contradição está no próprio discurso do narrador, e é isso que a alternativa C captura.
A técnica para resolver é simples: localize a tese ("não sou supersticioso") e teste cada trecho perguntando: "este trecho contradiz a tese?" O trecho C é o único em que o narrador, ao tentar se explicar, revela uma atitude que nega sua afirmação inicial. As demais alternativas descrevem comportamentos ou observações que, embora relacionados ao tema, não explicitam a contradição — ou porque são apenas exemplos de situações (A, B, D) ou porque expressam uma ressalva que não chega a contradizer a tese (E).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a contradição interna do narrador. O trecho C parece uma justificativa racional, mas é justamente aí que mora a incoerência: "não dar chance ao azar" é uma atitude supersticiosa. As demais alternativas são distratoras porque descrevem comportamentos que o narrador explica racionalmente, sem se contradizer.
Coerência textual: Tese do narrador ("Não sou supersticioso"); Contradição explícita ("não vou dar chance ao azar"); Estratégia da banca (Justificativa racional que trai a tese, Distratores: comportamentos explicados racionalmente)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"tenho observado que, toda vez que vou cruzar a rua fora do sinal"
Este trecho descreve uma observação do narrador sobre uma coincidência (alguém sempre vem em sentido contrário). Não há contradição com a tese: o narrador apenas relata um fato que o deixa "grilado", mas não age de forma supersticiosa por causa disso. A alternativa tangencia o tema (fala de comportamento, mas não da incoerência).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"aí tem gente que nem sai de casa: sexta-feira treze!"
Aqui o narrador fala de outras pessoas ("tem gente"), não de si mesmo. Ele está criticando a superstição alheia, o que reforça sua tese de não ser supersticioso, em vez de contradizê-la. A alternativa inverte o sujeito: a incoerência seria do narrador, não de terceiros.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Mas não por superstição, é que não vou dar chance ao azar..."
O narrador nega a superstição ("não por superstição"), mas em seguida revela uma atitude tipicamente supersticiosa: "não vou dar chance ao azar". A contradição é explícita: se não fosse supersticioso, não se preocuparia em "dar chance ao azar". É exatamente o que o enunciado pede — a incoerência entre a atitude e a afirmação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"não têm o décimo terceiro andar: pula do décimo segundo para o décimo quarto"
Este trecho descreve o comportamento de americanos ("muitos de seus edifícios"), não do narrador. Novamente, é uma crítica à superstição alheia, que sustenta a tese do narrador. A alternativa tangencia o tema e não apresenta contradição.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Que isso aconteça uma vez ou outra, tudo bem..."
Este trecho expressa uma ressalva do narrador sobre a coincidência que o deixa "grilado". Ele admite que, se fosse raro, não o incomodaria. Não há contradição com a tese — é apenas uma ponderação sobre o incômodo. A alternativa não explicita a incoerência.
Conclusão: a incoerência está no trecho em que o narrador, ao tentar justificar racionalmente seu comportamento, revela uma atitude supersticiosa. Teste cada alternativa perguntando: "o trecho contradiz a tese 'não sou supersticioso'?" A única que faz isso é a C.