Questão de Português — Orações Coordenadas — VUNESP 2024
Português›Orações Coordenadas
Código
vu206119
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )
Duvido, logo existo
A frase do filósofo francês René Descartes que caiu no gosto popular, “Penso, logo existo”, não é a original. Está incompleta. Há um verbo invisível aí. Um verbo queganhou, hoje, quase quatro séculos depois, uma importância vital. Em tempos de inteligência artificial e fake news, não podemos descontextualizar Descartes. Dubito, ergo cogito, ergo sum. Duvido, logo penso, logo existo. Essa era a citação em 1637.
Na origem da nossa existência, está a dúvida. Mais que nunca. Não apague a dúvida inicial. Ela é a certeza absoluta na lógica cartesiana. É preciso duvidar. Pesquisar. Checar. Antes de ser cúmplice de uma grande enganação. Dá trabalho existir, mas vale a pena.
(Ruth de Aquino. Duvido, logo existo. O Globo, Segundo Caderno, 13.09.2024, p. 6. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão. Assinale a alternativa em que a frase apresentada é um período formado por orações que, do ponto de vista exclusivamente sintático, se comportam da mesma forma que as orações presentes na frase de Descartes.
A“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” (Lavoisier)
B‘Só sei que nada sei.” (Sócrates)
C“O que não provoca a minha morte faz com que eu fique mais forte.” (Nietzsche)
D“Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando ser descoberta.” (Carl Sagan)
E“Na vida, não existe nada a temer, mas a entender.” (Marie Curie)
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GabaritoA — “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” (Lavoisier)
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Orações coordenadas assindéticas: a estrutura de "Duvido, logo penso, logo existo"
Gabarito: letra A. A frase de Descartes, na versão completa citada no texto, é "Duvido, logo penso, logo existo" — um período composto por três orações coordenadas assindéticas (justapostas, sem conjunção), todas sintaticamente independentes. A alternativa A, de Lavoisier, reproduz exatamente essa estrutura: "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" — três orações justapostas, sem conectivo, cada uma com sujeito e predicado próprios. As demais alternativas apresentam períodos com subordinação (orações que exercem função sintática umas nas outras), o que as torna estruturalmente diferentes.
O comando pede que você identifique a alternativa em que as orações "se comportam da mesma forma" que as de Descartes do ponto de vista exclusivamente sintático. Isso significa: não importa o sentido, importa a relação de independência entre as orações. Na coordenação, as orações são independentes — uma não exerce função sintática na outra. Na subordinação, uma oração depende da outra, exercendo função de sujeito, objeto, adjunto etc. A banca quer que você reconheça o período composto por coordenação assindética.
No texto, a frase de Descartes aparece assim:
"Dubito, ergo cogito, ergo sum. Duvido, logo penso, logo existo."
A versão em português, "Duvido, logo penso, logo existo", tem três orações: Duvido / penso / existo. Elas estão apenas justapostas, separadas por vírgulas, sem nenhuma conjunção coordenativa (como e, mas, portanto). Cada uma tem sentido completo e estrutura sintática própria: sujeito elíptico (eu) + verbo. São, portanto, orações coordenadas assindéticas.
A técnica para resolver: conte os verbos e verifique se há conectivo. Se houver mais de um verbo e nenhuma conjunção ligando as orações, temos coordenação assindética. Se houver conjunção subordinativa (que, se, porque, quando, embora...) ou pronome relativo, temos subordinação. Na alternativa A, os verbos são cria, perde, transforma — três orações justapostas, sem conectivo. Perfeito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece períodos com orações subordinadas (B, C, D, E) para confundir quem não distingue coordenação de subordinação. A alternativa B, por exemplo, tem uma oração subordinada substantiva objetiva direta ("que nada sei"), o que a torna estruturalmente diferente da frase de Descartes.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."
Três orações: nada se cria / nada se perde / tudo se transforma. Não há conjunção entre elas — estão apenas justapostas, separadas por vírgulas. Cada uma tem sujeito (nada, nada, tudo) e predicado (se cria, se perde, se transforma), com total independência sintática. É exatamente a mesma estrutura de "Duvido, logo penso, logo existo": orações coordenadas assindéticas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Só sei que nada sei."
Duas orações: Só sei (oração principal) e que nada sei (oração subordinada substantiva objetiva direta, introduzida pela conjunção integrante que). A segunda oração exerce função de objeto direto do verbo sei — é dependente da principal. Estrutura de subordinação, não de coordenação. Erro: contradiz o texto (a estrutura é diferente da pedida).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"O que não provoca a minha morte faz com que eu fique mais forte."
Período com subordinação: "O que não provoca a minha morte" é oração subordinada adjetiva restritiva (introduzida pelo pronome relativo que); "faz com que eu fique mais forte" contém uma oração subordinada substantiva objetiva indireta ("que eu fique mais forte", introduzida pela conjunção integrante que, com a preposição com). Há dependência sintática entre as orações. Erro: contradiz o texto (estrutura subordinada, não coordenada).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando ser descoberta."
Período com subordinação: "ser descoberta" é uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo (equivale a "que seja descoberta"), funcionando como objeto direto de esperando. Há dependência sintática. Erro: contradiz o texto (estrutura subordinada).
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Na vida, não existe nada a temer, mas a entender."
Período com coordenação sindética adversativa: "não existe nada a temer" e "mas a entender" são orações coordenadas, mas há a conjunção adversativa *mas*, o que as torna sindéticas — diferente da frase de Descartes, que é assindética (sem conjunção). Além disso, "a temer" e "a entender" são orações reduzidas de infinitivo que funcionam como adjuntos adnominais, o que introduz subordinação. Erro: contradiz o texto (presença de conjunção e orações reduzidas).
Conclusão: a única alternativa que reproduz a estrutura de orações coordenadas assindéticas é a letra A. Para acertar, lembre-se: coordenação = independência sintática; subordinação = dependência sintática. Conte os verbos, verifique a presença de conectivos e classifique a relação.