Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu206124
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )
Profundamente
Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas?
– Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente.
Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa
Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente.
(Manuel Bandeira. Libertinagem. In: Estrela da Vida Inteira.
Introdução de Gilda e Antonio Candido Mello e Sousa. 16. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, p. 11-112)
Leia o poema a seguir para responder à questão. No poema, o eu lírico
Aaproxima a infância da velhice, afirmando a fragilidade de crianças e de idosos, acometidos pelo sono.
Bsupervaloriza a infância, época em que tudo era festa, e ele não se sentia surpreso e desapontado.
Csupervaloriza a maturidade, pois já conhece o destino de todos os envolvidos em suas memórias.
Drecorda em tom de saudade momentos festivos, que se contrapõem, no despertar, ao reconhecimento da solidão.
Eassocia o momento em que escreve do luto vivido pela criança, quando da morte de seus conhecidos/familiares.
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GabaritoD — recorda em tom de saudade momentos festivos, que se contrapõem, no despertar, ao reconhecimento da solidão.
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Interpretação do poema "Profundamente" — saudade e solidão
Gabarito: letra D. O eu lírico recorda, em tom de saudade, os momentos festivos da infância (fogueiras, cantigas, risos) e os contrapõe ao silêncio e à solidão do presente, quando todos os que ele amava estão "dormindo profundamente" — metáfora da morte. A passagem que ancora essa leitura é a pergunta retórica e a resposta final:
"Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo / Estão todos deitados / Dormindo / Profundamente."
A alternativa D é a única que sintetiza esse movimento de recordação nostálgica ("recorda em tom de saudade momentos festivos") e contraposição ("se contrapõem, no despertar, ao reconhecimento da solidão").
O comando e o método
O enunciado pede uma interpretação global do poema: "No poema, o eu lírico". Isso significa que a resposta deve captar a atitude do eu lírico diante das memórias e do presente — não um detalhe isolado, mas o sentido geral construído pelas imagens e pelo tom. Para resolver, é preciso:
Identificar o tema: a passagem do tempo e a perda das pessoas queridas.
Perceber a oposição entre o passado festivo (alegria, vozes, risos) e o presente silencioso (solidão, ausência).
Reconhecer a metáfora "dormir profundamente" como eufemismo para a morte.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O poema de Manuel Bandeira tem uma estrutura clara: na primeira parte, o eu lírico descreve a noite de São João de sua infância, com "alegria e rumor", "vozes cantigas e risos" ao pé das fogueiras. Em seguida, o despertar no meio da noite revela o silêncio: "Não ouvi mais vozes nem risos / Apenas balões / Passavam errantes / Silenciosamente". A pergunta "Onde estavam os que há pouco / Dançavam / Cantavam / E riam?" já anuncia a resposta que virá: "Estavam todos dormindo / Estavam todos deitados / Dormindo / Profundamente".
Na segunda parte, o eu lírico recorda a infância ("Quando eu tinha seis anos / Não pude ver o fim da festa de São João / Porque adormeci") e, no presente, já não ouve as vozes daquele tempo: "Minha avó / Meu avô / Totônio Rodrigues / Tomásia / Rosa". A pergunta se repete: "Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo / Estão todos deitados / Dormindo / Profundamente".
O movimento é claro: o passado é marcado pela festa, pela vida, pela presença; o presente, pela ausência, pelo silêncio, pela morte (disfarçada no eufemismo "dormir"). A saudade nasce exatamente dessa contraposição entre o que foi vivido e o que se perdeu.
A técnica que decide
A questão é de interpretação global: não se trata de localizar uma informação explícita, mas de depreender a atitude do eu lírico a partir das pistas textuais. A alternativa correta precisa:
Refletir o tom de saudade (presente nas recordações afetivas);
Refletir a contraposição entre o passado festivo e o presente de solidão (presente na estrutura do poema);
Não extrapolar nem restringir o que o texto diz.
A alternativa D cumpre exatamente esses requisitos. As demais ou extrapolam (A, B, C, E) ou contradizem o texto (B, C, E).
1Identificar o tema
2Perceber a oposição central
3Reconhecer a metáfora
4Sintetizar tom + contraposição
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"aproxima a infância da velhice, afirmando a fragilidade de crianças e de idosos, acometidos pelo sono."
Erro: extrapolação. O poema não fala de velhice nem de fragilidade de crianças e idosos. O eu lírico recorda a infância e o presente, mas não há nenhuma menção à velhice ou à fragilidade. O sono, no poema, é metáfora da morte, não uma condição física de crianças e idosos. A alternativa acrescenta informação que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"supervaloriza a infância, época em que tudo era festa, e ele não se sentia surpreso e desapontado."
Erro: contradiz o texto. O eu lírico não "supervaloriza" a infância nem diz que "tudo era festa". Ele recorda a festa de São João, mas também registra o despertar e o silêncio. Além disso, a afirmação de que "não se sentia surpreso e desapontado" contradiz a surpresa expressa na pergunta "Onde estavam os que há pouco / Dançavam / Cantavam / E riam?" — há clara estranheza diante do silêncio. A alternativa inverte o sentido do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"supervaloriza a maturidade, pois já conhece o destino de todos os envolvidos em suas memórias."
Erro: contradiz o texto e extrapola. O eu lírico não "supervaloriza a maturidade". Pelo contrário, a maturidade é o tempo da perda e da saudade. Além disso, o poema não diz que ele "conhece o destino" de todos — ele apenas constata que estão "dormindo profundamente", ou seja, mortos. A alternativa inverte o valor atribuído à maturidade e acrescenta uma ideia de conhecimento que não está no texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"recorda em tom de saudade momentos festivos, que se contrapõem, no despertar, ao reconhecimento da solidão."
Correta. A alternativa sintetiza com precisão o movimento do poema:
"recorda em tom de saudade momentos festivos": o eu lírico evoca a noite de São João com "alegria e rumor", "vozes cantigas e risos" — memória afetiva, nostálgica;
"que se contrapõem, no despertar, ao reconhecimento da solidão": o despertar revela o silêncio ("Não ouvi mais vozes nem risos") e a ausência dos entes queridos ("Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo").
A contraposição entre o passado festivo e o presente solitário é a espinha dorsal do poema, e a alternativa D a capta integralmente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"associa o momento em que escreve do luto vivido pela criança, quando da morte de seus conhecidos/familiares."
Erro: extrapolação e contradição. O poema não fala de "luto vivido pela criança". Na infância, o eu lírico apenas adormeceu e não viu o fim da festa — não há morte naquele momento. A morte aparece no presente, quando ele recorda os familiares já falecidos. A alternativa desloca o luto para a infância, o que o texto não autoriza, e acrescenta a ideia de "luto" que não está explícita.
Fechamento
A questão exige interpretação global: captar a atitude do eu lírico diante das memórias e do presente. A alternativa D é a única que reflete o tom de saudade e a contraposição entre o passado festivo e o presente de solidão, sem extrapolar ou contradizer o texto. As demais ou acrescentam informações (A, C, E) ou invertem o sentido (B, C).
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação de poema, identifique primeiro a oposição central (passado × presente, vida × morte, festa × solidão) e o tom (saudade, crítica, ironia). A alternativa correta quase sempre sintetiza esses dois elementos.