Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — VUNESP 2024
Português›Significação de Vocábulo e Expressões
Código
vu206127
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )
Quando criança, fui ensinada que a população negra havia sido escrava e ponto, como se não tivesse existido uma vida anterior nas regiões de onde essas pessoas foram tiradas à força. Disseram-me que a população negra era passiva e que “aceitou” a escravidão sem resistência. Também me contaram que a princesa Isabel havia sido sua grande redentora. No entanto, essa era a história contada do ponto de vista dos vencedores, como diz Walter Benjamin. O que não me contaram é que o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, perdurou por mais de um século, e que se organizaram vários levantes como forma de resistência à escravidão, como a Revolta dos Malês e a Revolta da Chibata. Com o tempo, aprendi que a população negra havia sido escravizada, e não era escrava – palavra que denota que essa seria uma condição natural, ocultando que esse grupo foi colocado ali pela ação de outrem.
(Djamila Ribeiro. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão. No texto, as palavras “escrava” e “escravizada” foram usadas para
Arelacionar atitudes: a população negra se mostrou passiva diante da escravidão por se recusar a lutar pela liberdade.
Bcontrapor pontos de vista: a escravidão não era inerente à população negra, mas uma condição que lhe foi imposta.
Ccontrastar situações: a população negra era livre na África, e se conformou à escravidão no Brasil contra a sua vontade.
Djustificar uma revisão histórica: nunca houve escravidão de fato no Brasil, o que exige repensar a história da população negra.
Edestacar uma contradição: a população negra não aceitou a escravidão, embora não tenha oferecido resistências contra ela.
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GabaritoB — contrapor pontos de vista: a escravidão não era inerente à população negra, mas uma condição que lhe foi imposta.
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Significação de vocábulos: “escrava” × “escravizada”
Gabarito: letra B. As palavras foram usadas para contrapor pontos de vista: o texto afirma que “escrava” denota uma condição natural, enquanto “escravizada” revela que essa condição foi imposta pela ação de outrem. A passagem decisiva é: “a população negra havia sido escravizada, e não era escrava – palavra que denota que essa seria uma condição natural, ocultando que esse grupo foi colocado ali pela ação de outrem”.
A questão pede que você identifique a função argumentativa do par de palavras no texto — não o sentido isolado de cada uma, mas o efeito de sentido que a autora constrói ao opô-las. Isso é típico de questões de significação de vocábulo no contexto: a resposta não está no dicionário, está na relação que o texto estabelece entre os termos.
O texto de Djamila Ribeiro tem uma tese clara: a história oficial (dos vencedores) apresentou a população negra como passiva e a escravidão como algo natural. A autora revisa essa narrativa ao mostrar resistências (Quilombo dos Palmares, Revolta dos Malês, Revolta da Chibata) e, sobretudo, ao corrigir a linguagem: dizer “escrava” naturaliza; dizer “escravizada” revela a ação de terceiros. É exatamente essa oposição semântica que a alternativa B captura.
A técnica para resolver: sublinhe no texto a frase em que os dois vocábulos aparecem juntos e pergunte “que relação o autor estabelece entre eles?”. O conectivo “e não era” (adversativo implícito) e o travessão explicativo (“palavra que denota…”) mostram que a autora contrapõe os dois termos para defender uma revisão de perspectiva. Toda alternativa que não reproduzir essa oposição — ou que acrescentar ideias de fora — estará errada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com fatos verdadeiros. As alternativas A, C e E usam informações reais (resistência, conformidade, passividade) que o texto menciona, mas distorcem a relação que a autora estabelece entre elas. A letra D é uma fuga ao tema absurda. A única que se limita ao que o texto diz é a B.
"Escrava" × "escravizada": Escrava (Condição natural, Oculta ação de outrem); Escravizada (Condição imposta, Revela ação de terceiros); Função no texto (Contrapor pontos de vista, Revisar narrativa histórica)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a população negra “se mostrou passiva diante da escravidão por se recusar a lutar pela liberdade”. O texto contradiz isso: a autora diz que lhe ensinaram que a população era passiva, mas ela rejeita essa versão ao citar as resistências. Veja o trecho:
“Disseram-me que a população negra era passiva e que ‘aceitou’ a escravidão sem resistência.”
A palavra “Disseram-me” indica que essa é a versão contestada, não a tese da autora. Além disso, a alternativa inverte a relação: o texto não diz que a passividade decorre da recusa em lutar; diz que a passividade é uma falsa narrativa. Erro: contradiz o texto.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa B diz que as palavras foram usadas para “contrapor pontos de vista: a escravidão não era inerente à população negra, mas uma condição que lhe foi imposta”. Isso é uma paráfrase fiel do trecho final:
“aprendi que a população negra havia sido escravizada, e não era escrava – palavra que denota que essa seria uma condição natural, ocultando que esse grupo foi colocado ali pela ação de outrem.”
A autora opõe “escrava” (condição natural) a “escravizada” (condição imposta). A alternativa B reproduz exatamente essa oposição: “não era inerente” = “não era condição natural”; “condição imposta” = “colocado ali pela ação de outrem”. É a única que não acrescenta nada ao texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que a população negra “era livre na África, e se conformou à escravidão no Brasil contra a sua vontade”. O texto não diz que a população se conformou; pelo contrário, cita resistências (Palmares, Malês, Chibata). Além disso, a ideia de “se conformou” contradiz a tese da autora, que valoriza a luta. Erro: extrapola (acrescenta a ideia de conformidade) e contradiz o texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que “nunca houve escravidão de fato no Brasil”. Isso é um absurdo e uma fuga ao tema: o texto reconhece a escravidão, apenas corrige a forma de nomeá-la. A autora não nega o fato histórico; ela critica a linguagem que o naturaliza. Erro: contradiz o texto e tangencia o assunto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E diz que a população negra “não aceitou a escravidão, embora não tenha oferecido resistências contra ela”. O texto contradiz a segunda parte: a autora cita várias resistências (Palmares, Malês, Chibata). A alternativa inverte a informação: o texto afirma que houve resistência, não que não houve. Erro: contradiz o texto.
Conclusão: a questão testa sua capacidade de identificar a função argumentativa de um par de palavras no contexto. A resposta correta é a letra B, pois é a única que reproduz a oposição que a autora estabelece entre “escrava” (condição natural) e “escravizada” (condição imposta). As demais ou contradizem o texto, ou extrapolam com fatos verdadeiros, ou fogem ao tema.
PEGA ESSA DICA!
Quando a questão perguntar “para que foram usadas as palavras”, procure no texto a relação entre elas (oposição, causa, consequência) e desconfie de alternativas que tragam informações que o texto não afirma, mesmo que sejam verdadeiras no mundo real.