Questão de Português — Linguagem Formal e Informal — VUNESP 2024
Português›Linguagem Formal e Informal
Código
vu206134
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )
Somos um feixe variado de normas divergentes, e não apenas em termos de sotaque, elemento mais costumeiramente evocado para tratar da diversidade de normas regionais. Um bom exemplo: embora quase todo o país empregue o pronome você (já passou da hora de a gente assumir que é um pronome), ainda há grandes bolsões de uso de tu, com ou sem flexão do verbo na segunda pessoa. Dizemos você fez, tu fez, tu fizeste (e também tu fizesse, como no litoral catarinense). [...]
O que dizer do fato de que a minha norma, por exemplo, diferencia graus de formalidade entre construções como “Você me trouxe o seu livro” (engravatada) e “Você me trouxe o teu livro” (de pijama)? [...] A minha geração de curitibanos lida não com um “erro” de concordância, mas com uma delicada regra de aplicação variável e determinação contextual. E isso, cara leitora, caro leitor, também é gramática.
(Caetano Galindo. Latim em pó. Um passeio pela formação
do nosso português. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, pp. 202-203)
Leia o texto a seguir para responder à questão. Considerando o ponto de vista defendido no texto, assinale a alternativa em que o par de sentenças pode ser tomado como um exemplo da variação entre norma “engravatada” e norma “de pijama”, respectivamente.
APodemos viajar nas férias. / Nós podemos viajar nas férias.
BMe abrace. / Me dê um abraço.
COntem jantamos cedo. / Jantamos cedo ontem.
DAs crianças adoram biscoito. / As crianças amam bolacha.
EIrei ao cinema amanhã. / Vou ir no cinema amanhã.
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GabaritoE — Irei ao cinema amanhã. / Vou ir no cinema amanhã.
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Gabarito: letra E. A alternativa E é a única em que o par de sentenças representa, respectivamente, a norma “engravatada” (formal) e a norma “de pijama” (informal), conforme a distinção proposta no texto: “Você me trouxe o seu livro” (engravatada) e “Você me trouxe o teu livro” (de pijama). A passagem do texto que ancora essa leitura é a que diferencia graus de formalidade entre construções equivalentes, mostrando que a variação não é erro, mas uma “delicada regra de aplicação variável e determinação contextual”.
O comando pede que você identifique, com base no ponto de vista defendido no texto, um par de sentenças que exemplifique a variação entre a norma “engravatada” e a norma “de pijama”. Isso é uma questão de compreensão (a informação está explícita no texto) e de aplicação do conceito a novos exemplos. O texto não define “engravatada” e “de pijama” como sinônimos de “certo” e “errado”, mas como registros diferentes de formalidade: a primeira é mais cerimoniosa, a segunda é mais coloquial, ambas legítimas.
A técnica para resolver é: teste cada par perguntando se a primeira sentença é claramente mais formal que a segunda, e se a diferença entre elas é de registro (situação comunicativa), não de sentido ou de ordem de palavras. O texto usa como exemplo a troca de “seu” por “teu” — uma diferença de pronome de tratamento que marca formalidade. A alternativa E repete esse padrão: “Irei ao cinema amanhã” (futuro do presente, mais formal) versus “Vou ir no cinema amanhã” (locução verbal com “ir” + “no”, mais coloquial). As demais alternativas ou invertem a ordem (A, C), ou trocam o nível de formalidade de forma não equivalente (B, D), ou não apresentam diferença de registro (D).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre variação de registro (formal × informal) e variação de ordem (A, C) ou de vocabulário (D). A alternativa E é a única que mantém o mesmo conteúdo semântico e altera apenas o grau de formalidade, como no exemplo do texto.
Variação diafásica
1Norma "engravatada" (formal)
Futuro do presente ("irei")
"Você me trouxe o seu livro"
2Norma "de pijama" (informal)
Locução verbal ("vou ir")
"Você me trouxe o teu livro"
3O que NÃO caracteriza
Ordem dos termos (A, C)
Escolha lexical sem mudança de tom (D)
Mesmo registro (B)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
“Podemos viajar nas férias.” / “Nós podemos viajar nas férias.”
Aqui a diferença é apenas a explicitação do sujeito (“Nós”). Ambas as sentenças têm o mesmo registro de formalidade — não há uma mais “engravatada” que a outra. O texto fala de graus de formalidade entre construções equivalentes, não de redundância sintática. Erro: troca de conceito — confunde variação de registro com variação de estrutura sem mudança de tom.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“Me abrace.” / “Me dê um abraço.”
A primeira é informal (colocação pronominal proclítica em início de frase, comum na fala), mas a segunda também é informal (“Me dê” em vez de “Dê-me”). Nenhuma das duas é “engravatada”. O par não representa a oposição formal × informal; ambas são coloquiais. Erro: contradiz o texto — o texto exige um contraste de formalidade, e aqui não há contraste.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“Ontem jantamos cedo.” / “Jantamos cedo ontem.”
A diferença é apenas a ordem dos adjuntos adverbiais (“Ontem” no início ou no fim). O registro é o mesmo nas duas — não há mudança de formalidade. O texto trata de variação de registro, não de ordenação de termos. Erro: troca de conceito — confunde variação diafásica com variação de ordem sintática sem efeito de tom.
Aqui há troca de vocabulário (“adoram” por “amam”, “biscoito” por “bolacha”), mas não há diferença de formalidade: ambas as sentenças são igualmente neutras ou informais. O texto fala de graus de formalidade, não de escolha lexical sem mudança de registro. Erro: fora do escopo — tangencia o tema, mas não exemplifica a oposição pedida.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“Irei ao cinema amanhã.” / “Vou ir no cinema amanhã.”
A primeira usa o futuro do presente (“irei”), construção mais formal e típica da norma “engravatada”. A segunda usa a locução verbal “vou ir” com a preposição “no” (em + o), construção mais coloquial, típica da norma “de pijama”. O par mantém o mesmo conteúdo semântico e varia apenas o registro de formalidade, exatamente como o exemplo do texto: “Você me trouxe o seu livro” (engravatada) versus “Você me trouxe o teu livro” (de pijama). Correta: aplica o conceito de variação diafásica ao par de sentenças.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar variação de registro, pergunte: “as duas frases dizem a mesma coisa, mas uma soa mais cerimoniosa que a outra?”. Se a diferença for só de ordem ou de sinônimo sem mudança de tom, não é o que o texto pede.
Gabarito: letra E. A questão cobra a aplicação do conceito de variação diafásica (situacional) — a mesma ideia defendida no texto de que a língua se ajusta ao contexto de formalidade, sem que isso configure erro. A alternativa E é a única que reproduz esse contraste de registro.