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Questão de Português — Conjunção — VUNESP 2024

PortuguêsConjunção
Código
vu206135
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )

“POSTO QUE É CHAMA”:
VINICIUS BEBEU?


Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja eterno enquanto dure.


É provável que o poeta Vinicius de Moraes tivesse, sim, tomado algumas doses de “cachorro engarrafado” – isto é, de uísque, que ele chamava de “o melhor amigo do homem” – quando escreveu sua obra-prima “Soneto de fidelidade”, que termina com os versos acima.


[...] Vinicius contrariou frontalmente a gramática tradicional com seu uso de posto que como conjunção explicativa (ou causal, dependendo do autor). O sentido dos versos é claro: o amor não é imortal, visto que é chama, isto é, por ser chama, mas o poeta deseja que, enquanto durar, tenha brilho infinito.


Só que Vinicius optou por não usar o visto que, que, além de caber na métrica, agradaria aos conservadores da língua. Foi mesmo de posto que, uma locução conjuntiva controversa.


Os gramáticos tradicionais atribuem a posto que valor exclusivamente concessivo, o mesmo de embora, como na seguinte frase: “Gosto dele, posto que seja meio antipático”. Para eles, qualquer uso diferente é erro e pronto.


O português brasileiro ignora há muitas décadas essa análise e insiste em empregar posto que com papel explicativo. Isso não se dá por ignorância, ou não só por ignorância: encontra acolhida entre falantes cultos e parece se basear numa análise alternativa da expressão. Regras mudam.


Deliberadamente ou não, Vinicius de Moraes, um dos mestres do português brasileiro, tomou o partido da língua viva – o que no caso dele faz o maior sentido – e deu ao pessoal da linha dura uma dor de cabeça infinita (enquanto durar) [...].


(Sérgio Rodrigues. “Posto que é chama”:

Vinicius bebeu? Viva a língua brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p.148-149)

Leia o texto a seguir para responder à questão.   Assinale a alternativa que apresenta corretamente as ideias do texto.
  1. AO uso de “posto que” com valor explicativo ou causal é comum entre falantes com alto nível de escolarização, embora esse uso não esteja previsto nos manuais de gramática mais conservadores.
  2. BO valor explicativo de “posto que” deveria ser levado em conta pelas gramáticas tradicionais, que se limitam a apresentar essa locução conjuntiva como tendo um valor causativo ou concessivo.
  3. CAssim como muitos falantes da língua, Vinicius de Moraes empregou o “posto que” da forma como vemos essa locução ser usada na fala informal e espontânea, que não dispõe de conjunções com valor concessivo.
  4. DDevemos evitar o uso de “posto que” com um valor que não seja o definido nas gramáticas tradicionais, a não ser que seja para criar uma imagem poética, como vemos no Soneto da Fidelidade.
  5. EA atribuição de um valor explicativo ou causal para “posto que” revela que mesmo os falantes mais cultos do português ignoram como as locuções conjuntivas da língua devem ser usadas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — O uso de “posto que” com valor explicativo ou causal é comum entre falantes com alto nível de escolarização, embora esse uso não esteja previsto nos manuais de gramática mais conservadores.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor de "posto que" no texto de Sérgio Rodrigues

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que parafraseia fielmente a tese central do texto: o uso de "posto que" com valor explicativo/causal é comum entre falantes cultos, embora não esteja previsto nas gramáticas tradicionais. Como se lê no 4º parágrafo: "O português brasileiro ignora há muitas décadas essa análise e insiste em empregar posto que com papel explicativo. Isso não se dá por ignorância, ou não só por ignorância: encontra acolhida entre falantes cultos e parece se basear numa análise alternativa da expressão." A alternativa A condensa exatamente isso: uso comum entre escolarizados + ausência nos manuais conservadores.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede "as ideias do texto" — ou seja, compreensão/recorrência: a resposta deve estar explícita no texto, apenas reescrita com outras palavras (paráfrase). Não se trata de deduzir, nem de completar com conhecimento de mundo. Portanto, cada alternativa deve ser testada perguntando: o texto afirma isto? Se a alternativa acrescenta algo que o texto não diz, ou inverte o que ele diz, está errada.

O texto: tese e movimento argumentativo

O texto de Sérgio Rodrigues discute o uso de "posto que" por Vinicius de Moraes no "Soneto de fidelidade". O autor explica que, na gramática tradicional, "posto que" tem valor concessivo (equivalente a "embora"), mas que o poeta o empregou com valor explicativo/causal (equivalente a "visto que"). A tese central é que esse uso não é ignorância: ele é acolhido por falantes cultos e representa uma análise alternativa da língua, ou seja, a língua viva supera a norma conservadora. O autor toma partido da "língua viva" e critica os "conservadores" e a "linha dura".

A técnica que decide: ancorar cada alternativa no texto

A armadilha central é a troca de valor semântico: a banca sabe que o candidato pode confundir o valor concessivo (tradicional) com o explicativo (usado no texto). Por isso, é preciso identificar qual valor o texto defende e qual é a posição do autor (favorável ao uso explicativo). Além disso, várias alternativas extrapolam ou acrescentam opiniões que o autor não emitiu. O método: sublinhe no texto as passagens que falam do uso entre falantes cultos, da não previsão nas gramáticas e da posição do autor. Depois, compare cada alternativa com essas passagens.

1Gramática tradicional
Valor concessivo (embora)
Uso exclusivo
2Uso defendido pelo autor
Valor explicativo/causal (visto que)
Acolhido por falantes cultos
Análise alternativa da língua
3Posição do autor
Toma partido da língua viva
Critica conservadores
"Posto que" no texto
LEVELsoulevel.com.br
"Posto que" no texto: Gramática tradicional (Valor concessivo (embora), Uso exclusivo); Uso defendido pelo autor (Valor explicativo/causal (visto que), Acolhido por falantes cultos, Análise alternativa da língua); Posição do autor (Toma partido da língua viva, Critica conservadores)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que o uso de "posto que" com valor explicativo/causal é comum entre falantes com alto nível de escolarização, embora não esteja previsto nos manuais de gramática mais conservadores. Isso está literalmente no texto:

"O português brasileiro ignora há muitas décadas essa análise e insiste em empregar posto que com papel explicativo. Isso não se dá por ignorância, ou não só por ignorância: encontra acolhida entre falantes cultos e parece se basear numa análise alternativa da expressão."

E também:

"Os gramáticos tradicionais atribuem a posto que valor exclusivamente concessivo, o mesmo de embora... Para eles, qualquer uso diferente é erro e pronto."

A alternativa A é uma paráfrase perfeita: "falantes com alto nível de escolarização" = "falantes cultos"; "não está previsto nos manuais de gramática mais conservadores" = "os gramáticos tradicionais atribuem valor exclusivamente concessivo". Nada foi acrescentado nem suprimido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que "o valor explicativo de 'posto que' deveria ser levado em conta pelas gramáticas tradicionais". O texto não defende que as gramáticas devam mudar; ele apenas constata que o uso existe e é acolhido por falantes cultos. O autor não faz uma recomendação normativa. Isso é extrapolação: acrescenta um juízo de dever ("deveria") que não está no texto. Além disso, a alternativa B erra ao dizer que as gramáticas apresentam a locução como tendo valor "causativo ou concessivo" — o texto diz que os gramáticos atribuem valor exclusivamente concessivo (não causativo). Portanto, há também troca de conceito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que Vinicius usou "posto que" como na "fala informal e espontânea, que não dispõe de conjunções com valor concessivo". O texto não diz que a fala informal não dispõe de conjunções concessivas — isso é extrapolação. Além disso, o texto afirma que o uso explicativo "encontra acolhida entre falantes cultos", ou seja, não é restrito à fala informal. A alternativa C também restringe o alcance do uso a um registro informal, o que contradiz o texto. Erro: generalização indevida (restringe com "informal").

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que "devemos evitar o uso de 'posto que' com um valor que não seja o definido nas gramáticas tradicionais, a não ser que seja para criar uma imagem poética". Isso contradiz frontalmente o texto, que defende o uso explicativo como legítimo e toma partido da "língua viva". O autor não recomenda evitar o uso; pelo contrário, elogia Vinicius por "tomar o partido da língua viva". A alternativa D também acrescenta opinião ("devemos evitar") e restringe a exceção à poesia, o que não está no texto. Erro: contradiz o texto e extrapola.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que o uso explicativo "revela que mesmo os falantes mais cultos do português ignoram como as locuções conjuntivas da língua devem ser usadas". O texto diz exatamente o oposto: "Isso não se dá por ignorância, ou não só por ignorância: encontra acolhida entre falantes cultos e parece se basear numa análise alternativa da expressão." Portanto, a alternativa E contradiz o texto ao atribuir ignorância aos falantes cultos. Além disso, o texto não diz que eles "ignoram como devem ser usadas" — pelo contrário, sugere uma análise alternativa. Erro: contradiz o texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o valor concessivo tradicional de "posto que" (embora) e o valor explicativo/causal defendido no texto (visto que). Alternativas como B, C e D misturam os dois valores ou acrescentam juízos de valor ("deveria", "devemos evitar") que o autor não emitiu. Fique atento: o texto defende o uso explicativo, então qualquer alternativa que o condene ou o trate como ignorância está errada.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife as passagens que expressam a tese do autor (geralmente em parágrafos de opinião). Aqui, a tese está no 4º parágrafo: "encontra acolhida entre falantes cultos". Toda alternativa que contradisser essa tese estará errada.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra A, pois parafraseia com precisão a tese central: uso explicativo/causal comum entre cultos, mas não previsto nas gramáticas conservadoras. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou restringem indevidamente o que o texto afirma.

Gabarito: letra A

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