Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2024
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Código
vu206136
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )
“POSTO QUE É CHAMA”: VINICIUS BEBEU?
Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja eterno enquanto dure.
É provável que o poeta Vinicius de Moraes tivesse, sim, tomado algumas doses de “cachorro engarrafado” – isto é, de uísque, que ele chamava de “o melhor amigo do homem” – quando escreveu sua obra-prima “Soneto de fidelidade”, que termina com os versos acima.
[...] Vinicius contrariou frontalmente a gramática tradicional com seu uso de posto que como conjunção explicativa (ou causal, dependendo do autor). O sentido dos versos é claro: o amor não é imortal, visto que é chama, isto é, por ser chama, mas o poeta deseja que, enquanto durar, tenha brilho infinito.
Só que Vinicius optou por não usar o visto que, que, além de caber na métrica, agradaria aos conservadores da língua. Foi mesmo de posto que, uma locução conjuntiva controversa.
Os gramáticos tradicionais atribuem a posto que valor exclusivamente concessivo, o mesmo de embora, como na seguinte frase: “Gosto dele, posto que seja meio antipático”. Para eles, qualquer uso diferente é erro e pronto.
O português brasileiro ignora há muitas décadas essa análise e insiste em empregar posto que com papel explicativo. Isso não se dá por ignorância, ou não só por ignorância: encontra acolhida entre falantes cultos e parece se basear numa análise alternativa da expressão. Regras mudam.
Deliberadamente ou não, Vinicius de Moraes, um dos mestres do português brasileiro, tomou o partido da língua viva – o que no caso dele faz o maior sentido – e deu ao pessoal da linha dura uma dor de cabeça infinita (enquanto durar) [...].
(Sérgio Rodrigues. “Posto que é chama”:
Vinicius bebeu? Viva a língua brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p.148-149)
Leia o texto a seguir para responder à questão. Assinale a alternativa na qual, de acordo com o texto, o uso de “posto que” segue o que está previsto nas gramáticas tradicionais.
AO mundo seria melhor, posto que as pessoas fossem mais generosas.
BO meu time jogou tão mal, posto que perdeu para o time adversário.
CFui aprovado no concurso, posto que tivesse estudado muito pouco.
DPratiquei atividades físicas o dia inteiro, posto que fiquei cansado.
EAs ruas da cidade ficaram alagadas, posto que choveu demais.
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GabaritoC — Fui aprovado no concurso, posto que tivesse estudado muito pouco.
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O valor de “posto que” nas gramáticas tradicionais
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que “posto que” tem valor concessivo, o mesmo de embora — exatamente o que as gramáticas tradicionais preveem, como se lê no texto: “Os gramáticos tradicionais atribuem a posto que valor exclusivamente concessivo, o mesmo de embora”. Na frase “Fui aprovado no concurso, posto que tivesse estudado muito pouco”, a aprovação ocorre apesar de ter estudado pouco — há uma concessão, uma quebra de expectativa. As demais alternativas empregam a locução com valor explicativo/causal (o mesmo uso de visto que), que é justamente o uso que o texto diz que o português brasileiro adota, mas que contraria a gramática tradicional.
O comando
A questão pede que você identifique, de acordo com o texto, qual frase usa “posto que” conforme a gramática tradicional. Isso não é uma questão de “o que soa bem” ou “o que é mais comum” — é uma questão de localizar no texto qual valor a gramática tradicional atribui à locução e, depois, testar cada alternativa para ver qual frase expressa exatamente esse valor. O texto é a fonte da regra; as alternativas são o campo de aplicação.
O texto
O texto de Sérgio Rodrigues discute o uso de “posto que” por Vinicius de Moraes no “Soneto de fidelidade”. O ponto central é a divergência entre a norma tradicional e o uso real:
A gramática tradicional atribui a “posto que” valor exclusivamente concessivo, o mesmo de embora.
O português brasileiro insiste em empregar “posto que” com papel explicativo (causal), como visto que.
O autor não toma partido explícito, mas descreve a tensão: Vinicius usou a forma “errada” para os conservadores, mas “encontra acolhida entre falantes cultos”. A questão, porém, não pede sua opinião — pede o que as gramáticas tradicionais preveem.
A técnica que decide
A chave é identificar o valor semântico da locução em cada alternativa e compará-lo com o valor que o texto atribui à gramática tradicional. Para isso, você precisa dominar a diferença entre:
Concessiva: expressa uma quebra de expectativa — o fato da oração principal acontece apesar de algo. Ex.: “Fui aprovado, posto que tivesse estudado pouco” (aprovou-se mesmo tendo estudado pouco).
Explicativa/Causal: expressa uma causa ou explicação — o fato da oração principal acontece porque algo. Ex.: “Fui aprovado, posto que estudei muito” (aprovou-se porque estudou).
A pegadinha da banca é que todas as alternativas parecem plausíveis se você não prestar atenção no valor. A banca adora explorar a confusão entre concessão e causa, oferecendo frases em que a locução poderia ser lida de duas formas. O teste é: a oração introduzida por “posto que” expressa uma causa ou uma ressalva?
Análise das alternativas
"Posto que" (gramática tradicional)
1Valor concessivo (embora)
Quebra de expectativa
Aprovação apesar de pouco estudo
2Valor explicativo/causal (visto que)
Uso do português brasileiro
Contraria a norma tradicional
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Alternativa A — ❌ Incorreta
“O mundo seria melhor, posto que as pessoas fossem mais generosas.”
Aqui, “posto que” introduz uma condição (se as pessoas fossem mais generosas), não uma concessão. A gramática tradicional não atribui valor condicional a “posto que”. O texto não menciona esse uso. Erro: extrapolação — atribui à locução um valor que o texto não prevê.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“O meu time jogou tão mal, posto que perdeu para o time adversário.”
Aqui, “posto que” introduz uma explicação/causa (perdeu porque jogou mal). Esse é o uso que o texto diz que o português brasileiro adota, mas que contraria a gramática tradicional. Erro: contradiz o texto — usa o valor que o texto explicitamente diz que a gramática tradicional rejeita.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“Fui aprovado no concurso, posto que tivesse estudado muito pouco.”
Aqui, “posto que” introduz uma concessão: a aprovação ocorreu apesar de ter estudado pouco. Há uma quebra de expectativa — espera-se que quem estuda pouco não passe, mas passou. Esse é exatamente o valor que o texto atribui à gramática tradicional: “Os gramáticos tradicionais atribuem a posto que valor exclusivamente concessivo, o mesmo de embora”. A frase poderia ser reescrita como “Fui aprovado, embora tivesse estudado muito pouco” — o sentido é idêntico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“Pratiquei atividades físicas o dia inteiro, posto que fiquei cansado.”
Aqui, “posto que” introduz uma explicação/causa (fiquei cansado porque pratiquei atividades). Novamente, é o uso explicativo que o texto diz que o português brasileiro adota, mas que contraria a gramática tradicional. Erro: contradiz o texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
“As ruas da cidade ficaram alagadas, posto que choveu demais.”
Aqui, “posto que” introduz uma explicação/causa (as ruas alagaram porque choveu). Mesmo erro das alternativas B e D: uso explicativo, não concessivo. Erro: contradiz o texto.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de aplicar a regra do texto a novas frases. A gramática tradicional só admite “posto que” com valor concessivo (equivalente a embora). A única alternativa que expressa uma quebra de expectativa é a C. As demais usam a locução com valor explicativo/causal, que o texto diz ser o uso do português brasileiro, mas que contraria a norma tradicional.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece quatro frases com valor explicativo/causal (o uso comum no Brasil) e apenas uma com valor concessivo. A tentação é marcar a primeira que “soa natural” — mas a questão pede o que a gramática tradicional prevê, não o que é mais comum.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar “posto que”, pergunte: “a oração seguinte explica o porquê ou apresenta uma ressalva?”. Se explica, é causal; se ressalva, é concessiva. A gramática tradicional só aceita a segunda.