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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu206142
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
2º AEM ( )

À CIDADE DA BAHIA


A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha
E podem governar o mundo inteiro.


Em cada porta um bem frequente olheiro
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha
Para o levar à praça e ao terreiro.


Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia1,


Estupendas usuras2 nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia3.


(Gregório de Matos. Seleção de Obras

Poéticas. Domínio Público.https://cutt.ly/EJ6AtFH. Acesso em 02.08.2024. Adaptado)

 

Glossário:
1 picardia: ação daquele que engana, logra.
2 usura: ambição excessiva (por dinheiro ou outro tipo de poder)
3 Cidade da Bahia: Salvador (BA), capital do Brasil à época do poema.

Leia o texto a seguir.   A leitura do poema de Gregório de Matos, do Barroco do século XVII baiano, permite concluir que o eu lírico
  1. Aendereça sua crítica aos mulatos, mercadores e fofoqueiros, poupando, neste poema satírico, os fidalgos portugueses.
  2. Butiliza da convenção da sátira barroca em relação à cidade de Salvador, evocando sua gente como incompetente, desonesta, ambiciosa e bisbilhoteira.
  3. Cfaz uma sátira em que ataca os vícios e os viciosos, incluindo-se nela, já que conhecia muito bem a cidade da Bahia, onde vivia.
  4. Devoca o período colonial brasileiro e as crises moral e econômica da época, as quais nada têm a ver com o tempo em que o poema foi escrito.
  5. Etraz à cena personagens e valores da sociedade portuguesa antiga, que nada têm a ver com a colonização do Brasil.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — utiliza da convenção da sátira barroca em relação à cidade de Salvador, evocando sua gente como incompetente, desonesta, ambiciosa e bisbilhoteira.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A sátira barroca de Gregório de Matos: crítica à cidade da Bahia

Gabarito: letra B. O eu lírico utiliza a convenção da sátira barroca para criticar a cidade de Salvador, retratando seus habitantes como incompetentes, desonestos, ambiciosos e bisbilhoteiros — exatamente o que se lê nas estrofes: os "conselheiros" que "não sabem governar sua cozinha", os "olheiros" que "pesquisam, escutam, espreitam e esquadrinham" a vida alheia, os "mulatos desavergonhados" que pisam nos nobres, as "usuras nos mercados" e a conclusão de que "todos os que não furtam muito pobres". A alternativa B é a única que sintetiza fielmente essa crítica generalizada.

O comando: o que a banca pede

O enunciado pede uma conclusão a partir da leitura do poema — ou seja, uma inferência ancorada no texto, não uma mera localização de informação explícita. A banca quer que você perceba o movimento satírico do eu lírico: ele não descreve a cidade, ele a condena por meio da ironia e do exagero. Por isso, a alternativa correta precisa captar o tom crítico e o alvo da crítica, e não apenas repetir palavras do poema.

O texto: tema, tese e argumentos

O poema "À cidade da Bahia" é uma sátira típica do Barroco: o eu lírico enumera os vícios da sociedade soteropolitana do século XVII. Veja a estrutura:

  • 1ª estrofe: critica os "conselheiros" que querem governar tudo, mas não sabem governar nem a própria casa ("Não sabem governar sua cozinha / E podem governar o mundo inteiro").

  • 2ª estrofe: ataca os "olheiros" — os bisbilhoteiros que "pesquisam, escutam, espreitam e esquadrinham" a vida alheia para levar à praça.

  • 3ª estrofe: denuncia os "mulatos desavergonhados" que pisam nos nobres e a "picardia" (enganação).

  • 4ª estrofe: aponta as "usuras" (ambição excessiva) nos mercados e a miséria dos que não roubam.

A tese do poema é a condenação moral da cidade: todos os grupos sociais são corrompidos. O eu lírico não poupa ninguém — nem os nobres, nem os mulatos, nem os mercadores.

A técnica que decide: sátira barroca e seus alvos

A sátira barroca é um gênero que ridiculariza vícios humanos e sociais, com tom amargo e pessimista. Gregório de Matos, o "Boca do Inferno", é seu maior representante no Brasil. A questão testa se você reconhece:

  1. O alvo da crítica — não é um grupo específico, mas a cidade inteira ("E eis aqui a cidade da Bahia").

  2. Os vícios apontados — incompetência ("não sabem governar sua cozinha"), bisbilhotice ("espreita e esquadrinha"), desonestidade ("picardia", "usuras"), ambição ("usuras").

  3. A convenção satírica — o eu lírico usa o exagero e a ironia para condenar, não para elogiar.

A alternativa B é a única que reúne esses três elementos: convenção satírica + cidade de Salvador + vícios específicos.

Análise das alternativas

1Alvo
Cidade de Salvador (todos os grupos)
2Vícios apontados
Incompetência
Desonestidade
Ambição
Bisbilhotice
3Técnica
Ironia e exagero
Tom pessimista
Sátira barroca (Gregório de Matos)
LEVELsoulevel.com.br
Sátira barroca (Gregório de Matos): Alvo (Cidade de Salvador (todos os grupos)); Vícios apontados (Incompetência, Desonestidade, Ambição, Bisbilhotice); Técnica (Ironia e exagero, Tom pessimista)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"endereça sua crítica aos mulatos, mercadores e fofoqueiros, poupando, neste poema satírico, os fidalgos portugueses."

Erro: contradiz o texto. O poema critica todos os grupos, inclusive os nobres. Na 3ª estrofe, os "mulatos desavergonhados" pisam nos "homens nobres" — mas isso não significa que os nobres sejam poupados; eles aparecem como vítimas da picardia, mas também são alvo da crítica geral. Além disso, o eu lírico critica os "conselheiros" (que podem ser nobres) na 1ª estrofe. A alternativa restringe o alvo da crítica, excluindo os fidalgos, o que o texto não faz.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"utiliza da convenção da sátira barroca em relação à cidade de Salvador, evocando sua gente como incompetente, desonesta, ambiciosa e bisbilhoteira."

Correta porque sintetiza fielmente o texto. Cada adjetivo encontra respaldo direto:

  • Incompetente: "Não sabem governar sua cozinha" (1ª estrofe).

  • Bisbilhoteira: "Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha" (2ª estrofe).

  • Desonesta: "picardia" (3ª estrofe) e "todos os que não furtam muito pobres" (4ª estrofe).

  • Ambigiosa: "usuras" (4ª estrofe).

A alternativa não acrescenta nada que não esteja no texto — apenas parafraseia os vícios com palavras sinônimas. É a única que capta o alvo (a cidade de Salvador) e o tom (sátira barroca).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"faz uma sátira em que ataca os vícios e os viciosos, incluindo-se nela, já que conhecia muito bem a cidade da Bahia, onde vivia."

Erro: extrapolação. O texto não diz que o eu lírico se inclui na crítica. Não há nenhuma passagem em que ele se coloque como vicioso. A informação de que "conhecia muito bem a cidade" e "onde vivia" é um dado externo (biográfico) que não está no poema. A alternativa acrescenta uma opinião sobre o autor que o texto não sustenta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"evoca o período colonial brasileiro e as crises moral e econômica da época, as quais nada têm a ver com o tempo em que o poema foi escrito."

Erro: contradiz o texto. A última parte é absurda: o poema é do período colonial e trata das crises da época. O glossário confirma que "Cidade da Bahia" é Salvador, capital do Brasil à época. A alternativa inverte a relação temporal, dizendo que as crises "nada têm a ver" com o tempo do poema — quando o texto é justamente uma crítica a esse tempo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"traz à cena personagens e valores da sociedade portuguesa antiga, que nada têm a ver com a colonização do Brasil."

Erro: contradiz o texto e tangencia o tema. O poema fala da cidade da Bahia (Salvador), não de Portugal. Os "conselheiros", "olheiros", "mulatos" e "mercadores" são personagens da sociedade colonial brasileira. A alternativa desloca o cenário para Portugal e nega a relação com a colonização — exatamente o oposto do que o texto mostra.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de sintetizar a crítica satírica sem extrapolar. A alternativa B é a única que:

  • Não acrescenta informação externa (como C).

  • Não contradiz o texto (como A, D e E).

  • Capta o alvo (Salvador) e os vícios (incompetência, desonestidade, ambição, bisbilhotice).

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora oferecer alternativas que restringem o alvo da crítica (como A) ou que extrapolam com dados biográficos (como C). Desconfie de qualquer alternativa que diga "poupando" ou "incluindo-se" — o texto não faz essas distinções.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler uma sátira, pergunte: quem é o alvo? Se o texto critica a cidade inteira, qualquer alternativa que exclua um grupo está errada. E desconfie de alternativas que tragam informações de fora do texto — elas são extrapolações.

Gabarito: letra B.

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