Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2024
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu206148
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
3º AEM ( )
Leia trecho do Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
Prosopopeia
Quem sou eu para te cantar, favela, que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta e a noite inteira de sábado e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos? Sei apenas do teu mau cheiro: baixou em mim, na viração, direto, rápido, telegrama nasal anunciando morte… melhor, tua vida.
(Carlos Drummond de Andrade. Poesia. 2002)
No poema, justifica-se a alusão à figura de linguagem prosopopeia porque o eu lírico
Aestabelece uma interação comunicativa com a favela, que é personificada.
Bexagera na descrição negativa do lugar para evidenciar desconforto por viver ali.
Ccompara a situação da favela à vida das pessoas, inclusive à sua própria vida.
Dfaz referências aos sons produzidos nas favelas, sugerindo- os nos versos.
Eemprega perífrases para amenizar a referência à situação de vida na favela.
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GabaritoA — estabelece uma interação comunicativa com a favela, que é personificada.
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Prosopopeia: a favela que canta e fala
Gabarito: letra A. O eu lírico justifica a prosopopeia porque estabelece uma interação comunicativa com a favela, que é personificada — ou seja, atribui a um ser inanimado (a favela) ações e características humanas, como cantar e desconhecer. A passagem que ancora isso está logo no início do poema:
"que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta / e a noite inteira de sábado / e nos desconheces"
Aqui, a favela é tratada como um interlocutor — o eu lírico se dirige a ela com o pronome "te" e o verbo "cantar" em 2ª pessoa ("cantas"), como se ela fosse capaz de cantar e de desconhecer pessoas. Isso é a essência da prosopopeia (ou personificação): dar vida, voz e sentimentos humanos a seres inanimados.
O comando da questão
A questão pede que você justifique a alusão à figura de linguagem prosopopeia — ou seja, não basta saber o conceito; é preciso identificar no texto o que caracteriza essa figura. O comando "justifica-se" indica que a resposta deve ser ancorada no poema, mostrando qual elemento textual materializa a prosopopeia.
O texto: tema e movimento
O poema de Drummond é uma apóstrofe à favela: o eu lírico se dirige diretamente a ela, como se ela fosse uma pessoa. Ele diz que ela "canta" nele, que ela "desconhece" os moradores, e que ele sente o "mau cheiro" dela como um "telegrama nasal". Tudo isso é personificação: a favela é tratada como um ser que canta, que tem vontade própria, que se comunica.
A tese do poema é a relação íntima e contraditória entre o eu lírico e a favela: ele a canta, mas ela o desconhece; ele sente o mau cheiro, mas isso anuncia "melhor, tua vida". A prosopopeia é o recurso central para expressar essa relação — a favela não é um lugar passivo, mas um agente que interage com o eu lírico.
A técnica: o que é prosopopeia
A prosopopeia (ou personificação) é uma figura de pensamento que atribui características humanas a seres inanimados, animais ou mortos. Exemplos clássicos: "O relógio cansou de trabalhar", "As estrelas espreitavam através da folhagem". No poema, a favela canta, desconhece — ações tipicamente humanas. Além disso, o eu lírico se dirige a ela com o pronome "te" e o verbo "cantar" em 2ª pessoa ("cantas"), como se ela fosse capaz de cantar e de desconhecer pessoas. Isso é a essência da prosopopeia: dar vida, voz e sentimentos humanos a seres inanimados.
Análise das alternativas
Prosopopeia (personificação)
1Atribui ações humanas a seres inanimados
Favela "canta"
Favela "desconhece"
2Eu lírico se dirige à favela
Interlocutor ("te", "cantas")
3Outras figuras (distratores)
Hipérbole (exagero)
Comparação (símile)
Onomatopeia (imitação de som)
Perífrase (substituição indireta)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que identifica corretamente a prosopopeia no texto. O eu lírico estabelece uma interação comunicativa com a favela — ele se dirige a ela diretamente ("Quem sou eu para te cantar, favela") — e a personifica, atribuindo-lhe ações humanas: "cantas em mim", "nos desconheces". A favela é tratada como um interlocutor capaz de cantar e de desconhecer, o que é exatamente a definição de prosopopeia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (hipérbole). A alternativa B fala em "exagera na descrição negativa" — isso é hipérbole, não prosopopeia. O texto não exagera na descrição negativa; ele apenas menciona o "mau cheiro" de forma metafórica ("telegrama nasal"), sem exagero intencional. Além disso, a questão pede a justificativa da prosopopeia, não de outra figura.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (comparação). A alternativa C fala em "compara a situação da favela à vida das pessoas" — isso seria comparação ou metáfora, não prosopopeia. O texto não estabelece uma comparação explícita entre a favela e pessoas; ele personifica a favela, tratando-a como um ser humano. Não há conectivo comparativo (como, tal qual) nem uma relação de semelhança explícita.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (onomatopeia). A alternativa D fala em "referências aos sons produzidos nas favelas" — isso seria onomatopeia (imitação de sons). O texto menciona que a favela "canta", mas não há imitação de sons (como "tic-tac"). O verbo "cantar" é usado em sentido figurado, como personificação, não como onomatopeia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (perífrase). A alternativa E fala em "perífrases para amenizar" — isso seria eufemismo ou perífrase (antonomásia). O texto não usa perífrases para amenizar a situação; ele usa a prosopopeia para dar voz à favela. Não há substituição de um termo por outro mais suave ou por uma expressão que o designe indiretamente.
Fechamento
A questão é um clássico de figuras de linguagem: a banca oferece alternativas que descrevem outras figuras (hipérbole, comparação, onomatopeia, perífrase) para testar se você sabe identificar a prosopopeia no texto. A chave é procurar a personificação: quando um ser inanimado (a favela) pratica ações humanas (cantar, desconhecer), estamos diante da prosopopeia.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras de linguagem, grife os verbos e ações atribuídos a seres não humanos. Se um objeto ou lugar "canta", "fala", "sente", é prosopopeia. Se houver exagero, é hipérbole; se houver comparação com conectivo, é símile; se houver imitação de som, é onomatopeia.