Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — VUNESP 2024
Português›Concordância (Verbal e Nominal)
Código
vu206176
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2024
Cargo
3º AEM ( )
Por 1895, não sei bem como, achei-me estudando Direito na Faculdade de Paris, ou melhor, não estudando. Vagabundo da minha mocidade, após ter tentado vários fins para a minha vida e de todos igualmente desistido – sedento de Europa, resolvera transportar-me à grande capital. Logo me embrenhei por meios mais ou menos artísticos, e Gervásio Vila-Nova, que eu mal conhecia de Lisboa, volveu-se-me1 o companheiro de todas as horas. Curiosa personalidade essa de grande artista falido, ouantes, predestinado para a falência.
Perturbava o seu aspecto físico, macerado2 e esguio. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura, terrível, evocavam cilícios3, abstenções roxas; se lhe escondiam a fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos dourados e beijos sutis. Trajava sempre de preto, fatos4 largos, onde havia o seu quê de sacerdotal – nota mais frisantemente5 dada pelo colarinho direto, baixo, fechado. Não era enigmático o seu rosto – muito pelo contrário – se lhe cobriam a testa os cabelos ou o chapéu. Entanto, coisa bizarra, no seu corpo havia mistério – corpo de esfinge, talvez, em noites de luar. Aquela criatura não se nos gravava na memória pelos seus traços fisionômicos, mas sim pelo seu estranho perfil. Em todas as multidões ele se destacava, era olhado, comentado – embora, em realidade, a sua silhueta à primeira vista parecesse não se dever salientar notavelmente: pois o fato era negro – apenas de um talhe um pouco exagerado –, os cabelos não escandalosos, ainda que longos; e o chapéu, um bonet6 de fazenda – esquisito, era certo –, mas que em todo o caso muitos artistas usavam, quase idêntico.
Porém, a verdade é que em redor da sua figura havia uma auréola. Gervásio Vila-Nova era aquele que nós olhamos na rua, dizendo: ali, deve ir alguém.
(Mário de Sá-Carneiro. A confissão de Lúcio. 2004. Adaptado)
Vocabulário:
1 transformou-se no meu.
2 sofrido.
3 túnicas, cintos ou cordões de crina, trazidos sobre a pele para mortificação ou penitência.
4 roupas.
5 marcadamente.
6 boné.
Leia o texto para responder à questão. A reescrita de informações do texto que atende à norma- padrão de concordância nominal e de concordância verbal é:
AA extensão dos cabelos de Gervásio, que eram longos, não os tornavam escandalosos.
BQuando olhava para Gervásio, era comum que me perturbasse os seus traços físicos.
CNa época, muitos artistas tinham a disposição de usar chapéus idêntico ao de Gervásio.
DSe o chapéu ou os cabelos cobria a testa de Gervásio, não era enigmático o seu rosto.
EO rosto não apresentava traços enigmáticos, mas havia mistérios no corpo de Gervásio.
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GabaritoE — O rosto não apresentava traços enigmáticos, mas havia mistérios no corpo de Gervásio.
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Concordância verbal e nominal na reescrita
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que atende simultaneicamente à norma-padrão de concordância nominal e verbal, pois apresenta o verbo "havia" no singular, concordando com o núcleo do sujeito "mistérios" (que, embora plural, é objeto direto — o sujeito é o termo "corpo", singular), e o adjetivo "enigmáticos" corretamente flexionado no masculino plural, concordando com "traços". Como se lê no texto: "Aquela criatura não se nos gravava na memória pelos seus traços fisionômicos, mas sim pelo seu estranho perfil" e "no seu corpo havia mistério".
A questão pede a reescrita de informações do texto que atenda à norma-padrão de concordância. Isso significa que devemos verificar, em cada alternativa, se o verbo concorda corretamente com o sujeito (concordância verbal) e se os adjetivos, artigos e pronomes concordam em gênero e número com os substantivos a que se referem (concordância nominal). O texto-base descreve Gervásio Vila-Nova, destacando que seu rosto não era enigmático, mas seu corpo guardava mistério.
A técnica central é identificar o núcleo do sujeito de cada verbo e o termo a que cada adjetivo se refere. Erros típicos de concordância verbal incluem fazer o verbo concordar com um termo intercalado (como um adjunto adverbial) em vez do núcleo do sujeito, ou com o objeto direto. Erros de concordância nominal incluem deixar o adjetivo no singular quando o substantivo está no plural, ou vice-versa.
A armadilha da banca está em oferecer alternativas que parecem corretas à primeira vista, mas contêm erros sutis de concordância, muitas vezes escondidos por uma estrutura frasal complexa ou por termos intercalados. A alternativa E é a única que não apresenta nenhum desses deslizes.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o núcleo do sujeito e termos intercalados (como "de Gervásio" ou "os seus traços físicos"), levando o candidato a fazer o verbo concordar com o termo errado. Na alternativa A, por exemplo, o verbo "tornavam" concorda com "os" (que retoma "cabelos"), mas o sujeito é "A extensão", singular.
Concordância verbal
1Verbo concorda com o núcleo do sujeito
Não com termo intercalado
Não com objeto direto
2Sujeito composto
Verbo no singular ("chapéu ou cabelos cobria")
3Verbo "haver" (existir)
Impessoal, fica no singular
4Concordância nominal
Adjetivo concorda com o substantivo
"chapéus idêntico" (errado)
Adjetivo concorda em gênero e número
"traços enigmáticos"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"A extensão dos cabelos de Gervásio, que eram longos, não os tornavam escandalosos."
O verbo "tornavam" está no plural, mas o sujeito é "A extensão" (singular). O núcleo do sujeito é "extensão", e o termo "dos cabelos" é apenas um adjunto adnominal. A forma correta seria "não a tornava escandalosa" (concordando com "extensão") ou "não os tornava escandalosos" (se o sujeito fosse "os cabelos"). Aqui, o verbo concorda com o objeto direto "os", o que é um erro de concordância verbal. Erro: contradiz a norma-padrão de concordância verbal (verbo no plural com sujeito singular).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Quando olhava para Gervásio, era comum que me perturbasse os seus traços físicos."
O verbo "perturbasse" está no singular, mas o sujeito é "os seus traços físicos" (plural). A forma correta seria "me perturbassem os seus traços físicos". O erro está em fazer o verbo concordar com o termo "me" (objeto indireto) em vez do sujeito plural. Erro: contradiz a norma-padrão de concordância verbal (verbo no singular com sujeito plural).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Na época, muitos artistas tinham a disposição de usar chapéus idêntico ao de Gervásio."
O adjetivo "idêntico" está no singular, mas o substantivo a que se refere é "chapéus" (plural). A forma correta seria "chapéus idênticos". O texto menciona "muitos artistas usavam, quase idêntico", referindo-se ao boné de Gervásio, mas na reescrita o adjetivo deve concordar com "chapéus". Erro: contradiz a norma-padrão de concordância nominal (adjetivo no singular com substantivo plural).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Se o chapéu ou os cabelos cobria a testa de Gervásio, não era enigmático o seu rosto."
O verbo "cobria" está no singular, mas o sujeito é composto: "o chapéu ou os cabelos". Quando o sujeito é composto, o verbo deve ir para o plural ("cobriam"), a menos que haja ideia de exclusão, o que não é o caso aqui, pois ambos podem cobrir a testa. A forma correta seria "cobriam a testa". Erro: contradiz a norma-padrão de concordância verbal (verbo no singular com sujeito composto).
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"O rosto não apresentava traços enigmáticos, mas havia mistérios no corpo de Gervásio."
Aqui, o verbo "apresentava" concorda com o sujeito "O rosto" (singular), e o adjetivo "enigmáticos" concorda com "traços" (masculino plural). O verbo "havia" é impessoal (no sentido de "existir") e permanece no singular, mesmo seguido de "mistérios" (plural). A concordância nominal e verbal está perfeita. O texto afirma: "não era enigmático o seu rosto" e "no seu corpo havia mistério", o que a alternativa parafraseia corretamente. Correta: atende à norma-padrão de concordância verbal e nominal.
Conclusão: A questão testa a capacidade de identificar erros de concordância em reescrituras. A alternativa E é a única que mantém a correção gramatical, pois respeita a concordância entre sujeito e verbo e entre substantivo e adjetivo. Ao resolver questões assim, identifique sempre o núcleo do sujeito e o termo a que cada adjetivo se refere, desconfiando de termos intercalados que possam induzir ao erro.