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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu217602
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2025
Cargo
AnaSistJ ( )

Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir 

 

De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates1

 

As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas.

 

Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo dos negócios da monarquia.

 

– A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único, Itaguaí é o meu universo.

 

Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras e demonstrando os teoremas com cataplasmas2.

 

Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática.

 

Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho.

 

Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes.

 

Se além dessas prendas, únicas dignas da preocupação de um sábio, D . Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

 

D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos.

 

A índole natural da ciência é a longanimidade3 o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco.

 

Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime alimentício especial.

 

A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, – explicável, mas inqualificável –, devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

 

(Machado de Assis. O Alienista)

 

1 Casa de Orates: casa de loucos, manicômio.

2 Cataplasmas: massas medicamentosas.

3 Longanimidade: firmeza de ânimo.

Conforme exposto no texto, a escolha de D. Evarista da Costa e Mascarenhas como esposa por Dr. Simão Bacamarte seguiu critérios
  1. AAmbíguos, ora relacionados aos aspectos fisiológicos e anatômicos, ora relacionados à compleição; um dos tios do estudioso aprovou a escolha, dada a beleza dela.
  2. BSubjetivos, centrados na perspectiva da formação de uma família com filhos sadios; um dos tios do estudioso, porém, condenou a escolha, pelo fato de ela ser viúva.
  3. CObjetivos, ligados à fisiologia e anatomia dela, favoráveis, segundo ele, à procriação; um dos tios do estudioso, porém, estranhou a escolha, devido à falta de beleza dela.
  4. DPolíticos, necessários à permanência dele no Brasil, longe dos interesses de el-rei; um dos tios do estudioso, contrariado, desaprovou a escolha de uma moça de pouca beleza.
  5. EFinanceiros, voltados ao interesse de aumento de bens, pelo fato de ela ser viúva de um juiz de fora; um dos tios do estudioso, satisfeito com isso, abençoou a escolha.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Objetivos, ligados à fisiologia e anatomia dela, favoráveis, segundo ele, à procriação; um dos tios do estudioso, porém, estranhou a escolha, devido à falta de beleza dela.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Critérios objetivos na escolha de D. Evarista

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que reproduz fielmente o que o texto afirma: a escolha de D. Evarista seguiu critérios objetivos, ligados à fisiologia e anatomia dela, favoráveis à procriação, e o tio do estudioso estranhou a escolha devido à falta de beleza dela. Isso está explícito no trecho em que Simão Bacamarte explica a escolha ao tio.

O comando pede compreensão — "conforme exposto no texto" —, ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem deduções ou acréscimos. A banca não quer que você interprete ou imagine; quer que você localize a passagem que sustenta cada afirmação. Vamos ao texto.

O narrador descreve a reação do tio e a explicação do médico:

"Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho."

O verbo "admirou-se" já indica que o tio estranhou a escolha. E por quê? O texto continua:

"Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes."

Aqui está o critério objetivo: condições fisiológicas e anatômicas — coisas mensuráveis, científicas — que a tornavam apta a dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Ou seja, a escolha foi baseada na capacidade de procriação, não em sentimentos ou aparência.

E a falta de beleza? O texto diz:

"Se além dessas prendas, únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus..."

"Mal composta de feições" = sem beleza. O médico não se importava com isso; pelo contrário, agradecia a Deus, pois não corria o risco de se distrair da ciência. Mas o tio estranhou justamente por isso: a escolha de uma mulher não bonita. A alternativa C junta todas essas peças corretamente.

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora? Toda alternativa que traz um motivo que não está no texto (beleza como critério, viúvez, política, finanças) é extrapolação — e extrapolar é errar, ainda que a afirmação soe plausível no mundo real.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto e extrapola. A alternativa diz que os critérios eram "ambíguos, ora relacionados aos aspectos fisiológicos e anatômicos, ora relacionados à compleição" — mas o texto não mostra ambiguidade: o critério é sempre fisiológico/anatômico. Além disso, afirma que o tio "aprovou a escolha, dada a beleza dela" — o texto diz exatamente o contrário: o tio admirou-se (estranhou) e a moça não era bonita ("mal composta de feições"). A banca inverteu a reação do tio e inventou a beleza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz. A alternativa diz que os critérios eram "subjetivos" — mas o texto os apresenta como objetivos (condições fisiológicas e anatômicas). Também afirma que o tio condenou a escolha "pelo fato de ela ser viúva" — o texto não menciona a viúvez como motivo da reprovação; o motivo foi a falta de beleza (implícita no "admirou-se" e na explicação do médico). A viúvez é um dado do texto ("viúva de um juiz de fora"), mas não é apresentada como razão da crítica do tio. Extrapolação clássica.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Sustentada pelo texto. Os critérios são objetivos ("condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem"), ligados à procriação ("apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes"), e o tio estranhou ("admirou-se de semelhante escolha") devido à falta de beleza ("mal composta de feições"). Todos os elementos estão explícitos. Nada foi acrescentado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz. A alternativa inventa critérios "políticos" e "necessários à permanência dele no Brasil" — o texto diz que ele voltou ao Brasil por vontade própria ("não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra") e que a ciência era seu "emprego único". A escolha da esposa não tem relação com política. Além disso, diz que o tio "desaprovou a escolha de uma moça de pouca beleza" — isso até coincide com o texto, mas o resto é pura invenção. A alternativa mistura um dado verdadeiro com motivos ausentes.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz. A alternativa afirma que os critérios eram "financeiros" e que o tio "abençoou" a escolha — o texto não menciona interesse financeiro algum, e o tio estranhou ("admirou-se"), não abençoou. A viúvez de um juiz de fora é citada, mas como dado biográfico, não como motivo da escolha. A banca pegou um detalhe do texto e o transformou em causa — extrapolação com fato verdadeiro, mas ausente como motivação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. A viúvez existe no texto, mas não é o motivo da escolha nem da crítica do tio. Sempre confira se a causa apontada na alternativa está no texto, não apenas se o dado aparece.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando — "conforme exposto no texto" pede compreensão, não inferência. A resposta certa é uma paráfrase do que está escrito, sem dedução. Se você precisou "imaginar" o motivo, a alternativa está errada.

Gabarito: letra C. A escolha de D. Evarista foi objetiva (fisiologia e anatomia), voltada à procriação, e o tio estranhou por ela não ser bonita — tudo isso está no texto, palavra por palavra.

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