Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu217696
Banca
VUNESP
Órgão
TCE SP
Ano
2025
Cargo
ACE ( )
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Menezes, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Menezes que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa*; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Menezes trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça*; mas, afinal, resignara-se, acostumara- se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos.
(Machado de Assis. Contos)
*À socapa: disfarçadamente
*Comborça: amante
Leia o trecho a seguir do conto “Missa do Galo” para responder a questão seguinte: O narrador relata que, durante sua estada na casa do escrivão Menezes,
Adesdenhou deste pelo fato de seu anfitrião trocar a sua companhia pela da amante.
Bfoi levado ao teatro por este, acompanhando-o às apresentações mais de uma vez.
Cmanteve uma relação de muita animosidade com a sogra deste, que o constrangia.
Dnutriu o sentimento de que a morada era sua, pelo casamento deste com sua prima.
Edescobriu a verdade sobre as idas deste ao teatro, que eram um meio ardiloso para sair.
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GabaritoE — descobriu a verdade sobre as idas deste ao teatro, que eram um meio ardiloso para sair.
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Compreensão do conto "Missa do Galo": a descoberta do narrador
Gabarito: letra E. O narrador relata que, durante sua estada na casa do escrivão Menezes, descobriu a verdade sobre as idas deste ao teatro, que eram um meio ardiloso para sair. Essa informação está explícita no segundo parágrafo, quando o narrador afirma: "Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação". A alternativa E é a única que parafraseia fielmente essa passagem, sem acrescentar ou distorcer nada.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede que você identifique o que o narrador relata — ou seja, uma informação explícita no texto, que deve ser localizada por recorrência. Não se trata de deduzir, inferir ou interpretar nas entrelinhas; a resposta está escrita, ainda que com outras palavras. Por isso, o método é: buscar a passagem que corresponde a cada alternativa e verificar se ela diz exatamente aquilo, nem mais, nem menos.
O texto: o que o narrador conta sobre Menezes
O trecho apresenta o narrador hospedado na casa do escrivão Menezes. Ele descreve a rotina da casa e, em especial, o comportamento do anfitrião: Menezes dizia que ia ao teatro, mas na verdade saía para encontrar a amante. O narrador só descobre isso depois: "Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação". A palavra eufemismo é a chave: significa suavizar ou disfarçar uma realidade desagradável. Aqui, "teatro" era o disfarce para os encontros amorosos. A alternativa E captura exatamente essa ideia: as idas ao teatro eram um "meio ardiloso para sair".
A técnica: paráfrase fiel vs. extrapolação
A banca adora construir distratores que extrapolam o texto, acrescentando sentimentos ou julgamentos que o narrador não expressa. A alternativa correta, por outro lado, é sempre uma paráfrase — uma reescritura que mantém o sentido original. Ao testar cada alternativa, pergunte: "O texto autoriza isto, ou exige que eu acrescente algo de fora?". Se a resposta for a segunda, a alternativa está errada.
Compreensão de texto: Método (Localizar passagem explícita, Paráfrase fiel, Sem inferência); Distratores típicos (Extrapolação (sentimentos), Contradição do texto, Ampliação/distorção); Chave do gabarito ("Teatro era um eufemismo", Disfarce para sair)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que o narrador "desdenhou" de Menezes. Ele apenas relata que pedia para ir ao teatro e que a sogra fazia careta. Não há nenhum sentimento de desprezo explícito ou implícito. A alternativa inventa uma emoção que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O narrador diz: "Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Menezes que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo". Ou seja, ele nunca foi ao teatro com Menezes; apenas pediu. A alternativa afirma o contrário, invertendo o fato.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto menciona que a sogra "fazia uma careta" quando Menezes ia ao teatro, mas não diz que havia "muita animosidade" entre ela e o narrador, nem que ela o "constrangia". A careta era dirigida a Menezes, não ao narrador. A alternativa amplia e distorce a relação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto diz que Menezes "fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas", mas não afirma que o narrador sentia que a casa era sua por causa disso. Esse sentimento de posse é uma invenção da alternativa, sem base no texto.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paráfrase fiel. O texto afirma: "Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação". A alternativa E diz que o narrador "descobriu a verdade sobre as idas deste ao teatro, que eram um meio ardiloso para sair". Isso é exatamente o que o texto diz: "teatro" era um disfarce (eufemismo) para sair e encontrar a amante. Nenhuma informação foi acrescentada ou distorcida.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que acrescentam sentimentos ("desdenhou", "animosidade", "sentimento de posse"). O texto narra fatos; a resposta correta é sempre uma paráfrase objetiva.
Gabarito: letra E — a única que parafraseia fielmente a passagem "Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação".