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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu217707
Banca
VUNESP
Órgão
TCE SP
Ano
2025
Cargo
ACE ( )

O Sobrado

 

Que pessoa estranha, dona Rosalina. Ela o deixava desconcertado não apenas pela ambivalência de sua conduta mas pelo mistério mesmo do seu ser. Como é que uma pessoa era assim? Ele não entendia, por mais que verrumasse¹ a cabeça não conseguia entender. Ela lhe dava a impressão de duas numa só: quando ele pensava conhecer uma, via que se enganara, era outra que estava falando. Às vezes mais de uma, tão imprevista nos modos, nos jeitos de parecer. Um ajuntamento confuso de Rosalinas numa só Rosalina.

 

Ele passava horas ouvindo dona Rosalina, vendo-lhe os mínimos gestos, o mais leve movimento dos lábios e dos olhos. Via-a de todas as posições, seguia-lhe os passos, e ela nunca parecia ser uma, a mesma pessoa. E depois, no quarto, procurava botar em ordem as ideias, compor com os fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina: uma dona Rosalina impossível de ser. Na rua não pensava em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela. Aprendeu que, por mais que perguntassem, não podia falar nunca naquela mulher tão sozinha. Sua boca devia ser por vontade calada, como era por desígnio de Deus a boca de Quiquina. Se às vezes na rua lhe assaltava a lembrança de dona Rosalina, afastava-a ligeiro, porque, distante, a sua figura ganhava em estranheza e cores sombrias. E ele queria o ar puro da rua, a claridade do dia, onde as horas passavam, a vida era o comum da vida da gente, sem nenhum outro mistério e sobressalto senão o mistério mesmo de existir. O sobrado era o túmulo, as voçorocas², as veredas sombrias.

 

(Autran Dourado. Ópera dos Mortos)

 

¹ refletisse

² escavações no solo ou em rocha decomposta causadas por erosão do lençol de escoamento de águas pluviais

Leia o texto para responder a questão seguinte:   O narrador deixa evidente que o personagem (Ele) considerava os momentos fora do sobrado como
  1. Aum expediente encontrado para poder conversar com as pessoas e falar de seu estranhamento sobre dona Rosalina.
  2. Buma fuga para poder colocar as suas ideias em ordem e entender por que estava lá, convivendo com dona Rosalina.
  3. Cuma forma de se conectar com o mundo e com o ordinário da vida, rompendo com as más impressões vindas daquela residência.
  4. Dum autoflagelo, porque ele sentia falta das pessoas que habitavam aquele lugar e das energias que de lá emanavam intensamente.
  5. Eum modo especial de repensar sua vida e analisar qual era o impacto que a presença de dona Rosalina tinha para os seus dias.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — uma forma de se conectar com o mundo e com o ordinário da vida, rompendo com as más impressões vindas daquela residência.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Os momentos fora do sobrado: a conexão com o mundo comum

Gabarito: letra C. O narrador deixa evidente que o personagem considerava os momentos fora do sobrado como uma forma de se conectar com o mundo e com o ordinário da vida, rompendo com as más impressões vindas daquela residência. A passagem que sustenta isso está no 2º parágrafo: "E ele queria o ar puro da rua, a claridade do dia, onde as horas passavam, a vida era o comum da vida da gente, sem nenhum outro mistério e sobressalto senão o mistério mesmo de existir. O sobrado era o túmulo, as voçorocas, as veredas sombrias." A alternativa C é uma paráfrase fiel dessa oposição: a rua = vida comum, ar puro, claridade; o sobrado = túmulo, sombras.

O comando pede compreensão ("deixa evidente"), ou seja, a resposta deve ser uma reescritura fiel do que está explícito no texto, sem deduções ou acréscimos. A banca não quer que você infira motivações psicológicas profundas; quer que você localize a ideia que o narrador afirma diretamente sobre o que os momentos fora do sobrado representam para o personagem.

O texto constrói uma oposição espacial carregada de valor simbólico. O sobrado é associado a "túmulo", "voçorocas", "veredas sombrias" — imagens de morte, erosão e escuridão. A rua, ao contrário, é "ar puro", "claridade do dia", onde "a vida era o comum da vida da gente". O personagem, ao sair do sobrado, busca exatamente esse mundo comum e luminoso, afastando a lembrança de dona Rosalina porque, distante, "a sua figura ganhava em estranheza e cores sombrias". Assim, os momentos fora do sobrado são uma fuga para a normalidade, uma conexão com o que há de mais simples e ordinário na existência.

A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando se ela é uma paráfrase do que o texto afirma, sem acrescentar nada. A alternativa correta deve reproduzir a oposição rua/sobrado e o valor positivo atribuído à rua. As incorretas, em geral, extrapolam (inventam motivações não ditas), restringem (limitam o alcance da ideia) ou contradizem (invertem a relação).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a oposição simbólica entre o sobrado (túmulo, sombras) e a rua (ar puro, claridade). Alternativas como A e B parecem plausíveis, mas acrescentam motivações que o texto não menciona — são extrapolações.

PEGA ESSA DICA!

Grife as palavras que carregam valor simbólico (túmulo, sombras, ar puro, claridade) e veja como elas se opõem. A resposta correta quase sempre reproduz essa oposição.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que o personagem "não podia falar nunca naquela mulher tão sozinha" e que "Sua boca devia ser por vontade calada". Não há nenhuma menção a um "expediente para conversar com as pessoas e falar de seu estranhamento". A alternativa inventa uma função social para os momentos fora do sobrado que o texto não autoriza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que "no quarto, procurava botar em ordem as ideias, compor com os fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina". Ou seja, é dentro do quarto (no sobrado) que ele tenta organizar as ideias, não fora. A alternativa inverte o local e acrescenta a ideia de "entender por que estava lá", que não aparece no texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. O texto afirma: "E ele queria o ar puro da rua, a claridade do dia, onde as horas passavam, a vida era o comum da vida da gente". Isso é exatamente "se conectar com o mundo e com o ordinário da vida". E a oposição com o sobrado é explícita: "O sobrado era o túmulo, as voçorocas, as veredas sombrias". Portanto, os momentos fora do sobrado rompem com as "más impressões" (túmulo, sombras) vindas da residência.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto diz que "Na rua não pensava em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela" e que "afastava-a ligeiro" a lembrança dela. Não há nenhuma "falta" ou "autoflagelo". A alternativa inverte completamente a relação: o personagem não sente falta do sobrado; ele o evita.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não menciona que os momentos fora do sobrado serviam para "repensar sua vida" ou "analisar o impacto" de dona Rosalina. Pelo contrário, ele "se esquecia inteiramente dela" na rua. A alternativa atribui uma função reflexiva que o texto não sustenta.

Conclusão: a resposta é a letra C, pois é a única que reproduz fielmente a oposição entre a rua (vida comum, ar puro) e o sobrado (túmulo, sombras), sem acrescentar nada que o texto não diga. As demais ou extrapolam, ou invertem a relação.

Gabarito: letra C

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