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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu217716
Banca
VUNESP
Órgão
ARES-PCJ
Ano
2025
Cargo
Ana ( )

Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump

 

Dia desses, assistindo a uma entrevista, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem de negócios sem ócios precisa contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história: o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.

 

Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima, comentava com seus diretos que não gostava de “gato gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de adiposidade, não mais de cifrões. A partir daí, o “gato gordo”, indolente, comprava uma casa de campo num condomínio fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro, o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.

 

A expressão “gato gordo” não se popularizou. A outra, “zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de iniciativa (pública ou privada).

 

A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome! Fujam da sua zona de conforto!

 

Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom. Deveria ser festejada, nunca repudiada.

 

(Eugênio Bucci, “Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump”, 02.04.2025.

Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/

sobre-zona-de-conforto-meritocracia-e-trump/. Adaptado)

Leia o excerto a seguir para responder à questão.

   

De acordo com as ideias presentes no excerto, é correto afirmar que o autor

  1. Aadere à ideia de que as pessoas devem procurar se arriscar em novos empreendimentos, sob pena de serem consideradas acomodadas.
  2. Baponta a oposição que se estabelece, em certos contextos, entre a disposição para o risco e o desejo de acumulação de capital financeiro.
  3. Ccritica o julgamento negativo que homens de negócios fazem de pessoas que já se deram por satisfeitas com as conquistas realizadas.
  4. Dcondena o desprezo que certos grupos sociais têm pelos capitalistas que defendem a necessidade de se cultivar a ambição e o arrojo.
  5. Ehesita em discordar da ideia de que no mundo dos negócios não devem permanecer aqueles que buscam estabilidade e previsibilidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — critica o julgamento negativo que homens de negócios fazem de pessoas que já se deram por satisfeitas com as conquistas realizadas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Zona de conforto, meritocracia e a crítica do autor

Gabarito: letra C. O autor critica o julgamento negativo que homens de negócios fazem de pessoas que já se deram por satisfeitas com as conquistas realizadas — é exatamente o que ele faz ao ironizar o capitalista que chama de "gato gordo" o funcionário que "se dava por satisfeito" e ao defender que "uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom". A passagem que ancora a resposta está no 2º parágrafo: o banqueiro "não gostava de 'gato gordo'" e o definia como "aquele ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa posição remediada e se dava por satisfeito". O autor, longe de concordar, ironiza essa visão e a contesta no 5º parágrafo.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede o que é correto afirmar de acordo com as ideias presentes no excerto — ou seja, tarefa de compreensão/recorrência: a resposta deve ser uma paráfrase fiel de algo que o texto afirma, sem deduções nem acréscimos. Isso muda tudo: cada alternativa precisa ser testada perguntando "onde o texto diz isto?" — se não houver passagem que sustente, está errada, ainda que soe plausível no mundo real.

O texto: tese e movimento argumentativo

O autor relata dois episódios: um capitalista que prega sair da "zona de conforto" e outro que demite "gatos gordos" (funcionários satisfeitos com o que conquistaram). No 4º parágrafo, ele generaliza: "as implicâncias idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis de virtude para o empregado" — ou seja, o que é capricho do patrão vira regra para o empregado. No 5º, ele se declara irônico e inverte o julgamento: "na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom. Deveria ser festejada, nunca repudiada." A tese é clara: o autor defende o conforto/estabilidade e critica quem o repudia — exatamente os homens de negócios dos dois primeiros parágrafos.

A técnica que decide: oposição e ironia

A questão inteira gira em torno de uma oposição: de um lado, os capitalistas que veem a zona de conforto como "vício moral" (1º parágrafo) e o "gato gordo" como "praga" (2º parágrafo); de outro, o autor, que considera essa visão uma "piada de mau gosto" (5º parágrafo). A alternativa C captura essa oposição: o autor critica o julgamento negativo que os homens de negócios fazem dos satisfeitos. Repare que a C não diz que o autor concorda com os capitalistas — diz exatamente o contrário, e é isso que o texto prova.

"o 'gato gordo', em seu dicionário, era aquele ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de adiposidade, não mais de cifrões"

Aqui está o julgamento negativo: o banqueiro despreza quem se dá por satisfeito. E a crítica do autor vem na sequência:

"Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom. Deveria ser festejada, nunca repudiada."

O "mas" marca a oposição: o autor repudia o repúdio dos capitalistas. É isso que a C parafraseia.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor "adere à ideia de que as pessoas devem procurar se arriscar em novos empreendimentos". O texto faz o oposto: o autor ironiza o capitalista que prega o risco e defende a estabilidade. No 5º parágrafo: "uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom. Deveria ser festejada, nunca repudiada." Não há adesão ao risco — há crítica a quem o impõe.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: tangencia o tema. A alternativa fala de "oposição entre a disposição para o risco e o desejo de acumulação de capital financeiro". O texto não estabelece essa oposição interna ao capitalista; a oposição é entre a visão dos capitalistas e a do autor. O capitalista do 1º parágrafo quer risco para ganhar mais dinheiro — não há conflito entre risco e acumulação. A B foge ao que o texto realmente discute.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. O autor critica o julgamento negativo dos homens de negócios sobre os satisfeitos. Prova: o banqueiro chama o satisfeito de "gato gordo" e o demite (2º parágrafo); o autor, ironicamente, diz que a estabilidade "deveria ser festejada, nunca repudiada" (5º parágrafo). A C resume exatamente essa crítica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa diz que o autor "condena o desprezo que certos grupos sociais têm pelos capitalistas". O texto não fala de grupos sociais que desprezam capitalistas; o autor critica os capitalistas, não o contrário. Não há passagem que sustente essa condenação — é invenção.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor "hesita em discordar" da ideia de que não devem permanecer no mundo dos negócios os que buscam estabilidade. O autor não hesita: ele discorda abertamente, com ironia e clareza. No 5º parágrafo: "Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo que 'zona de conforto' é piada de mau gosto." Não há hesitação alguma.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com um fato verdadeiro (o autor critica os capitalistas) para induzir a conclusões que o texto não sustenta, como a adesão à meritocracia (A) ou a condenação de grupos sociais (D).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, teste cada alternativa perguntando: "onde o texto diz isto?" Se não houver passagem que sustente, está errada — mesmo que soe verdadeira no mundo real.

Gabarito: letra C.

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