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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu217720
Banca
VUNESP
Órgão
ARES-PCJ
Ano
2025
Cargo
Ana ( )

Fobia imobiliária

 

A vida me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar, pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem.

 

Faria par, este amigo recente, com uma senhora da minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram, uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”.

 

Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse pânico. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca de poleiro.

 

Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações, dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático, na esquina de Augusta e Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – gabei-me. Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que ali simplesmente não havia água, nem disposição dos outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E, no entanto, tudo estava claro desde o início, pois na primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de cordas içando baldes na soturna área interna do edifício. A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.

 

(Humberto Werneck, “Fobia Imobiliária”, 02.10.20.

Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/

humberto-werneck/fobia-imobiliaria. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder à questão.     De acordo com o cronista, existe um tipo de pessoa que
  1. Areceia perder tempo em busca de negócios vantajosos.
  2. Bevita realizar os procedimentos burocráticos de um negócio.
  3. Crecorre à ajuda de terceiros para adquirir algum bem.
  4. Dadquire imóveis sobretudo pelo prazer de reformá-los.
  5. Eencontra satisfação na busca frustrada por algo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — encontra satisfação na busca frustrada por algo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Fobia imobiliária: a satisfação na busca frustrada

Gabarito: letra E. O cronista descreve um tipo de pessoa que encontra satisfação na busca frustrada por algo — exatamente o que se lê no 1º parágrafo, quando o camarada que procura apartamento está "À beira da euforia" e parece governado pela convicção de que "o bom não é achar, é procurar". A alternativa E é a única paráfrase fiel dessa ideia; as demais ou tangenciam o texto ou o contradizem.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede "De acordo com o cronista, existe um tipo de pessoa que...". Isso é uma questão de compreensão/recorrência: a resposta está explícita no texto, bastando localizar a passagem que descreve esse tipo e reconhecer a reescritura equivalente. Não se trata de deduzir algo nas entrelinhas — a informação está dita, ainda que com outras palavras. Por isso, o método é: achar a paráfrase, não construir uma conclusão própria.

O texto: onde mora a resposta

O 1º parágrafo apresenta o "camarada" que percorre dezenas de endereços, acha defeito em todos e, longe de se lamentar, está feliz. A chave está na frase:

"Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem."

Repare: ele não quer achar — quer procurar, e o prazer está justamente em não encontrar (ver imperfeição onde não há). Isso é "satisfação na busca frustrada". O 2º parágrafo reforça com a senhora que vetava empregadas por "dentes demais" ou "de menos", e o 3º resume: "o time dos que procuram na esperança de não encontrar". A alternativa E é a síntese perfeita desse comportamento.

A técnica: teste cada alternativa contra o texto

A armadilha central é a extrapolação e a fuga ao tema. Cada distratora ou acrescenta informação que o texto não traz (medo de perder tempo, burocracia, ajuda de terceiros) ou inverte o sentido (prazer de reformar). A correta, por outro lado, não acrescenta nada: apenas reescreve com outras palavras o que o cronista afirmou. Ao testar, pergunte: o texto autoriza isto, ou exige que eu traga algo de fora?

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não menciona "receio de perder tempo" em nenhum momento. O camarada não tem pressa nem medo de desperdiçar tempo — ele aproveita o tempo procurando. A ideia de "receia perder tempo" é uma suposição que o leitor traria de fora, não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: fuga ao tema. O texto fala de alugar apartamento, mas não aborda "procedimentos burocráticos" (contratos, documentação, etc.). O camarada simplesmente acha defeitos nos imóveis; não há menção a burocracia. A alternativa tangencia o assunto sem se apoiar em nenhuma passagem.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: fuga ao tema. O texto não diz que esse tipo de pessoa "recorre à ajuda de terceiros para adquirir algum bem". O camarada age sozinho; a senhora do 2º parágrafo até recebe indicações das filhas, mas o foco é a recusa, não a ajuda. Nada no texto sustenta essa generalização.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O cronista diz que os que reformam a casa são "aparentados" com os que procuram sem achar, mas ele mesmo é o oposto: "A simples ideia de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo pouso". A alternativa inverte o sentido: o prazer não está em reformar, está em procurar sem encontrar. Além disso, o texto não afirma que alguém adquire imóveis "sobretudo pelo prazer de reformá-los" — isso é uma distorção.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. O texto diz que o camarada está "À beira da euforia" porque "o bom não é achar, é procurar", e que ele sente prazer em "ver imperfeição onde não tem". Ou seja, ele encontra satisfação na busca frustrada — procura, mas não quer achar. A alternativa E reescreve exatamente essa ideia, sem acrescentar nem suprimir nada.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que tragam palavras como "receia", "evita", "recorre" — elas costumam introduzir ideias que o texto não disse. A correta quase sempre é a que parafraseia o trecho-chave, como a E faz com "o bom não é achar, é procurar".

Gabarito: letra E — a única inteiramente sustentada pelo texto, pois traduz com outras palavras a satisfação de quem procura sem querer encontrar.

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