Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — VUNESP 2025
Português›Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
vu217812
Banca
VUNESP
Órgão
TJM SP
Ano
2025
Cargo
Ana BDJ ( )
Por que no Brasil a maioria da população tem rejeitado o parlamentarismo? A resposta aponta para a índole do nosso povo. Aqui a semente presidencialista viceja em todos os espaços.
O sociólogo francês Maurice Duverger defende a tese de que o gosto latino-americano pelo sistema presidencialista tem a ver com o aparato monárquico na região. O Império Inca, com seus grandes caciques, e depois o poderio espanhol, com seus reis, vice-reis e corregedores, plasmaram a inclinação por regimes de caráter autocrático.
O presidencialismo por estas plagas agregaria, assim, uma boa dose de autocracia. Já o parlamentarismo que vicejou na Europa teria se inspirado na ideologia liberal da Revolução Francesa, cujo alvo era a derrubada do soberano. Isso explicaria a distância da Europa ante o modelo presidencialista.
Portanto, o presidencialismo está fincado no altar mais alto da cultura política. O poder que dele emana impregna a figura do mandatário. A imagem do Estado e a imagem do governante imbricam-se. Sob essa configuração, imaginar que o parlamentarismo tenha chance por aqui é apostar que a fada madrinha decidiu deixar o reino da fantasia para nos visitar. Temos de conviver mesmo com o fardão presidencialista.
(Gaudêncio Torquato, Jornal da USP, “Parlamentarismo, uma sombra no horizonte”. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/ parlamentarismo-uma-sombra-no-horizonte/. Adaptado)
Considerando o contexto em que as expressões destacadas se apresentam, assinale a alternativa em que o comentário sobre elas é correto.
A“... a fada madrinha decidiu deixar o reino da fantasia para nos visitar.” (4º parágrafo) – estabelece relação de causa.
B“Isso explicaria a distância da Europa ante o modelo presidencialista.” (3º parágrafo) – o tempo do verbo expressa certeza.
C“... ideologia liberal da Revolução Francesa, cujo alvo era a derrubada do soberano.” (3º parágrafo) – corresponde a “que o”.
D“Temos de conviver mesmo com o fardão presidencialista.” (4º parágrafo) – corresponde à palavra “ainda”.
E“Já o parlamentarismo que vicejou na Europa...” (3º parágrafo) – introduz ideia que contrasta com a anterior.
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GabaritoE — “Já o parlamentarismo que vicejou na Europa...” (3º parágrafo) – introduz ideia que contrasta com a anterior.
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O valor semântico de "Já" e a coesão sequencial
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única correta porque o vocábulo "Já" em "Já o parlamentarismo que vicejou na Europa" exerce função de conectivo de oposição/contraste, introduzindo uma ideia que se contrapõe à anterior — exatamente como afirma o comentário. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo, onde o autor contrapõe o parlamentarismo europeu ao presidencialismo latino-americano.
"O presidencialismo por estas plagas agregaria, assim, uma boa dose de autocracia. Já o parlamentarismo que vicejou na Europa teria se inspirado na ideologia liberal da Revolução Francesa..."
O texto estabelece uma oposição entre dois sistemas políticos: de um lado, o presidencialismo latino-americano (marcado pela herança autocrática); de outro, o parlamentarismo europeu (inspirado no liberalismo). O "Já" é o operador argumentativo que sinaliza exatamente essa mudança de perspectiva — é o mesmo uso de "por outro lado", "ao passo que", "enquanto". A banca não pede o sentido literal da palavra, mas o valor coesivo que ela assume no contexto, e é isso que a alternativa E captura com precisão.
O comando da questão
O enunciado pede que se avalie o comentário feito sobre cada expressão destacada, considerando o contexto em que ela aparece. Isso significa que a resposta não depende do sentido dicionarizado isolado, mas do efeito de sentido que a expressão produz naquele trecho específico. É uma questão de semântica contextual e de coesão sequencial — o candidato precisa identificar a função do conectivo, o valor do tempo verbal e a relação entre as partes do texto.
A técnica que decide
Para cada alternativa, o teste é: o comentário descreve fielmente o que a expressão faz no texto? Não basta a expressão "poder" ter tal sentido em outro lugar; é preciso que ela o tenha naquele trecho. A alternativa E passa no teste porque "Já" é, de fato, um conectivo adversativo que introduz contraste. As demais falham porque atribuem à expressão um valor que ela não tem no contexto — algumas por extrapolação, outras por troca de conceito.
Valor semântico no contexto: "Já" (E) (Conectivo de contraste, Equivale a "por outro lado"); "para" (A) (Não é causa, É condição/hipótese); "explicaria" (B) (Não é certeza, Futuro do pretérito = hipótese); "cujo" (C) (Não é "que o", É relativo possessivo); "mesmo" (D) (Não é "ainda", É reforço/ênfase)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"... a fada madrinha decidiu deixar o reino da fantasia para nos visitar."
O comentário afirma que a expressão "estabelece relação de causa". Isso é um erro de interpretação. A expressão é uma metáfora (figura de linguagem) usada para dizer que o parlamentarismo não tem chance no Brasil — seria preciso um milagre, algo fantasioso. A relação estabelecida não é de causa, mas de condição/hipótese: "imaginar que o parlamentarismo tenha chance por aqui é apostar que a fada madrinha decidiu...". O trecho expressa uma suposição irreal, não uma relação causal. A alternativa extrapola ao inventar um valor semântico que a expressão não tem no contexto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Isso explicaria a distância da Europa ante o modelo presidencialista."
O comentário diz que "o tempo do verbo expressa certeza". Isso é um erro de análise morfológica. O verbo "explicaria" está no futuro do pretérito do indicativo, tempo que, nesse contexto, expressa hipótese, possibilidade, probabilidade — não certeza. O autor está apresentando uma tese explicativa (a de Duverger), não um fato consumado. A alternativa contradiz o valor semântico do tempo verbal: o futuro do pretérito, aqui, indica incerteza ou suposição, exatamente o oposto do que afirma o comentário.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"... ideologia liberal da Revolução Francesa, cujo alvo era a derrubada do soberano."
O comentário afirma que "cujo" corresponde a "que o". Isso é um erro de análise sintática. "Cujo" é um pronome relativo que estabelece relação de posse entre o antecedente e o termo seguinte: "a ideologia liberal da qual o alvo era..." — ou seja, "o alvo da ideologia". A substituição por "que o" produziria "a ideologia que o alvo era...", o que é agramatical e sem sentido. A alternativa troca o conceito: confunde o pronome relativo possessivo "cujo" com a combinação de pronome relativo "que" + pronome oblíquo "o".
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Temos de conviver mesmo com o fardão presidencialista."
O comentário diz que "mesmo" corresponde à palavra "ainda". Isso é um erro de sinonímia contextual. No trecho, "mesmo" tem valor de reforço, ênfase, confirmação — equivale a "certamente", "de fato", "sem dúvida". O autor afirma que não há alternativa: é preciso conviver mesmo (isto é, inevitavelmente) com o presidencialismo. Já "ainda" expressa tempo ("até agora") ou adição ("além disso"), sentidos que não se aplicam ao contexto. A alternativa extrapola ao atribuir a "mesmo" um valor que ele não tem na frase.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Já o parlamentarismo que vicejou na Europa teria se inspirado na ideologia liberal da Revolução Francesa..."
O comentário afirma que "Já" "introduz ideia que contrasta com a anterior". Isso é exatamente o que ocorre. O parágrafo anterior (2º) fala do presidencialismo latino-americano, marcado pela herança autocrática. O 3º parágrafo inicia com "Já" para introduzir o contraponto: o parlamentarismo europeu, de origem liberal. O "Já" funciona como conectivo adversativo, equivalente a "por outro lado", "ao passo que", "em contrapartida". A alternativa parafraseia com precisão o valor coesivo do termo no contexto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia de palavras como "mesmo", "já" e "cujo", oferecendo comentários que parecem plausíveis, mas atribuem à expressão um sentido que ela não tem no trecho. A armadilha está em analisar a palavra isoladamente, fora do contexto.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de "valor semântico no contexto", grife o trecho e pergunte: "que papel essa palavra exerce aqui?" — se é conectivo, qual relação estabelece (oposição, causa, condição)? Se é verbo, qual tempo/modo e que efeito produz? A resposta está sempre na função que a palavra desempenha naquele trecho específico.
Gabarito: letra E — a única em que o comentário descreve corretamente o valor semântico da expressão no texto, identificando o "Já" como conectivo de contraste.