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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu217833
Banca
VUNESP
Órgão
CM Praia Grande (SP)
Ano
2025
Cargo
Tec Aud (CM Praia Grande)

Singular ocorrência

 

– Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

 

– De preto?

 

– Justamente; lá vai entrando; entrou.

 

– Não diga mais nada. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não há de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz*.

 

– Deve ter quarenta e seis anos.

 

– Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?

 

– Não.

 

– Bem; o marido ainda vive. É velho?

 

– Não é casada.

 

– Solteira?

 

– Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860, florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem luxo, arrastava a muitos, ainda assim.

 

– Por exemplo, ao senhor.

 

– Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos, meio advogado, meio político, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois anos.

 

– Apesar disso, a Marocas...?

 

– É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa, conto- -lhe uma coisa interessante.

 

– Diga.

 

(Machado de Assis. Em: http://www.dominiopublico.gov.br. Adaptado)

 

* de qualidade, excepcional

Leia o texto para responder à questão.     Na história apresentada, a conversa entre os personagens sugere que Marocas era
  1. Auma mulher simples que chamava a atenção de muitos homens, mas fora ignorada por Andrade, que era casado.
  2. Ba mulher por quem os amigos de Andrade se apaixonaram e, para infortúnio de ambos, ela decidiu ficar com o advogado.
  3. Cuma mulher muito bonita com quem Andrade, em tempos passados, havia mantido uma relação extraconjugal.
  4. Da mulher por quem ambos nutriam muita desconfiança por desconhecê-la, sem que soubessem da situação vivida entre ela e Andrade.
  5. Euma mulher bastante exótica e bonita, com quem Andrade resolveu casar-se quando ainda morava na Bahia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — uma mulher muito bonita com quem Andrade, em tempos passados, havia mantido uma relação extraconjugal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A conversa sobre Marocas: inferência e pistas textuais

Gabarito: letra C. A conversa sugere que Marocas era uma mulher muito bonita com quem Andrade, em tempos passados, havia mantido uma relação extraconjugal. A resposta se ancora em duas pistas centrais: a descrição física de Marocas como "esbelta" e "mais linda do que hoje", e a revelação de que Andrade era "casado na Bahia" enquanto se deixava "dominar" por ela — o que configura uma relação fora do casamento. A alternativa C é a única que reúne, sem extrapolar, esses dois elementos presentes no texto.

O comando: interpretação, não compreensão

O enunciado pede o que a conversa sugere — verbo típico de inferência. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de depreender uma conclusão a partir de pistas deixadas pelo autor. Isso muda tudo: a resposta correta não está escrita literalmente, mas é a única logicamente obrigatória diante do que o texto afirma. Alternativas que parecem plausíveis no mundo real, mas que exigem acrescentar informação de fora, são extrapolações e devem ser descartadas.

O texto: o que sabemos sobre Marocas e Andrade

O narrador descreve Marocas como uma mulher que, em 1860, "florescia" e era "esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje". Sobre Andrade, diz que era "casado na Bahia" e que Marocas "dominou-o". A pergunta do interlocutor — "Apesar disso, a Marocas...?" — seguida da confirmação "É verdade, dominou-o", deixa claro que houve uma relação entre eles, apesar do casamento de Andrade. A palavra "apesar" é a chave: ela sinaliza que a relação com Marocas ocorreu contra o que seria esperado de um homem casado. Não há menção a casamento entre eles, nem a desconfiança ou a paixão de outros amigos.

A técnica: inferência com pista, não extrapolação

A inferência legítima se apoia em pressupostos — pistas que o próprio texto deixa. Aqui, a pista é dupla: (1) Andrade era casado e (2) Marocas o dominou. A conclusão de que houve uma relação extraconjugal é a única que concilia esses dois fatos. Qualquer alternativa que acrescente elementos — como a ideia de que Marocas era "simples", que os amigos se apaixonaram, ou que Andrade se casou com ela — está extrapolando, pois o texto não oferece nenhuma base para essas afirmações.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com fatos verdadeiros. As alternativas A, B, D e E pegam elementos reais do texto (a beleza de Marocas, o casamento de Andrade, a admiração de outros) e os combinam de forma inventada, criando histórias que o texto não conta. A correta é a única que se limita ao que as pistas autorizam.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que Marocas era "uma mulher simples que chamava a atenção de muitos homens, mas fora ignorada por Andrade". O texto diz o oposto: Marocas "arrastava a muitos" e dominava Andrade. A palavra "ignorada" contradiz diretamente o trecho "É verdade, dominou-o". Além disso, "simples" é uma opinião embutida — o texto a descreve como esbelta e linda, não como simples.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que "os amigos de Andrade se apaixonaram" e que Marocas "decidiu ficar com o advogado". O texto menciona apenas que ela "arrastava a muitos", o que indica atração, não paixão declarada. E a ideia de que ela "decidiu ficar" com Andrade é uma extrapolação — o texto não narra nenhuma escolha de Marocas. A relação é apresentada como domínio de Marocas sobre Andrade, não como decisão consciente dela.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa C é a única inteiramente sustentada. O texto afirma que Marocas era "esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje" — logo, muito bonita. E sobre Andrade, diz que era "casado na Bahia" e que Marocas "dominou-o". A conjunção "apesar disso" no diálogo confirma que a relação ocorreu apesar do casamento, caracterizando-a como extraconjugal. A expressão "em tempos passados" também se sustenta: a conversa se passa no presente da narrativa, mas Marocas é uma "recordação de outro tempo" — o narrador fala de 1860, e a dama agora tem 46 anos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "desconfiança" e em "desconhecê-la". O texto não menciona desconfiança em nenhum momento. O interlocutor demonstra curiosidade e interesse pela história, não desconfiança. A ideia de que "ambos" não sabiam da situação é uma extrapolação — o narrador claramente conhece a história e a está contando. A alternativa tangencia o tema ao introduzir um sentimento que não existe no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que Andrade "resolveu casar-se" com Marocas. O texto diz explicitamente que Andrade era "casado na Bahia" — e não há nenhuma menção a divórcio, separação ou novo casamento. A alternativa contradiz o texto ao transformar uma relação extraconjugal em casamento. Além disso, "exótica" é uma opinião embutida — o texto a descreve como bonita, não como exótica.

Fechamento: a regra de ouro

Para questões de inferência, teste cada alternativa perguntando: o texto me obriga a concluir isso, ou estou completando com o que imagino? A correta é a única que se apoia em pistas concretas — aqui, a beleza de Marocas e o casamento de Andrade. As demais ou contradizem o texto, ou acrescentam histórias que ele não conta.

Gabarito: letra C

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