Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2025
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu218082
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Doc ( )
O cacto
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da
[estatuária:
Laocoonte* constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.**
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais,
[caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de
[feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro
[horas privou a cidade de iluminação e energia:
– Era belo, áspero, intratável.
(Manuel Bandeira, “O cacto”, As cidades e as musas, 2008)
*Laocoonte: a estátua Grupo de Laocoonte, também conhecida como Lacoonte e seus filhos, representa Laocoonte e seus dois filhos, Antífanes e Timbreu, sendo estrangulados por duas serpentes marinhas, uma lenda da Guerra de Troia também relatada na Eneida de Virgílio.
** Ugolino e seus filhos: escultura de mármore em que se retrata a história de Ugolino, conde do século 13, preso e morrendo de fome com seus filhos.
Na 1ª e na 2ª estrofe do poema, predominam, correta e respectivamente, os seguintes tipos textuais:
Ainjunção e narração.
Bnarração e injunção.
Cdescrição e narração.
Ddescrição e dissertação.
Edissertação e injunção.
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GabaritoC — descrição e narração.
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Tipologia textual: descrição e narração no poema de Bandeira
Gabarito: letra C. Na 1ª estrofe, o eu lírico caracteriza o cacto — compara-o a obras de arte, evoca o Nordeste, diz que era enorme —, o que configura descrição; na 2ª estrofe, há uma sequência de ações (o tufão abateu, o cacto tombou, quebrou, impediu, arrebentou, privou), típica da narração. A passagem que ancora a descrição é "Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária" e, para a narração, "Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz".
O comando pede que você identifique, correta e respectivamente, os tipos textuais predominantes na 1ª e na 2ª estrofe. Isso é uma questão de tipologia textual — não de gênero. A tipologia se define pela intenção comunicativa e pela estrutura linguística: a descrição caracteriza (pausa no tempo, adjetivação, verbos de estado), a narração relata ações em sequência (verbos de ação, progressão temporal). O poema é um gênero lírico, mas pode conter trechos descritivos e narrativos — e é isso que a banca quer que você perceba.
Na 1ª estrofe, o eu lírico não conta uma história; ele pinta um retrato do cacto. Veja: "Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária" — comparação; "Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas" — associação; "Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais" — caracterização com verbo de estado ("era") e adjetivo ("enorme"). Não há progressão temporal, não há ações encadeadas; há uma pausa para descrever o objeto. Isso é a essência da descrição: caracterizar, pormenorizar, apresentar qualidades.
Na 2ª estrofe, o cenário muda: "Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz. O cacto tombou atravessado na rua, Quebrou os beirais do casario fronteiro, Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças, Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia". Aqui há verbos de ação (abateu, tombou, quebrou, impediu, arrebentou, privou) em sequência cronológica, com um antes e depois (o tufão age, o cacto cai, causa estragos). Isso é narração: relatar fatos em progressão temporal.
A armadilha central desta questão é a confusão entre descrição e narração. Muitos candidatos, ao verem um poema, pensam que é sempre lírico e não pode haver narração; outros confundem a descrição do cacto com uma "história" e marcam narração na 1ª estrofe. A banca também oferece injunção (instruções, ordens) e dissertação (defesa de tese) como distratores, que nada têm a ver com o texto. A técnica é: pergunte-se qual é a intenção predominante — caracterizar (descrição) ou relatar ações (narração)?
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre descrição e narração, oferecendo alternativas que invertem a ordem (A e B) ou trocam por tipos não predominantes (injunção, dissertação). Fique atento: a 1ª estrofe é estática (caracteriza), a 2ª é dinâmica (relata ações).
PEGA ESSA DICA!
Para distinguir descrição de narração, pergunte: "há progressão temporal?" Se sim, é narração; se não, é descrição. Na dúvida, procure verbos de ação (narração) versus verbos de estado e adjetivos (descrição).
Tipologia textual: Descrição (Caracteriza (pausa no tempo), Verbos de estado e adjetivos, Ex.: "Era enorme"); Narração (Relata ações em sequência, Verbos de ação, progressão temporal, Ex.: "abateu", "tombou", "quebrou"); Injunção (Instrui, prescreve, dá ordens, Ex.: manuais, receitas); Dissertação (Defende tese, argumenta, Ex.: artigos de opinião)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Injunção e narração. A injunção é um tipo textual que instrui, prescreve, dá ordens — típico de manuais, receitas, bulas. Na 1ª estrofe não há nenhuma instrução; há caracterização do cacto. A 2ª estrofe, de fato, é narrativa, mas a 1ª não é injuntiva. Erro: troca de conceito — confunde descrição com injunção.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Narração e injunção. A 1ª estrofe não narra; ela descreve o cacto ("Aquele cacto lembrava...", "Era enorme..."). A 2ª estrofe não instrui; ela relata a queda do cacto. Erro: troca de conceito — inverte a ordem e ainda usa tipos inadequados.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descrição e narração. A 1ª estrofe é descritiva: caracteriza o cacto com comparações, associações e adjetivos, sem progressão temporal. A 2ª estrofe é narrativa: apresenta uma sequência de ações (abateu, tombou, quebrou, impediu, arrebentou, privou) com relação de antes e depois. É a única alternativa que identifica corretamente os dois tipos, na ordem pedida.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Descrição e dissertação. A 1ª estrofe é, de fato, descritiva, mas a 2ª não é dissertativa. A dissertação defende uma tese, argumenta, convence — não há isso no texto. A 2ª estrofe narra um acontecimento. Erro: troca de conceito — confunde narração com dissertação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Dissertação e injunção. Nenhuma das duas estrofes é dissertativa (não há tese nem argumentação) nem injuntiva (não há instruções). A 1ª é descritiva e a 2ª é narrativa. Erro: troca de conceito — usa tipos totalmente ausentes do texto.
Conclusão: a chave é identificar a intenção predominante de cada estrofe: caracterizar (descrição) versus relatar ações (narração). A alternativa C é a única que acerta os dois tipos, na ordem correta. Gabarito: letra C.