Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2025
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu218085
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Doc ( )
Brasil larga bem na corrida da energia verde
No recém-lançado relatório anual do Fórum Econômico Mundial sobre transição energética, o Brasil figura na 15a posição num ranking com 118 países, à frente dos países latino-americanos e de potências como Reino Unido e Estados Unidos. Metade da matriz energética brasileira provém de fontes renováveis – mais de três vezes a média global, em torno de 14,3%. O País dispõe de abundantes recursos naturais, hidrelétricas de grande porte, biomassa diversificada e um vasto potencial em hidrogênio verde e biocombustíveis. Seu patrimônio ambiental, sobretudo a Amazônia, ainda que sob pressão, agrega valor estratégico ao mercado de créditos de carbono e serviços ambientais.
Apesar dessas vantagens, a transição energética brasileira enfrenta desafios estruturais profundos. A expansão da geração renovável esbarra em gargalos na infraestrutura de transmissão e distribuição. Projetos bilionários aguardam conexão à rede elétrica, mas o atraso em investimentos e o excesso de burocracia reduzem a eficiência do sistema.
A insegurança regulatória e as divergências entre órgãos públicos minam a confiança dos investidores.
A regulamentação do mercado de carbono ainda é inconsistente e permeada por interesses conflitantes, comprometendo a eficiência dos créditos e a atração de investimentos para projetos sustentáveis, especialmente no combate ao desmatamento, principal fonte emissora no País. Um sistema transparente e rigoroso pode alavancar o papel do Brasil como líder global na oferta de soluções ambientais e financeiras, fortalecendo sua imagem internacional e gerando receita para o desenvolvimento social e ambiental.
Ademais, a transição demanda mais que simplesmente substituir fontes. Exige integração tecnológica, políticas públicas coerentes e estabilidade regulatória que incentivem investimentos em pesquisa, inovação e qualificação da mão de obra. Será necessário ampliar a infraestrutura, incluindo a modernização das redes elétricas e o apoio a soluções de armazenamento e digitalização, para garantir confiabilidade e eficiência ante as oscilações das fontes renováveis.
A posição de destaque em rankings como o do Fórum Econômico Mundial evidencia que o Brasil tem condições materiais para ser protagonista da transição energética global. Mas a trajetória dependerá da habilidade em superar desafios complexos: infraestrutura deficiente, conflitos regulatórios, equilíbrio socioeconômico e governança ambiental eficaz. O sucesso exigirá a combinação de políticas robustas, investimento privado qualificado e a capacidade de construir consensos em torno de uma agenda clara e coerente.
Assim, o Brasil poderá não apenas consolidar sua posição atual, mas transformar-se em exemplo mundial de como é possível avançar na transição energética de forma equilibrada, inteligente e inclusiva, num caminho que respeite tanto o meio ambiente quanto as necessidades humanas, garantindo sustentabilidade integral – ambiental e social – para as próximas gerações.
(O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/ brasil-larga-bem-na-corrida-da-energia-verde/. Adaptado)
Considerando a configuração textual e o tratamento das informações, conclui-se que o gênero textual é
Auma crônica reflexiva, em que se contrapõem diferentes contextos em relação à transição energética e na qual se explora como o Brasil pode ter vantagem em cada um deles.
Buma reportagem, em que se destaca a inviabilidade da transição energética no Brasil pelo fato de o país carecer de tecnologia e mão de obra qualificada.
Cum artigo de opinião, em que se exalta o protagonismo do Brasil para realizar a transição energética, uma vez que nada obsta à sustentabilidade integral.
Dum editorial, em que se analisa a possibilidade de o Brasil assumir o protagonismo na transição energética, o que exige a superação de desafios estruturais.
Euma notícia, em que se apresentam a situação atual do Brasil quanto à transição energética e os desafios que o país enfrenta para que ela se efetive brevemente.
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GabaritoD — um editorial, em que se analisa a possibilidade de o Brasil assumir o protagonismo na transição energética, o que exige a superação de desafios estruturais.
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Gênero textual: editorial de jornal
Gabarito: letra D. O texto é um editorial porque analisa, com base em dados e argumentos, a possibilidade de o Brasil assumir o protagonismo na transição energética, condicionando esse papel à superação de desafios estruturais — exatamente o que a alternativa D afirma. A passagem que ancora essa leitura está no penúltimo parágrafo: "A posição de destaque em rankings como o do Fórum Econômico Mundial evidencia que o Brasil tem condições materiais para ser protagonista da transição energética global. Mas a trajetória dependerá da habilidade em superar desafios complexos: infraestrutura deficiente, conflitos regulatórios, equilíbrio socioeconômico e governança ambiental eficaz."
O comando: identificar o gênero pela configuração e pelo tratamento das informações
A questão pede que você reconheça o gênero textual a partir de dois critérios: a configuração (estrutura, linguagem, marcas textuais) e o tratamento das informações (como o autor lida com os dados e o tema). Isso significa que a resposta não está em uma palavra solta, mas na intenção comunicativa que organiza o texto. O gênero é definido pela função social que o texto cumpre, e não apenas pela forma. Aqui, o texto é publicado na seção de opinião de um jornal (O Estado de S.Paulo), tem caráter analítico e argumentativo, e expressa o posicionamento institucional do veículo — marcas típicas do editorial.
O texto: tese, argumentos e o movimento que decide a questão
O texto parte de um dado positivo (a 15ª posição do Brasil no ranking do Fórum Econômico Mundial) e, em seguida, apresenta os desafios que precisam ser superados para que o país consolide sua posição. O autor não apenas informa; ele defende uma tese: o Brasil tem potencial para ser protagonista, mas isso depende da superação de obstáculos estruturais. Essa estrutura — apresentar uma situação, analisar seus desafios e concluir com uma projeção condicionada — é a espinha dorsal do editorial. Veja como o texto se organiza:
1º parágrafo: apresenta o dado positivo (posição no ranking, matriz renovável, recursos naturais).
2º ao 4º parágrafo: elenca os desafios (infraestrutura, burocracia, insegurança regulatória, mercado de carbono).
5º parágrafo: amplia a discussão para a necessidade de integração tecnológica e políticas públicas.
6º parágrafo: sintetiza a tese: o Brasil tem condições, mas a trajetória depende de superar desafios.
7º parágrafo: conclui com uma projeção condicionada ("poderá não apenas consolidar sua posição atual, mas transformar-se em exemplo mundial").
Esse movimento de análise + tese + projeção é o que caracteriza o editorial, que se distingue da notícia (que apenas informa) e do artigo de opinião (que defende um ponto de vista pessoal e assinado).
A técnica: como diferenciar editorial, artigo de opinião, notícia, reportagem e crônica
A pegadinha central desta questão é a confusão entre gêneros jornalísticos. Para acertar, você precisa dominar as diferenças:
Gênero
Função principal
Marca distintiva
Editorial
Analisar e opinar institucionalmente
Não é assinado; expressa a posição do veículo; analisa fatos e projeta cenários
Artigo de opinião
Defender um ponto de vista pessoal
É assinado; a opinião é do autor, não do jornal
Notícia
Informar objetivamente
Relato factual, sem opinião; estrutura de pirâmide invertida
Reportagem
Aprofundar um tema com investigação
Mais extensa que a notícia; pode conter opiniões de fontes, mas não do repórter
Crônica
Narrar o cotidiano com tom subjetivo
Texto curto, com marcas de subjetividade e, muitas vezes, humor
No texto em questão, não há assinatura (o que afasta o artigo de opinião), não há relato factual puro (o que afasta a notícia), não há investigação jornalística (o que afasta a reportagem) e não há narrativa do cotidiano (o que afasta a crônica). Há, sim, uma análise institucional que projeta um cenário futuro condicionado a desafios — típico do editorial.
Gêneros jornalísticos: Informativo (Notícia (fato objetivo), Reportagem (investigação)); Opinativo (Editorial (posição do veículo), Artigo de opinião (posição do autor)); Narrativo (Crônica (cotidiano subjetivo))
Alternativa A — ❌ Incorreta
"uma crônica reflexiva, em que se contrapõem diferentes contextos em relação à transição energética e na qual se explora como o Brasil pode ter vantagem em cada um deles."
A alternativa tangencia o tema ao falar em "contraposição de contextos" e "vantagem em cada um deles", mas o texto não é uma crônica. A crônica é um gênero narrativo, com marcas de subjetividade e, geralmente, tom coloquial. O texto em questão é analítico e impessoal, sem narrador, sem enredo e sem a leveza típica da crônica. Além disso, o texto não "contrapõe contextos" para explorar vantagens; ele apresenta desafios que precisam ser superados.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"uma reportagem, em que se destaca a inviabilidade da transição energética no Brasil pelo fato de o país carecer de tecnologia e mão de obra qualificada."
A alternativa contradiz o texto em dois pontos. Primeiro, o texto não afirma que a transição é inviável; pelo contrário, diz que o Brasil "tem condições materiais para ser protagonista". Segundo, o texto não diz que o país carece de tecnologia e mão de obra qualificada; ele afirma que será necessário "ampliar a infraestrutura" e investir em "pesquisa, inovação e qualificação da mão de obra" — ou seja, há um caminho a percorrer, não uma carência absoluta. Além disso, o texto não é uma reportagem, pois não há investigação jornalística nem pluralidade de fontes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"um artigo de opinião, em que se exalta o protagonismo do Brasil para realizar a transição energética, uma vez que nada obsta à sustentabilidade integral."
A alternativa extrapola ao afirmar que "nada obsta à sustentabilidade integral". O texto, ao contrário, dedica vários parágrafos aos obstáculos: "A expansão da geração renovável esbarra em gargalos na infraestrutura de transmissão e distribuição", "A insegurança regulatória e as divergências entre órgãos públicos minam a confiança dos investidores". Além disso, o texto não é um artigo de opinião assinado; é um editorial, que expressa a posição institucional do jornal.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"um editorial, em que se analisa a possibilidade de o Brasil assumir o protagonismo na transição energética, o que exige a superação de desafios estruturais."
A alternativa D é a única inteiramente sustentada pelo texto. O editorial analisa (não apenas informa) a possibilidade de o Brasil assumir o protagonismo, e essa análise é condicionada à superação de desafios estruturais. A passagem que prova isso está no penúltimo parágrafo:
"A posição de destaque em rankings como o do Fórum Econômico Mundial evidencia que o Brasil tem condições materiais para ser protagonista da transição energética global. Mas a trajetória dependerá da habilidade em superar desafios complexos: infraestrutura deficiente, conflitos regulatórios, equilíbrio socioeconômico e governança ambiental eficaz."
O texto não é assinado, o que é uma marca do editorial. Ele expressa a posição do veículo (O Estado de S.Paulo) sobre um tema da agenda pública, analisando dados e projetando um cenário futuro. Tudo isso confirma o gênero editorial.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"uma notícia, em que se apresentam a situação atual do Brasil quanto à transição energética e os desafios que o país enfrenta para que ela se efetive brevemente."
A alternativa restringe o texto ao classificá-lo como notícia. A notícia tem função meramente informativa, com linguagem objetiva e impessoal, sem opinião. O texto em questão, porém, é claramente opinativo: defende uma tese (o Brasil pode ser protagonista, mas precisa superar desafios) e projeta um cenário futuro ("poderá não apenas consolidar sua posição atual, mas transformar-se em exemplo mundial"). Essa projeção e essa defesa de ponto de vista não cabem na notícia, que se limita a relatar fatos.
Fechamento: a regra de ouro para identificar o gênero
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o gênero, pergunte-se: qual é a função social do texto? Informar (notícia), aprofundar (reportagem), opinar pessoalmente (artigo), opinar institucionalmente (editorial) ou narrar o cotidiano (crônica)? A resposta está na intenção comunicativa, não na forma.
Nesta questão, a presença de tese + argumentos + projeção condicionada, sem assinatura, aponta inequivocamente para o editorial. As demais alternativas ou contradizem o texto (B), ou extrapolam (C), ou restringem o alcance (E), ou tangenciam o tema (A).