Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — VUNESP 2025
Português›Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
vu218106
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
V - - Doc ( )
Capítulo XX / Mil padre-nossos e mil ave-marias
Levantei os olhos ao céu, que começava a embruscar-se, mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma; era ao meu refúgio, ao meu amigo. E então disse de mim para mim: “Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário”.
A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padre- nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinquenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas.
“Mil, mil”, repeti comigo.
Realmente, a matéria do benefício era agora imensa, não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Mil, mil, mil. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro... Homem grave, é possível que estas agitações de menino te enfadem, se é que não as achas ridículas. Sublimes não eram. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. Mandar dizer cem missas, ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma, ir à Terra Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma...
(Machado de Assis, Dom Casmurro)
Assinale a alternativa que atende à norma-padrão de regência nominal e concordância verbal.
AQuando percebi, tive consciência que haviam muitas promessas não cumpridas.
BNão tendo zelo por meus pedidos, restam-me preocupações para solucionar as dívidas.
COs meus esquecimentos às dívidas por pedido feito deveria certamente irritar Deus.
DExiste pessoas que ficam ansiosas de suas dívidas divinas, quando aumentam rápido.
EÀs vezes, acontecia os pedidos feitos por mim, mas não cuidava em pagá-los logo.
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GabaritoB — Não tendo zelo por meus pedidos, restam-me preocupações para solucionar as dívidas.
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Regência nominal e concordância verbal: a frase que atende à norma-padrão
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que respeita simultaneamente a regência nominal e a concordância verbal: o verbo "restam" concorda com o sujeito plural "preocupações" (posposto ao verbo), e o nome "zelo" rege a preposição "por" (zelo por algo), exatamente como empregado. As demais alternativas apresentam desvios claros: a letra A usa "haviam" com sentido de existir (verbo impessoal, deve ficar no singular), a letra C erra a concordância do verbo "deveria" com o sujeito composto, a letra D erra a concordância de "existe" com o sujeito plural e a letra E erra a concordância de "acontecia" com o sujeito plural. A questão é de gramática normativa, e a resposta se prova pela aplicação das regras de concordância verbal e de regência nominal a cada frase.
O comando da questão
O enunciado pede a alternativa que "atende à norma-padrão de regência nominal e concordância verbal". Isso significa que a frase correta deve estar perfeita em dois aspectos: (1) a regência nominal — a preposição exigida por um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) — e (2) a concordância verbal — a flexão do verbo em número e pessoa de acordo com o sujeito. Não se trata de interpretação de texto, mas de aplicação de regras gramaticais. O texto-base de Machado de Assis serve apenas como ponto de partida temático; a correção gramatical das alternativas é avaliada em si mesma, independentemente do conteúdo do texto.
O que é regência nominal?
Regência nominal é a relação de dependência entre um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) e seu complemento, que vem introduzido por uma preposição. Cada nome exige uma preposição específica. Por exemplo:
zelo por algo/alguém (substantivo "zelo" + preposição "por")
medo de algo
ansioso por algo
esquecimento de algo
Na alternativa B, temos "zelo por meus pedidos" — o substantivo "zelo" rege a preposição "por", o que está correto. Já na alternativa D, "ansiosas de suas dívidas" está errado: o adjetivo "ansioso" rege a preposição "por" (ansioso por algo), não "de".
O que é concordância verbal?
Concordância verbal é a flexão do verbo em número (singular/plural) e pessoa (1ª, 2ª, 3ª) para concordar com o sujeito. As regras principais:
O verbo concorda com o núcleo do sujeito em número e pessoa.
Quando o sujeito está posposto ao verbo, o verbo concorda com ele mesmo assim.
Verbos impessoais (como "haver" no sentido de existir) ficam na 3ª pessoa do singular.
Na alternativa B, "restam-me preocupações" — o sujeito é "preocupações" (plural), posposto ao verbo, então o verbo "restam" está corretamente no plural. Já na alternativa A, "haviam muitas promessas" está errado: o verbo "haver" no sentido de existir é impessoal e deve ficar no singular ("havia muitas promessas").
A pegadinha da banca
A banca mistura dois tópicos gramaticais — regência nominal e concordância verbal — e cada alternativa errada contém um desvio específico. A pegadinha central é que algumas alternativas parecem corretas à primeira vista, mas escondem um erro de concordância ou de regência. Por exemplo, a letra C tem um erro de concordância ("deveria" com sujeito composto), e a letra E tem um erro de concordância ("acontecia" com sujeito plural). A letra D tem erro de regência ("ansiosas de" em vez de "ansiosas por") e de concordância ("existe" com sujeito plural).
Análise das alternativas
Regência nominal: zelo por algo; ansioso por algo; esquecimento de algo; cuidar de algo; Concordância verbal (Verbo concorda com o núcleo do sujeito, Sujeito posposto: verbo concorda mesmo assim, Haver (existir): impessoal, fica no singular)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: concordância verbal com verbo impessoal.
A frase "Quando percebi, tive consciência que haviam muitas promessas não cumpridas" usa o verbo "haver" no sentido de existir. Nesse caso, o verbo "haver" é impessoal — não tem sujeito — e deve ficar na 3ª pessoa do singular: "havia muitas promessas". O correto seria: "tive consciência de que havia muitas promessas não cumpridas". Além disso, há um desvio de regência: "consciência de que" (com a preposição "de"), não "consciência que".
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Regência nominal e concordância verbal corretas.
A frase "Não tendo zelo por meus pedidos, restam-me preocupações para solucionar as dívidas" está correta em dois aspectos:
Regência nominal: "zelo por meus pedidos" — o substantivo "zelo" rege a preposição "por", como em "zelo por algo".
Concordância verbal: "restam-me preocupações" — o sujeito é "preocupações" (plural), posposto ao verbo, então o verbo "restam" está corretamente no plural.
A frase é gramaticalmente perfeita.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: concordância verbal com sujeito composto.
A frase "Os meus esquecimentos às dívidas por pedido feito deveria certamente irritar Deus" tem um erro de concordância: o sujeito é composto — "os meus esquecimentos às dívidas por pedido feito" — e o verbo "deveria" está no singular. O correto seria "deveriam" (plural). Além disso, há um desvio de regência: "esquecimento de algo" (com a preposição "de"), não "esquecimento às dívidas".
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erros: concordância verbal e regência nominal.
A frase "Existe pessoas que ficam ansiosas de suas dívidas divinas, quando aumentam rápido" tem dois erros:
Concordância verbal: "existe" com sujeito plural "pessoas" — o correto seria "existem pessoas".
Regência nominal: "ansiosas de suas dívidas" — o adjetivo "ansioso" rege a preposição "por" (ansioso por algo), não "de". O correto seria "ansiosas por suas dívidas".
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: concordância verbal com sujeito posposto.
A frase "Às vezes, acontecia os pedidos feitos por mim, mas não cuidava em pagá-los logo" tem um erro de concordância: o sujeito é "os pedidos feitos por mim" (plural), posposto ao verbo, então o verbo "acontecia" deveria estar no plural: "aconteciam os pedidos". Além disso, há um desvio de regência: "cuidar de algo" (com a preposição "de"), não "cuidar em algo". O correto seria "não cuidava de pagá-los".
Conclusão
A alternativa B é a única que atende à norma-padrão de regência nominal e concordância verbal. Para resolver questões assim, teste cada frase em dois passos: (1) identifique o sujeito e verifique se o verbo concorda em número e pessoa; (2) verifique se a preposição usada após cada nome é a exigida pela regência nominal. A banca adora misturar esses dois tópicos, então fique atento a cada detalhe.