Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218173
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2025
Cargo
CF/CM ( )
Leia o texto, para responder à questão.
Declaração de bens
Só tenho palavras
para o indizível.
Só tenho voz
para emudecer.
Só trago nome
para o que nunca nasceu.
Uma única certeza
demora em mim:
o que em nós já foi menino
não envelhecerá nunca.
(Mia Couto, Poemas escolhidos.)
É correto concluir que o título “Declaração de bens” sinaliza a ideia, expressa no poema, de que, para o eu lírico,
Asomente o que pôde viver se eternizou em seu espírito, razão pela qual ele nega a própria identidade.
Bo que ele está certo de deter consigo e declara é o sentimento de permanência da essência infantil.
Cjá se perdeu o que conseguiu acumular como resultado das vivências da infância.
Dsua experiência de vida foi baseada em frustrações que ele, já adulto, procura esquecer.
Eé preferível calar quando não consegue nomear as emoções já perdidas no tempo.
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GabaritoB — o que ele está certo de deter consigo e declara é o sentimento de permanência da essência infantil.
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Interpretação do título "Declaração de bens" no poema de Mia Couto
Gabarito: letra B. O título "Declaração de bens" sinaliza que o eu lírico declara, como seu único bem, a certeza da permanência da essência infantil — ideia expressa nos versos finais: "Uma única certeza / demora em mim: / o que em nós já foi menino / não envelhecerá nunca." A alternativa B é a única que capta essa certeza (o que ele "está certo de deter") e a permanência ("não envelhecerá nunca"), sem acrescentar nada que o texto não diga.
O comando pede uma conclusão — ou seja, uma inferência ancorada no texto, não uma informação literal. O título "Declaração de bens" é metafórico: o eu lírico não declara bens materiais, mas aquilo que considera seu patrimônio íntimo. Para resolver, é preciso identificar o que o poema afirma que o eu lírico possui e qual é a natureza desse bem.
O poema é construído por paradoxos: "Só tenho palavras / para o indizível", "Só tenho voz / para emudecer", "Só trago nome / para o que nunca nasceu". Essas estrofes mostram a limitação da linguagem diante do que é profundo ou inexistente. Mas a virada está na última estrofe: "Uma única certeza / demora em mim: / o que em nós já foi menino / não envelhecerá nunca." Aqui, o eu lírico declara o que de fato possui: uma certeza — a de que a criança interior permanece viva, imune ao tempo.
A técnica que decide a questão é testar cada alternativa contra o alcance exato do texto. A correta (B) parafraseia a última estrofe: "o que ele está certo de deter" = "Uma única certeza"; "sentimento de permanência" = "não envelhecerá nunca"; "essência infantil" = "o que em nós já foi menino". As demais ou extrapolam (inventam frustrações, perdas, negação de identidade) ou contradizem o texto (a ideia de que "já se perdeu" o que foi vivido, quando o poema afirma o contrário).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que soam poéticas e plausíveis (como a A e a E), mas que acrescentam sentimentos (negação da identidade, frustrações, preferência por calar) que não estão no texto. A única que se limita ao que o poema diz é a B.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Só tenho palavras / para o indizível."
O texto mostra o eu lírico reconhecendo os limites da linguagem, mas não diz que ele "nega a própria identidade". A alternativa extrapola: inventa uma negação de identidade que não há no poema. Além disso, "somente o que pôde viver se eternizou" contradiz a última estrofe, que afirma que o que não envelhece é a essência infantil — não algo que "pôde viver" no sentido de experiências acumuladas.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Uma única certeza / demora em mim: / o que em nós já foi menino / não envelhecerá nunca."
A alternativa parafraseia com fidelidade: "o que ele está certo de deter" = "Uma única certeza"; "sentimento de permanência" = "não envelhecerá nunca"; "essência infantil" = "o que em nós já foi menino". O título "Declaração de bens" se conecta exatamente a isso: o eu lírico declara, como bem, essa certeza de permanência. Nada é acrescentado ou suprimido.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"o que em nós já foi menino / não envelhecerá nunca."
A alternativa contradiz o texto: afirma que "já se perdeu o que conseguiu acumular", mas o poema diz o oposto — a essência infantil não envelhece, ou seja, não se perde. A palavra "perdeu" inverte o sentido central do poema.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa extrapola completamente: o poema não menciona "frustrações", nem diz que o eu lírico "procura esquecer" algo. É uma interpretação subjetiva, sem nenhuma pista textual que a sustente. O texto fala de certeza e permanência, não de frustração e esquecimento.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Só tenho palavras / para o indizível."
A alternativa tangencia o tema: aproveita a ideia de limitação da linguagem ("Só tenho palavras / para o indizível") para sugerir que o eu lírico "prefere calar". Mas o texto não expressa preferência por calar — ele apenas constata a insuficiência das palavras. Além disso, "emoções já perdidas no tempo" contradiz a última estrofe, que afirma a permanência da essência infantil.
Conclusão: a questão se resolve pelo princípio da paráfrase fiel: a alternativa correta é a que reescreve, com outras palavras, exatamente o que o texto diz — sem acrescentar (extrapolação), sem suprimir (restrição) e sem inverter (contradição). A B é a única que faz isso.