Para responder à questão, atenha-se às três primeiras estrofes do poema. O emprego do advérbio “Só”, no início de três estrofes do poema, deixa
Aimplícita a opção de o eu lírico expressar-se com poucas palavras para se fazer entender.
Bpressuposta a afirmação de que o eu lírico está convencido de ter atingido a maturidade.
Csubentendida a ideia de que há coisas que não se dizem para não ofender alguém.
Dsubentendida a intenção de afirmar a importância da vida adulta, que o eu lírico almeja.
Epressuposta a exclusão de outras formas de o eu lírico lidar com a linguagem.
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GabaritoE — pressuposta a exclusão de outras formas de o eu lírico lidar com a linguagem.
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O valor semântico do advérbio “Só” no poema de Mia Couto
Gabarito: letra E. O emprego do advérbio “Só”, no início de três estrofes, pressupõe a exclusão de outras formas de o eu lírico lidar com a linguagem — é exatamente o que a palavra “só” carrega em seu sentido: restrição, exclusão. Como se lê na 1ª estrofe, “Só tenho palavras / para o indizível” — o “só” indica que o eu lírico não tem outra coisa além de palavras; ele não tem gestos, não tem silêncio, não tem outra via. A alternativa E é a única que capta esse valor de exclusão que o advérbio impõe.
O comando: o que a banca pede
A questão pede que você se atenha às três primeiras estrofes e analise o efeito de sentido do advérbio “Só”. Repare no verbo do enunciado: “deixa”. Isso indica que a resposta está no campo da pressuposição e do subentendido — ou seja, não é algo dito explicitamente, mas algo que a palavra carrega ou que o contexto sugere. A banca quer que você distinga:
Pressuposto: aquilo que está marcado linguisticamente — no caso, o “só” já traz em si a ideia de exclusão. Quem diz “só tenho palavras” pressupõe que não tem outras coisas (não tem gestos, não tem silêncio, não tem outra forma de expressão).
Subentendido: aquilo que depende do contexto e da intenção do autor — é uma leitura possível, mas não obrigatória.
A alternativa E fala em “pressuposta a exclusão de outras formas de o eu lírico lidar com a linguagem” — exatamente o valor semântico do advérbio. As demais ou extrapolam (A, C, D) ou contradizem o texto (B).
O texto: o que o poema diz
O poema é uma declaração de bens — mas uma declaração irônica, porque o eu lírico diz que só tem o que não serve para declarar: palavras para o indizível, voz para emudecer, nome para o que nunca nasceu. Há uma contradição aparente (palavras para o indizível, voz para emudecer) que reforça a ideia de que a linguagem é insuficiente, mas é tudo o que ele tem. A única certeza que permanece é a da infância que não envelhece.
Nas três primeiras estrofes, o “Só” aparece em posição de destaque, no início de cada uma:
“Só tenho palavras / para o indizível.” “Só tenho voz / para emudecer.” “Só trago nome / para o que nunca nasceu.”
Em cada caso, o “só” restringe o que o eu lírico possui: apenas palavras, apenas voz, apenas nome. Não há outra coisa. Essa repetição cria um paralelismo que reforça a exclusão: ele não tem mais nada além disso.
A técnica: como o “só” funciona
O advérbio “só” é classificado como advérbio de exclusão (ou palavra denotativa de exclusão). Ele restringe o sentido do termo a que se refere. Veja:
“Só tenho palavras” = não tenho outra coisa além de palavras.
“Só tenho voz” = não tenho outro recurso além da voz.
“Só trago nome” = não trago outra coisa além de nome.
Essa restrição é o que chamamos de pressuposição: ao dizer “só tenho palavras”, o eu lírico pressupõe que existem outras formas de lidar com a linguagem (gestos, silêncio, música, etc.) e que ele não as tem. A alternativa E capta exatamente isso: “a exclusão de outras formas de o eu lírico lidar com a linguagem”.
Análise das alternativas
Advérbio "Só": Valor semântico (Exclusão, Restrição); Pressuposição (Existem outras formas de lidar com a linguagem, O eu lírico não as possui); Efeito no poema ("Só tenho palavras", "Só tenho voz", "Só trago nome")
Alternativa A — ❌ Incorreta
“implícita a opção de o eu lírico expressar-se com poucas palavras para se fazer entender.”
Erro: extrapolação. O texto não diz que o eu lírico quer “se fazer entender” nem que usa poucas palavras por opção. O “só” indica falta, não escolha deliberada. Além disso, a ideia de “se fazer entender” é contraditória com o poema, que fala do indizível e do emudecer — não há intenção de comunicação clara. A alternativa acrescenta uma motivação (opção, intenção de entender) que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“pressuposta a afirmação de que o eu lírico está convencido de ter atingido a maturidade.”
Erro: contradiz o texto. O poema afirma exatamente o contrário: “o que em nós já foi menino / não envelhecerá nunca”. O eu lírico valoriza a infância que permanece, não a maturidade. Não há nenhuma pista de que ele se considera maduro; pelo contrário, a “única certeza” é a da permanência da criança interior. A alternativa inverte o sentido do poema.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“subentendida a ideia de que há coisas que não se dizem para não ofender alguém.”
Erro: extrapolação. O texto fala do indizível, mas não por receio de ofender alguém. O “indizível” é aquilo que não pode ser dito por sua natureza (o que nunca nasceu, o que é inefável), não por uma questão de delicadeza ou medo de magoar. A alternativa introduz um motivo (não ofender) que não tem nenhuma base no poema.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“subentendida a intenção de afirmar a importância da vida adulta, que o eu lírico almeja.”
Erro: contradiz o texto. O eu lírico não almeja a vida adulta; ele celebra a infância que não envelhece. A alternativa inverte o valor central do poema. Além disso, não há nenhuma “intenção de afirmar a importância da vida adulta” — o texto faz o oposto.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“pressuposta a exclusão de outras formas de o eu lírico lidar com a linguagem.”
Correta. O advérbio “só” tem valor de exclusão/restrição. Ao dizer “só tenho palavras”, “só tenho voz”, “só trago nome”, o eu lírico pressupõe que existem outras formas de lidar com a linguagem (gestos, silêncio, música, etc.) e que ele não as possui. Essa exclusão é o efeito de sentido que o “só” produz. A alternativa usa o termo técnico “pressuposta”, que é exatamente o caso: a exclusão está marcada linguisticamente pela palavra “só”.
Fechamento
A questão testa sua capacidade de distinguir pressuposição de subentendido e de reconhecer o valor semântico de um advérbio no contexto. A palavra “só” é uma das mais cobradas em provas justamente porque pode ser advérbio, adjetivo ou palavra denotativa — aqui, é advérbio de exclusão. Lembre-se: pressuposto é o que a palavra carrega; subentendido é o que o contexto sugere. A alternativa E é a única que se ancora no valor linguístico do “só”, sem acrescentar nada de fora.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver “só” em um texto, pergunte-se: “o que ele exclui?”. A resposta é a pressuposição. No poema, ele exclui tudo o que não seja palavras, voz e nome — ou seja, outras formas de lidar com a linguagem.