Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218175
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2025
Cargo
CF/CM ( )
Leia o texto, para responder à questão.
Declaração de bens
Só tenho palavras
para o indizível.
Só tenho voz
para emudecer.
Só trago nome
para o que nunca nasceu.
Uma única certeza
demora em mim:
o que em nós já foi menino
não envelhecerá nunca.
(Mia Couto, Poemas escolhidos.)
Para responder à questão, atenha-se às três primeiras estrofes do poema. O efeito de sentido produzido pela relação entre as declarações do primeiro e do segundo verso dessas estrofes pode ser traduzido pela palavra
Areceio.
Bsolidão.
Cprecaução.
Dintranquilidade.
Eimpossibilidade.
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GabaritoE — impossibilidade.
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O paradoxo da impossibilidade: a relação entre os dois primeiros versos
Gabarito: letra E. O efeito de sentido produzido pela relação entre as declarações do primeiro e do segundo verso das três primeiras estrofes é o de impossibilidade: o eu lírico declara possuir um instrumento (palavras, voz, nome) justamente para realizar a ação contrária à sua função natural (dizer o indizível, emudecer, nomear o que nunca nasceu). A alternativa E é a única que traduz essa contradição interna — a posse de um meio que serve ao fim oposto.
O comando pede que você se atenha às três primeiras estrofes e identifique o efeito de sentido da relação entre o 1º e o 2º verso de cada uma. Isso não é uma questão de localizar informação explícita, mas de inferir a ideia que nasce do contraste entre as duas declarações. Vejamos o que cada estrofe constrói:
"Só tenho palavras / para o indizível."
"Só tenho voz / para emudecer."
"Só trago nome / para o que nunca nasceu."
Em todas, a estrutura é idêntica: tenho X para Y, em que Y é o oposto da função natural de X. Palavras servem para dizer; aqui, servem para o que não se pode dizer. Voz serve para falar; aqui, serve para calar. Nome serve para nomear; aqui, serve para o que não existe. Essa relação de contradição entre o meio e o fim gera o sentido de impossibilidade: o eu lírico só dispõe de instrumentos que, em vez de realizar sua função, a negam. Não há saída, não há possibilidade de expressão — apenas o paradoxo.
A técnica que decide esta questão é a leitura da relação semântica entre as partes, guiada pela estrutura sintática paralela. O conectivo implícito é o "para" (finalidade), mas a finalidade é invertida: o fim contraria a natureza do meio. As alternativas A, B, C e D descrevem estados emocionais (receio, solidão, precaução, intranquilidade) que poderiam ser consequências dessa impossibilidade, mas não traduzem a relação entre os versos — elas extrapolam o que o texto diz, acrescentando sentimentos que o eu lírico não declara. A letra E, ao contrário, nomeia exatamente o conteúdo da relação: é impossível dizer o indizível, emudecer com a voz, nomear o que não nasceu.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece palavras que expressam reações emocionais plausíveis diante do paradoxo (receio, solidão, intranquilidade), mas que não estão no texto. A questão pede o efeito da relação entre os versos, não uma consequência psicológica. O eu lírico não diz que sente medo ou solidão; ele declara uma contradição — e contradição é impossibilidade.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Receio é um sentimento de medo ou apreensão. O texto não menciona medo, temor ou qualquer emoção dessa natureza. O eu lírico faz declarações paradoxais, mas não expressa receio diante delas. A alternativa extrapola: acrescenta um estado emocional que não está autorizado pelo texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Solidão é um sentimento de isolamento ou abandono. Embora o poema tenha um tom introspectivo ("Só tenho..."), a palavra "só" aqui tem sentido de restrição ("apenas"), não de solidão. O texto não fala de estar sozinho ou de falta de companhia. A alternativa extrapola: confunde o advérbio "só" (apenas) com o substantivo "solidão", que não aparece nem é sugerido.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Precaução é um comportamento de cautela, de evitar riscos. Nada no texto sugere que o eu lírico esteja sendo cauteloso ou prevenido. As declarações são paradoxais, não prudentes. A alternativa extrapola: atribui ao eu lírico uma intenção de cautela que não existe no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Intranquilidade é um estado de inquietação, de falta de paz. O texto não descreve agitação ou desconforto emocional. O eu lírico faz afirmações serenas, quase contemplativas, sobre a impossibilidade de expressão. A alternativa extrapola: projeta no texto uma emoção que ele não declara.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Impossibilidade é exatamente o que a relação entre os versos expressa. Em cada estrofe, o eu lírico declara ter um instrumento (palavras, voz, nome) para realizar o oposto de sua função (dizer o indizível, emudecer, nomear o que não nasceu). Essa contradição entre meio e fim torna a ação impossível: não se pode dizer o indizível, não se pode emudecer com a voz, não se pode nomear o que não existe. A palavra "impossibilidade" traduz com precisão o efeito de sentido da relação entre os dois primeiros versos de cada estrofe.
PEGA ESSA DICA!
Em questões que pedem o "efeito de sentido" de uma relação, pergunte-se: o que essa relação faz? Aqui, a estrutura "tenho X para Y" cria um paradoxo — e paradoxo é impossibilidade. As alternativas que nomeiam emoções (receio, solidão, intranquilidade) são distratores clássicos: parecem plausíveis, mas não estão no texto.
Gabarito: letra E — a única alternativa que nomeia a contradição presente na relação entre os versos, sem acrescentar emoções ou comportamentos que o texto não declara.