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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2025

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
vu218214
Banca
VUNESP
Órgão
EsFCEx
Ano
2025
Cargo
CFO/QC ( )

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

Os calções verdes do Bruno

 

Até a camarada professora ficou espantada e interrompeu a aula quando o Bruno entrou na sala. Não era só o que se via na mudança das roupas, mas também o que se podia cheirar com a chegada daquele Bruno tão lavadinho.

 

No intervalo, em vez de irmos todos brincar a correr, cada um ficou só espantado a passar perto do Bruno, mesmo a fingir que ia lá fazer outra coisa qualquer. A antiga blusa vermelha tinha sido substituída por uma camisa de manga curta esverdeada e flores brancas tipo Hawai. Mas o mais espantoso era o Bruno não trazer os calções dele verdes justos com duas barras brancas de lado. A pele cheirava a sabonete azul limpo, as orelhas não tinham cera, as unhas cortadas e limpas, o cabelo lavado e cheio de gel. Até os óculos estavam limpos. Tortos mas limpos.

 

Fiquei no fundo da sala. Eu era grande amigo do Bruno e mesmo assim não consegui entender aquela transformação. Olhei o pátio onde as meninas brincavam “35 vitórias”. Na porta, uma contraluz do meio-dia iluminava a cara espantada da Romina. Eu olhava a Romina, o sol na porta e o Bruno também.

 

O mujimbo* já tinha circulado lá fora e eu nem sabia. Havia uma explicação para tanto banho e perfumaria. Parece que o Bruno estava apaixonado pela Ró. A mãe do Bruno tinha contado à mãe do Helder todos os acontecimentos incríveis da tarde anterior: a procura dum bom perfume, o gel no cabelo, os sapatos limpos e brilhantes, a camisa de botões. A mãe do Bruno disse à mãe do Helder, “foi ele mesmo que me chamou para eu lhe esfregar as costas”.

 

Depois do intervalo o Bruno passou-me secretamente a carta.

 

A carta continuava bonita como eu nunca soube que o Bruno sabia escrever assim. Ele tinha a cara afundada nos braços, parecia adormecido, eu lia a carta sem acreditar que o Bruno tinha escrito aquilo mas os erros de português eram muito dele mesmo.

 

A camarada professora era muito má. Veio a correr e riu-se porque eu tinha lágrimas nos olhos. Pegou na carta e rasgou tudo em pedacinhos tão pequenos como as minhas lágrimas e as do Bruno. A Romina desconfiou de alguma coisa, porque também tinha os olhos molhados.

 

O sino tocou. Saímos. Era o último tempo.

 

No dia seguinte, com um riso que era também de tristeza e uma espécie de saudade, o Bruno apareceu com a blusa dele vermelha e os calções verdes justos com duas riscas brancas de lado. Deu a gargalhada dele que incomodava a escola toda e veio brincar conosco.

 

Na porta da sala, uma contraluz amarela do meio-dia iluminava a cara bonita da Romina e os olhos dela molhados com lágrimas de ternura. E o Bruno também.

 

* Mujimbo: boato.

 

(Ondjaki, Os da minha rua. Adaptado)

De acordo com Nilce Sant’Anna Martins (Introdução à estilística, 2008), “examinando a expressividade ligada à estrutura da frase, é preciso mencionar certas partículas destituídas de valor nocional e sintático, mas portadoras de valor expressivo, comumente chamadas partículas de realce ou espontaneidade, ou ainda expletivos”.

 

A explicação da autora é exemplificada com o termo destacado em:

  1. A“Não era só o que se via na mudança das roupas, mas também o que se podia cheirar com a chegada daquele Bruno tão lavadinho.” (1º parágrafo)
  2. B“... em vez de irmos todos brincar a correr, cada um ficou só espantado a passar perto do Bruno, mesmo a fingir que ia fazer outra coisa qualquer.” (2º parágrafo)
  3. C“... eu lia a carta sem acreditar que o Bruno tinha escrito aquilo mas os erros de português eram muito dele mesmo.” (6º parágrafo)
  4. D“A camarada professora era muito má. Veio a correr e riu-se porque eu tinha lágrimas nos olhos. Pegou na carta e rasgou tudo em pedacinhos...” (7º parágrafo)
  5. E“No dia seguinte, com um riso que era também de tristeza e uma espécie de saudade, o Bruno apareceu com a blusa dele vermelha...” (9º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “A camarada professora era muito má. Veio a correr e riu-se porque eu tinha lágrimas nos olhos. Pegou na carta e rasgou tudo em pedacinhos...” (7º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Partículas expletivas: o "que" de realce no texto

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única em que o termo destacado — "tudo" — funciona como partícula expletiva (de realce), pois pode ser retirado da frase sem prejuízo sintático ou semântico: "Pegou na carta e rasgou em pedacinhos...". A explicação de Nilce Sant'Anna Martins se aplica exatamente a esse caso, como se lê no 7º parágrafo.

A questão cobra um conceito de estilística sintática: as partículas expletivas (também chamadas de realce ou espontaneidade). O comando pede que você identifique, entre os trechos destacados, aquele em que a palavra grifada não tem valor nocional nem sintático, apenas expressivo. Isso significa que a palavra pode ser suprimida sem que a frase perca o sentido ou fique agramatical. O "que" expletivo (como em "é que") é o exemplo clássico, mas a banca usou outra partícula: o pronome indefinido "tudo" em função de realce.

No trecho da alternativa D, temos: "Pegou na carta e rasgou tudo em pedacinhos...". O "tudo" aqui não é o objeto direto de "rasgou" (que é "a carta"), nem acrescenta informação nova — ele apenas reforça, enfatiza a ação de rasgar por completo. Retire-o: "Pegou na carta e rasgou em pedacinhos..." — a frase continua correta e com o mesmo sentido. É exatamente a definição da autora: partícula destituída de valor nocional e sintático, mas portadora de valor expressivo.

A técnica para resolver: teste a supressão. Se a palavra destacada puder ser retirada sem quebrar a sintaxe nem alterar o sentido, é expletiva. Aplique esse teste em cada alternativa e verá que só a D passa.

1Definição
Sem valor nocional
Sem valor sintático
Valor expressivo
2Teste da supressão
Sai sem quebrar a frase
Sai sem mudar o sentido
3Exemplos
"é que" (clássico)
"tudo" (realce)
4Não confundir com
Advérbio de restrição ("só")
Advérbio de inclusão ("mesmo", "também")
Advérbio de intensidade ("muito")
Partículas expletivas (realce)
LEVELsoulevel.com.br
Partículas expletivas (realce): Definição (Sem valor nocional, Sem valor sintático, Valor expressivo); Teste da supressão (Sai sem quebrar a frase, Sai sem mudar o sentido); Exemplos ("é que" (clássico), "tudo" (realce)); Não confundir com (Advérbio de restrição ("só"), Advérbio de inclusão ("mesmo", "também"), Advérbio de intensidade ("muito"))

Alternativa A — ❌ Incorreta

O termo destacado é "". Aqui ele tem valor nocional claro: equivale a "apenas", "somente", restringindo o que se via. Não pode ser retirado sem mudar o sentido — "Não era o que se via..." perderia a ideia de exclusividade. É um advérbio de restrição, não uma partícula expletiva.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O termo destacado é "mesmo". Neste contexto, "mesmo a fingir" equivale a "até a fingir", "ainda que fingindo" — tem valor concessivo, acrescentando uma ideia de ressalva. Não é mero realce; sua retirada empobreceria o sentido. É um advérbio de inclusão/afirmação com matiz concessivo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O termo destacado é "muito". Em "os erros de português eram muito dele mesmo", "muito" intensifica a ideia de posse: os erros eram bem dele, característicos dele. Tem valor nocional de intensidade (advérbio de intensidade). Sua retirada — "eram dele mesmo" — mantém a frase, mas perde a ênfase quantitativa. Não é expletivo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O termo destacado é "tudo". Como provado acima, "rasgou tudo em pedacinhos" = "rasgou em pedacinhos". O "tudo" é mero reforço expressivo: não é objeto direto (o objeto é "a carta"), não acrescenta informação nova, apenas intensifica afetivamente a ação de rasgar. Sua supressão não prejudica a sintaxe nem o sentido. É a partícula expletiva descrita por Nilce Sant'Anna Martins.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O termo destacado é "também". Em "com um riso que era também de tristeza", "também" tem valor aditivo: o riso era de alegria e também de tristeza. Acrescenta uma informação (a tristeza se soma à alegria). Não é mero realce; é um advérbio de inclusão com função coesiva. Sua retirada mudaria o sentido, pois eliminaria a ideia de soma.

NÃO CAIA NESSA!

A banca não usou o "que" expletivo clássico ("é que"), mas o pronome "tudo" em função de realce. O candidato que só decora o exemplo "é que" não reconhece a partícula em outra roupagem. O teste da supressão resolve: se a palavra sai sem prejuízo, é expletiva.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar partícula expletiva, pergunte: "posso apagar esta palavra sem quebrar a frase e sem mudar o sentido?" Se sim, é realce. Se não, é advérbio, pronome ou conjunção com função própria.

Gabarito: letra D.

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