Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu218229
Banca
VUNESP
Órgão
FEMA
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Considere o texto a seguir para responder a questão
“Gato que brincas na rua”, de Fernando Pessoa
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
(www.arquivopessoa.net)
As afirmações feitas pelo eu lírico nos dois últimos versos do poema estabelecem
Auma ironia.
Bum paradoxo.
Cuma gradação.
Duma hipérbole.
Eum eufemismo.
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GabaritoB — um paradoxo.
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Paradoxo: a contradição que se sustenta
Gabarito: letra B. Os dois últimos versos do poema — "Eu vejo-me e estou sem mim, / Conheço-me e não sou eu" — estabelecem um paradoxo, pois unem ideias que se contradizem logicamente (ver-se e estar sem si; conhecer-se e não ser si mesmo), criando uma afirmação aparentemente absurda, mas carregada de sentido filosófico. A passagem que ancora a resposta é exatamente essa: o eu lírico afirma, ao mesmo tempo, estar sem si e não ser eu, o que é uma contradição interna — a marca do paradoxo.
"Eu vejo-me e estou sem mim, / Conheço-me e não sou eu."
Aqui, o verbo ver pressupõe a presença de quem vê, mas o eu lírico diz que está sem mim; o verbo conhecer pressupõe identidade, mas ele afirma não sou eu. Essa junção de termos opostos que se excluem mutuamente, mas que coexistem na mesma afirmação, é a definição clássica de paradoxo (também chamado de oximoro quando a contradição se dá entre palavras justapostas).
O comando da questão
O enunciado pergunta: "As afirmações feitas pelo eu lírico nos dois últimos versos do poema estabelecem...". Isso é uma questão de identificação de figura de linguagem — você deve reconhecer qual recurso expressivo está presente no trecho. Não se trata de interpretar o sentido global do poema, mas de nomear a figura que os versos constroem. Para isso, é preciso dominar as definições de cada figura listada nas alternativas e saber aplicá-las ao texto.
O texto e o movimento argumentativo
O poema de Fernando Pessoa (heterônimo? na verdade, é de Fernando Pessoa ele-mesmo, mas isso não importa aqui) apresenta um eu lírico que inveja o gato porque o gato é feliz por ser aquilo que é, sem consciência reflexiva. O gato "sente só o que sente", vive em harmonia com as "leis fatais". Já o eu lírico, por ter consciência, vive uma cisão interna: ao se olhar, não se reconhece; ao se conhecer, não é ele mesmo. Essa cisão é expressa nos dois últimos versos por meio de uma contradição lógica: como posso me ver se estou sem mim? Como posso me conhecer se não sou eu? Essa é a essência do paradoxo.
A técnica que decide
Paradoxo (ou oximoro) é a figura de pensamento que consiste em unir ideias contraditórias que, à primeira vista, parecem excluir-se, mas que, no contexto, expressam uma verdade profunda. Exemplo clássico: "Vivo sem viver em mim" (Santa Teresa). No trecho, "vejo-me e estou sem mim" e "conheço-me e não sou eu" são afirmações contraditórias — ver-se implica estar presente, conhecer-se implica ser o mesmo. A contradição é interna à própria frase, não entre duas frases opostas (isso seria antítese).
Ironia seria dizer o contrário do que se pensa, com tom de deboche — não é o caso. Gradação é uma sequência crescente ou decrescente de ideias — aqui não há progressão. Hipérbole é exagero intencional — não há exagero, há contradição. Eufemismo é suavização de algo desagradável — não se aplica.
Análise das alternativas
Figuras de linguagem: Paradoxo (gabarito) (Contradição lógica interna, "Vejo-me e estou sem mim", "Conheço-me e não sou eu"); Ironia (Dizer o oposto do que pensa, Tom crítico/deboche); Gradação (Sequência crescente/decrescente); Hipérbole (Exagero intencional); Eufemismo (Suavização de ideia desagradável)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Ironia consiste em dizer o oposto do que se quer significar, geralmente com intenção crítica ou humorística. No trecho, o eu lírico não está sendo irônico: ele faz uma afirmação séria e filosófica sobre sua condição existencial. Não há inversão de sentido com tom de zombaria. A alternativa tangencia o tema ao oferecer uma figura que também envolve contradição, mas de natureza diferente (a ironia é uma contradição entre o dito e o intencionado, não entre os termos da própria frase).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paradoxo é a figura que expressa uma contradição lógica aparente. Nos versos, "vejo-me e estou sem mim" e "conheço-me e não sou eu" são afirmações que se contradizem internamente: ver-se pressupõe estar presente; conhecer-se pressupõe ser o mesmo. O eu lírico une esses opostos para expressar a cisão do sujeito — ele se observa como se fosse outro, não se reconhece. Essa é a definição exata de paradoxo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Gradação é a enumeração de ideias em escala crescente (clímax) ou decrescente (anticlímax). Exemplo: "Ele era pequeno, médio, grande, gigante." No trecho, não há sequência progressiva; há duas afirmações paralelas e contraditórias. A alternativa extrapola ao tentar encaixar uma figura que exige progressão, que não existe no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Hipérbole é o exagero intencional para dar ênfase. Exemplo: "Chorei rios de lágrimas." No trecho, não há exagero; há uma contradição conceitual. O eu lírico não está exagerando, está expressando uma angústia metafísica por meio da contradição. A alternativa troca o conceito: confunde exagero com contradição.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Eufemismo é a suavização de uma ideia desagradável ou chocante. Exemplo: "Ele foi para o andar de cima" (em vez de "morreu"). No trecho, não há nenhuma tentativa de atenuar algo; há uma afirmação paradoxal sobre a identidade. A alternativa foge ao tema, pois o eufemismo não tem relação com a contradição presente nos versos.
Fechamento
A questão testa sua capacidade de distinguir figuras de pensamento que envolvem oposição. A pegadinha está em confundir paradoxo com ironia ou antítese. Lembre-se: o paradoxo é uma contradição interna (dentro da mesma frase ou ideia), enquanto a antítese é uma oposição entre duas ideias (ex.: "amor e ódio"). Aqui, a contradição está dentro de cada verso — "vejo-me e estou sem mim" —, o que caracteriza o paradoxo.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras de linguagem, pergunte: há exagero? (hipérbole), há suavização? (eufemismo), há progressão? (gradação), há inversão de sentido com tom de deboche? (ironia), há contradição lógica? (paradoxo). A resposta certa é a que melhor se encaixa no efeito de sentido do trecho.